Blog dedicado a cinema, literatura e política

sábado, 4 de julho de 2015

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO E 1984 - 2 PORRADAS DA LITERATURA - ATENÇÃO: SPOILERS



Mecanismo de Sustentação dos Sistemas Totalitários em Brave New World e Nineteen Eighty-Four

Sobre o trabalho
de: Benedito Gomes Bezerra

AO LEITOR

A gênese da presente obra foi a necessidade de concluir o curso de Licenciatura em Letras - Português e Inglês, da Universidade Estadual do Ceará, com uma pesquisa em literatura inglesa. Não obstante a obrigatoriedade, a tarefa foi cumprida com prazer, dado que centrada em temática e autores da preferência do pesquisador.
Trabalhamos apenas com as versões originais de Brave New World e 1984. No entanto, ambas as obras estão disponíveis em Português(Admirável Mundo Novo e 1984). A essas traduções remetemos o leitor não habilitado à apreciação dos textos em Inglês.
Brave New World e 1984 prestam-se a uma reflexão global sobre o mundo após as grandes guerras mundiais. Interessarão aos cristãos, particularmente, as concepções morais retratadas, bem como certas referências diretas e indiretas ao Cristianismo.
A pesquisa ressente-se da influência de fatores como a urgência do prazo de sua conclusão e a escassez de tempo disponível do pesquisador, dividido entre o trabalho bancário, o magistério no STBC e a própria pesquisa.
Se, entretanto, a leitura dessa obra despertar no leitor o interesse pelos escritos que a inspiraram, sentir-me-ei plenamente recompensado. De qualquer modo,
"Não pretendo erigir novos ídolos; basta-me que
os antigos aprendam comigo o que significa ter pés de barro." (Nietszche)
Fortaleza, 09/11/97
Créditos
Mecanismo de Sustentação dos Sistemas Totalitários em BRAVE NEW WORLD E NINETEEN EIGHTY-FOUR
BENEDITO GOMES BEZERRA
Profa. Maria Aurora Rocha Costa
Orientadora
À Professora Lourdes Bernardes, pela orientação segura, inspirativa e inteligente.
‘O brave new world / That has such people in’t!’
(Shakespeare’s Miranda, in The Tempest, 5.I.183)
FORTALEZA - CEARÁ - 1996

Introdução
Situadas dentro da tradição inaugurada por A Utopia de Thomas Morus, confiada a Erasmo para publicação em 1516, duas importantes obras foram produzidas no decorrer da primeira metade do século atual, ambas na Inglaterra. A primeira, Brave New World, foi escrita por Aldous Huxley e publicada em 1932; a segunda, 1984, surgiu em 1948, sendo seu autor George Orwell, cujo nome verdadeiro era Eric Blair.
Na linha de A Utopia, mas invertendo o otimismo desta, Brave New World e 1984 foram construídas como anti-utopias(ou distopias, conforme alguns autores), caracterizando-se por projetarem um quadro pouco animador do futuro, ainda distante, de acordo com Huxley, ou dramaticamente próximo, conforme Orwell. As duas obras retratam sistemas totalitários cujas práticas e mecanismos de manutenção do poder encontram impressionantes paralelos e oferecem vários insights quando confrontados com a realidade dos sistemas políticos hodiernos, mesmo aqueles ditos sistemas democráticos. Sua temática continua atual, sendo relevante uma abordagem crítica através da qual se possa extrair delas a contribuição que podem trazer para um melhor entendimento do nosso tempo e realidade.
O objetivo deste trabalho é pesquisar, nas referidas obras, os mecanismos de condicionamento e manipulação humana utilizados pelos sistemas totalitários para alcançar e se manter no poder. Tal pesquisa se fará tanto isolada quanto comparativamente nos dois romances. Numa última etapa do trabalho, empreenderemos uma análise crítica, apoiada em textos e livros relacionados com o tema, através da qual confrontaremos os referidos mecanismos com as práticas comuns nos assim chamados sistemas democráticos, em especial aquele vigente no Brasil.
Dentro dos limites de tempo e bibliografia disponíveis, esperamos contribuir positivamente para um melhor entendimento dos romances em apreço, bem como abrir a possibilidade de uma reflexão crítica sobre a nossa própria realidade social e política.

Conclusão
Verificamos importantes diferenças entre os sistemas criados por Huxley e Orwell. Tais diferenças foram discutidas no corpo deste trabalho e devem-se, em parte, ao fato de que, dentro da perspectiva de antecipação do futuro, a obra de Huxley coloca-se como uma espécie de profecia, enquanto Orwell tem o objetivo de propiciar aos seus leitores(contemporâneos) um dramático aviso de um perigo iminente dentro de seu próprio horizonte histórico. Huxley cria uma alegoria onde tudo termina bem, as punições são suaves(o exílio) e as inquietações são sanadas através da soma. O sistema de Orwell é bem mais amargo, devido ao seu engajamento político. Ele prevê uma séria destruição da qualidade de vida, oprimida pela crescente falta de liberdade.
Os paralelos entre as duas obras, bem como entre elas e o mundo contemporâneo, são inegáveis e foram demonstrados em vários aspectos. Não surpreende que Brave New World e 1984 tenham alcançado seu lugar entre as obras de literatura dignas de estudo em uma instituição acadêmica. Além de seu valor intrínseco como peças literárias, ocasionando às vezes controvertidas discussões, como é o caso de 1984 com seu "Livro de Goldstein", uma autêntica "obra dentro da obra", e seu apêndice "Os Princípios do Newspeak"(inseparável do romance), ambos evocam uma fecunda reflexão sobre a realidade do leitor e do crítico.
O estudo que resultou neste trabalho não foi exaustivo, nem teve tal pretensão. Diversos são os aspectos não enfocados, por não se situarem dentro do objetivo do autor. O desafio de explorar Brave New World e 1984, e com eles interagir, continua lançado para pesquisadores futuros.
Bibliografia
1. BROWN, G. E. Brodie’s Notes on George Orwell’s Nineteen Eighty-Four.(Pan Study Aids). London: Pan Books Ltd, 1977.
2. CALDER, Jenni. Animal Farm & Nineteen Eighty-Four. (Open Guides to Literature). Milton Keynes/Philadelphia: Open University Press, 1987.
3. EVANS, I. A Short History of English Literature.Harmondsworth: Penguin Limited, 1973(3ª edição).
4. GRAMSCI, Antonio. Poder, Política e Partido. (Tradução Eliana Aguiar). São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.
5. HUXLEY, Aldous. Brave New World. London: Grafton Books, 1977.
6. ______________. Brave New World Revisited. (Flamingo Modern Classic). London: Flamingo, 1994.
7. LAGE, Nilson. Ideologia e Técnica da Notícia. Petrópolis: Editora Vozes, 1979.
8. MORUS, Thomas. A Utopia. (Tradução Luís de Andrade). Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint, s.d.
9. ORWELL, George. Nineteen Eighty-Four. Harmondsworth: Penguin Books, 1954.
10._______________. Animal Farm. Harmondsworth: Penguin Books, 1989.
11.RUSSEL, Bertrand. O Poder - Uma Nova Análise Social. (Tradução Brenno Silveira). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957.
12.SODRÉ, Muniz. Teoria Da Literatura de Massa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978.
13.THORNLEY, G.C. An Outline of English Literature. London: Longman, 1968.
14.WALDYR LIMA(ed). A Brief View of British Literature. Waldir Lima Editora, s.d.
ARTIGOS
1. BRISSAC, Chantal. "12 Anos: Menina ou Mulher?", in Revista Isto É nº 1394, de 19/06/96.
2. DANTAS, Edna. "Boneca de Louça", in Revista Isto É nº 1394, de 19/06/96.
3. SILVA, Juremir Machado da. "Ódio Sem Fim", in Revista Isto É nº 1381, de 20/03/96.
4. "Drogas, As Armadilhas Fatais", in Tudo - O Livro do Conhecimento. Rio de Janeiro: Editora Três, 1996(pp. 242-244).

Índice
Mecanismo de Sustentação dos Sistemas Totalitários em Brave New World e Nineteen Eighty-Four


Mecanismo de Sustentação dos Sistemas Totalitários em Brave New World e Nineteen Eighty-Four

A Estrutura Social e os Mecanismos de Sustentação do Sistema em
Brave New World

de: Benedito Gomes Bezerra

Aqui você encontra:
1.1. A Estrutura Social
1.2. O Sistema de Castas
1.3. O Condicionamento Genético
1.4. A Hipnopedia
1.5. Soma
1.6. Promiscuidade Sexual

1.1. A Estrutura Social
O "admirável mundo novo" criado por Huxley foi projetado para seiscentos anos após a época em que escrevia o autor, i.e., para 2532 A.D., ou 632 A.F.(Era de Ford). Longe de ser um mundo dominado pela ciência, ele é antes um mundo onde a ciência, especialmente a genética, foi dominada pelo homem, posta a serviço de um sistema político-social.
Como está constituída a estrutura do poder neste "Mundo Novo"? Assim como em 1984 temos a figura dominadora do Grande Irmão (Big Brother), há a constante referência a um líder invisível, conhecido como Ford( uma alusão irônica ao termo cristão "Lord"). Trata-se do indivíduo que no passado iniciou o processo de condicionamento humano tão comum no romance:
"O caso do Pequeno Reuben aconteceu apenas vinte e três anos depois que o primeiro Modelo T de Nosso Ford foi colocado no mercado(31)"(O grifo é meu).
Ford, contudo, é mais que um líder do passado. Ele tornou-se uma espécie de deus em um mundo sem deuses e sem religiões. Em variadíssimas ocasiões, Ford conota um sentido religioso, pós-cristão. No mundo de Brave New World, as pessoas não fazem o sinal da cruz, mas o "sinal do T", em honra de Ford. Há um grande auditório reservado às festividades do Ford’s Day (71) e as exclamações "Ford!"(idem), "thank Ford!"(ibid.), ou "for Ford’s sake!" (79) são constantemente encontradas na boca dos diversos personagens , com evidentes paralelos religiosos, especialmente cristãos. No escritório de Mustapha Mond, um dos Controladores Mundiais, encontramos um livro chamado "MINHA VIDA E OBRA, POR NOSSO FORD" (175) e uma referência à "Sociedade para a Propagação do Conhecimento Fordiano".
Em termos de líderes concretos, de carne e osso, temos uma estrutura relativamente simples no topo da pirâmide e uma infinidade de pequenos cargos nos níveis inferiores. Embora os níveis hierárquicos nem sempre estejam claramente delineados, podemos observar o que se segue:
O nível mais alto do poder é exercido por um colegiado, cujos membros são referidos como "Os Dez Controladores Mundiais"(38) . Durante o desenrolar da história, ficamos conhecendo apenas o "Controlador Residente para a Europa Ocidental"(idem), Mustapha Mond. Ele é tratado reverentemente por "his fordship". Ouvi-lo é captar palavras "direto da boca do próprio Ford"(ibid.). Trata-se. de fato, da maior autoridade com a qual temos contato durante toda a história.
O segundo líder mais importante, pelo menos no enredo de Brave New World, é o D.H.C.(Director of Hatcheries and Conditioning) do Centro de Condicionamento de Londres. Sua autoridade incide sobre todo o processo de reprodução in vitro e condicionamento, vitais para o funcionamento do Novo Mundo. Comooacode doutor!Eles tão vindo!202 os principais personagens da história são funcionários do Centro, o Diretor é sempre uma figura temida, antes de cair em desgraça devido ao caso Linda/Selvagem(conf. 124,125). Fanny adverte Lenina por estar há quatro meses saindo com apenas um homem, Henry Foster:
"Você sabe quão fortemente o D.H.C. se opõe a qualquer coisa intensa..."(43)
Outro personagem importante, Bernard Marx, também passa por momentos difíceis face à pessoa do Diretor. No Cap. VI, p. 83, Bernard hesita e respira profundamente antes de entrar para falar com o Diretor. Parece ser mais difícil para ele falar com o Diretor do que com o Resident Controller. Mais tarde, será Bernard o responsável pela revelação de que o Diretor e Linda tiveram um filho, John, o Selvagem. Tal escândalo ocasionará a queda do D.H.C., para alívio de Bernard.
Como um poder aparentemente paralelo ao dos Controladores Mundiais, há a figura do "Arch-Community-Songster of Canterbury". O cargo é uma referência ao Arcebispo de Canterbury, a figura religiosa mais poderosa e influente na Inglaterra, como representante da religião oficial, o Anglicanismo. No entanto, ele não aparece muito, a não ser no caso da audiência frustrada com o Selvagem (140-143). O conselho que ele dá a Bernard, por causar-lhe uma perda de tempo, é uma exortação religiosa em sua forma:
"...endireite seus caminhos, meu jovem amigo, endireite seus caminhos."(143)
Ao dizer essas palavras, ele faz o "sinal do T". Na saída, porém, ele convida Lenina para saírem juntos, mostrando que, ao contrário de outras figuras religiosas do passado, ele não tem problemas com relação ao sexo.
Abaixo dessas figuras, temos diversos outros cargos relacionados com o Centro e fora dele. Alguns apenas são mencionados e não têm qualquer relevância no enredo, a não ser pelo aspecto pitoresco do nome do cargo. Em seus dias de notoriedade, Bernard trava relacionamento social com o Diretor de Predestinação, o Supervisor de Bokanovskificação, o Meteorologista Residente e o Diretor de Crematórios, entre outros. O próprio Bernard ocupa um cargo relacionado com a hipnopedia e seu amigo Helmholtz é um Engenheiro Emocional.
É imperativo ressalvar que a descrição acima, em grande parte, refere-se mais diretamente ao staff do Centro de Condicionamento de Londres do que à estrutura hierárquica da sociedade em geral. Mais detalhes sobre a estrutura social do Novo Mundo serão dados no próximo capítulo, especialmente no item dedicado à análise do sistema de castas.

1.2. O Sistema de Castas
O sistema de castas é construído não em bases sócio-econômicas, mas em uma base genética. Cada indivíduo é predestinado a pertencer a uma ou outra casta desde a proveta. As diversas castas são idealizadas de modo a permitir o perfeito funcionamento da máquina social. Como resultado da predestinação genética in vitro e do processo "neo-pavloviano" de condicionamento( vide abaixo) , inexiste a possibilidade de ascensão ou queda social, no que diz respeito à mudança de uma casta para outra. Aliás, nenhum indivíduo, mesmo um Épsilon, desejaria mudar de casta, tal o seu nível de condicionamento. Cada um é "feliz" em seu status social e em sua função.
Para as atividades intelectuais e de chefia, foi criada a casta superior, dos Alfas, exteriormente caracterizados pelo uso de roupas de cor cinza e pela compleição física avantajada(à medida em que o grau de importância da casta diminui, as pessoas recebem um corpo menor e um cérebro menos capaz). Eles formam a elite diretora do Novo Mundo. Os principais personagens do romance são Alfas, exceto Linda(uma Beta-Minus) e John, nascido fora dos limites do Novo Mundo, não pertencendo, portanto, a nenhuma das castas. Como nas demais castas, temos a subdivisão entre Alfa-Plus e Alfa-Minus, embora não esteja claro em que exatamente consiste a diferença entre uma situação e outra.
Situada logo abaixo na escala de dominação, temos a casta Beta, cuja cor das roupas não é enfatizada, talvez por não carregar o estigma das castas inferiores. Os Betas estão situados tão perto dos Alfas que suas atribuições não estão claramente diferenciadas. Eles formam as chamadas castas superiores e vivem uma interação aparentemente pacífica. O D.H.C., um Alfa, quando jovem saiu com uma Beta-Minus, Linda, o que mostra a ausência de maiores preconceitos entre as duas classes.
Nos níveis inferiores, os Gamas são marcados pelo uso do verde em suas roupas, e são considerados estúpidos pelos Betas, apenas um nível acima deles. Os Deltas usam roupas cáqui e os Épsilons, a casta mais baixa, usam roupas de cor preta, "que é uma cor horrorosa"(33).
Temos, portanto, as castas Alfa, Beta, Gama, Delta e Épsilon compondo o tecido social do Novo Mundo. Há uma diferença real entre uma casta e outra, definida desde a sua predestinação e perpetuada em seu condicionamento, conforme veremos.

1.3. O Condicionamento Genético
O processo pelo qual cada indivíduo é geneticamente condicionado a ocupar seu lugar no corpo social começa na Sala de Predestinação Social(21). Uma vez que não há necessidade de muitas mulheres férteis, o sistema permite o desenvolvimento normal de apenas trinta por cento dos embriões femininos. Os demais são deliberadamente tornados estéreis, através de doses maciças de hormônios sexuais masculinos(22). Além disso, cada bebê é "decantado" de acordo com o papel social a ele destinado, não só quanto à casta, mas também quanto ao tipo de atividade ou cargo a preencher:
"Nós decantamos nossos bebês como seres humanos socializados, como Alfas ou Épsilons, como futuros agricultores ou futuros... Diretores de Chocadeiras"(22).
Noutro ponto do condicionamento do embrião, temos o racionamento do oxigênio como meio de diferenciação entre as castas. Através da diminuição do oxigênio, conseguem-se cérebros menos capacitados e corpos mais raquíticos. Um indivíduo Épsilon, por exemplo, deve ter tanto um cérebro estúpido como um corpo de anão:
"‘Quanto mais baixa a casta,’ disse o Sr. Foster, ‘menos oxigênio’"(23).
Um progresso científico perseguido pelo sistema era conseguir que um Épsilon, cuja mente estava amadurecida aos dez anos também estivesse fisicamente capacitado para o trabalho nessa idade.
"Em Épsilons, não precisamos de inteligência humana."(23)
Assim, seriam evitados "longos anos de imaturidade supérflua e desperdiçada"(23), i.e., dos dez aos dezoito anos.
No longo itinerário percorrido pelas provetas com os embriões, outros detalhes de condicionamento eram lembrados. Por exemplo, a certa altura, aqueles que são predestinados a viver em regiões tropicais ou trabalhar em minas passam por túneis onde são submetidos alternadamente ao calor e ao frio, sendo que o frio é levado ao ponto de máximo desconforto, de modo que eles cresçam detestando climas frios. Mais tarde, suas mentes serão condicionadas a corroborar o julgamento de seus corpos com relação ao clima. Eles devem não só trabalhar no calor, mas amar o calor:
"Todo o condicionamento tem este objetivo: fazer as pessoas gostarem de seu inescapável destino social (24).
Nas salas de condicionamento neo-pavloviano, o processo é agora aplicado aos bebês já "decantados", i.e., fora das provetas, com apenas oito meses de idade(Cap. II, p. 27ss). Através de explosões, sirenes e choques elétricos, associados ao contato com flores e livros, consegue-se que as crianças da casta Delta cresçam "instintivamente" detestando tais coisas. A Comunidade precisava evitar que pessoas de castas inferiores gastassem tempo com livros, onde poderiam aprender coisas nocivas ao seu condicionamento. Quanto à natureza, representada pelas flores, tem o gravíssimo defeito de ser gratuita. Uma vez que não incentiva o consumo de bens e serviços deve ser igualmente detestada.
Como se pode inferir do exemplo acima, todo o comportamento futuro de cada criança, mesmo das castas superiores, é cuidadosa e impiedosamente condicionado desde a mais tenra infância. Os resultados de tal processo são evidentes nas idéias e ações dos personagens através do livro. Vejamos dois exemplos:
Em sua aula prática através do Centro, o D.H.C. e seus alunos passam pelo corredor próximo a um dormitório onde as crianças estão sendo submetidas a uma sessão de hipnopedia(processo de ensino durante o sono, sobre o qual falaremos adiante). Ao comando de "silêncio" transmitido pelos alto-falantes,
"Os alunos e o próprio Diretor se colocaram automaticamente na ponta dos pés. Eles eram alfas, é claro; mas mesmo os Alfas tinham sido bem condicionados"(32).
Tais ações "automáticas" são constantes no dia a dia das pessoas no "admirável mundo novo". Bernard, de quem se suspeita ter sido cometido algum erro de condicionamento ainda in vitro, e que tem algum nível de consciência crítica, não está livre da ditadura de sua programação genética. Quando o Selvagem lhe mostra uma cicatriz na testa, ele rapidamente muda o olhar , como uma imposição de seu condicionamento:
"Seu condicionamento o fez não só muito miserável como também profundamente delicado. A simples sugestão de doença e ferimentos era para ele não só assustadora, mas também repulsiva e mesmo repugnante. Como sujeira, ou deformidade, ou velhice"(115).
Além de pensar, fazer e gostar apenas daquilo que lhes foi predestinado, as pessoas também sabem apenas o necessário ao desempenho de seu papel no conjunto da sociedade. Daí as dificuldades de Linda diante das perguntas do pequeno John:
"Quando uma criança lhe pergunta como um helicóptero funciona, ou quem criou o mundo - bem, o que você pode responder se você é uma Beta e sempre trabalhou na Sala de Fertilização? O que você pode responder?" (103)
Não surpreende que ele logo chegue à conclusão de que "os anciãos do pueblo tinham respostas muito mais claras"(109). Os "selvagens" tinham uma explicação clara, ainda que não "civilizada", para questões profundas tais como a origem do mundo e da vida.
Alfa ou Épsilon, pouco ou nada se pode fazer para fugir a esse comportamento pré-determinado. De acordo com Mustapha Mond, mesmo após ser "decantado", o indivíduo "continua dentro de uma proveta - uma proveta invisível de fixações infantis e embrionárias"(179). Isso é um fato mesmo para os Alfas, a não ser pelo fato de que, relativamente falando, suas "provetas invisíveis" são bem maiores e espaçosas que as dos outros.

1.4. A Hipnopedia
O condicionamento in vitro é apenas o começo de um longo e meticuloso processo. A "educação moral, que nunca deve, em circunstância alguma, ser racional"(32) é levada a efeito através da técnica chamada "hipnopedia", ou ensino ministrado durante o sono. Por meio de mensagens gravadas e repetidas exaustivamente por aparelhos colocados sob o travesseiro das crianças e adolescentes, o sistema inculca-lhes o comportamento esperado e os preconceitos próprios das respectivas castas. O conteúdo do ensinamento, freqüentemente formulado em termos simplórios, sem qualquer brilho intelectual, consegue ser absorvido e alcançar sucesso apenas pela força da repetição. É um autêntico processo de lavagem cerebral.
Uma lição, por exemplo, ensinava o seguinte a oitenta crianças Beta:
"Crianças Alfa usam cinza. Eles trabalham bem mais duro que nós, pois são extremamente espertos. Eu realmente sou muito feliz por ser um Beta, porque não trabalho tanto E também somos muito melhores que Gamas e Deltas. Gamas são estúpidos. Eles usam verde, e crianças Delta usam cáqui. Oh! Não, eu não quero brincar com crianças Delta. Epsilons são ainda piores. Eles são estúpidos demais para aprender a ler ou escrever. Além disso, eles usam preto, que é uma cor horrível. Eu sou tão feliz porque sou um Beta(33)!
Uma lição como essa seria repetida cento e vinte vezes por dia, três vezes em cada semana, por trinta meses. Depois de tudo isso, torna-se impossível pensar diferentemente do pré-determinado pelo Estado:
"Até que a mente da criança torna-se essas sugestões, e o conjunto dessas sugestões torna-se a mente da criança. A mente do adulto também - por toda a sua vida. A mente que julga, deseja e decide - formada por essas sugestões. Mas todas elas são nossas sugestões. Sugestões do Estado(34)!
Esse tipo de condicionamento não podia ser conseguido através de choques elétricos ou coisas do gênero. A hipnopedia é um verdadeiro curso de comportamento, para o qual deve ser usada a palavra, mas palavra "sem racionalidade"(33). De acordo com o Diretor, a hipnopedia é
"...a maior força moralizadora e socializante de todos os tempos"(idem).
A hipnopedia, transmitida em grande parte por meio de aforismos e máximas, revela suas marcas na vida das personagens nos mais diversos momentos de seu dia a dia. Muitas vezes relacionada à sexualidade das pessoas, encontramos a afirmação de que "todo mundo pertence a todo mundo"(42), que após sessenta e duas mil repetições torna-se uma verdade indisputável. Referindo-se ao consumo de soma(vide item abaixo), temos: "um centímetro cúbico cura dez sentimentos tristes"(53); ou, ainda: "um grama é melhor que uma raiva"(idem). É digno de nota o jogo de palavras em inglês, facilitando a memorização e posterior repetição.
O efeito da hipnopedia pode ser avaliado em um exemplo prático: o caso de Lenina. Em todas as situações, ela tem um "provérbio hipnopédico" para justificar suas opiniões. Eles funcionam freqüentemente como um mecanismo de defesa. É como se ela citasse a Bíblia, a Constituição, ou algo parecido. O seguinte diálogo entre Lenina e Bernard, em uma sorveteria, ilustra bem essas afirmações:
"-’Um grama na hora certa economiza nove’- disse Lenina, exibindo um brilhante tesouro de sabedoria hipnopédica.
Bernard empurrou impacientemente a taça oferecida.
-’Controle-se’ - disse ela. -’Lembre-se, um centímetro cúbico cura dez sentimentos tristes.’
-’Oh!, pelo amor de Ford, cale-se!’ - gritou ele.
Lenina deu de ombros: -’Um grama é sempre melhor que uma raiva’ - concluiu com dignidade, e tomou o sundae ela mesma"(79).
Poderíamos aduzir vários exemplos nos quais Lenina e outros personagens citam a "sabedoria" aprendida através das infinitas repetições hipnopédicas. O exemplo acima, no entanto, é bastante eloqüente: demonstra a eficácia desse mecanismo tão bem usado pelo Estado, do ponto de vista de seus propósitos. A hipnopedia produz uma espécie de automatismo moral nas pessoas. Elas pensam e agem como programadas.

1.5. Soma
Trata-se do mais um fascinante, ainda que terrivelmente maquiavélico, instrumento de dominação. É a droga perfeita, desenvolvida para atuar sempre que algo ameace sair errado ou interferir no condicionamento de alguém:
"O mundo é estável agora... e se algo eventualmente sair errado, há a soma"(177).
O Controlador Mundial Mustapha Mond conta aos alunos do Diretor como a soma foi criado:
"Dois mil farmacologistas e bioquímicos foram subsidiados em 178 do Ano de Ford. Seis anos depois, soma era produzida comercialmente. A droga perfeita. Todas as vantagens do Cristianismo e do álcool; nenhum dos seus defeitos"(52,53).
O único tumulto de que se tem notícia no romance é provocado quando cento e sessenta e dois Deltas são confrontados com a possibilidade de serem privados de sua ração diária de soma(cap. XV). Mesmo assim, a confusão é provocada por um elemento estranho, não condicionado, o Selvagem, que se propõe salvar o grupo do que ele considera um veneno para a alma e para o corpo. Normalmente pacíficos, os Deltas se enfurecem e estão a ponto de trucidar o Selvagem e Helmholtz, que tenta ajudá-lo (Bernard se acovarda e apenas assiste à cena), quando a Polícia intervém. As armas usadas para acalmar a turba são emblemáticas: pistolas de água carregadas com líquido anestésico, uma Caixa de Música Sintética reproduzindo uma mensagem apaziguadora e máquinas pulverizadoras carregadas com vapor de soma. O resultado é quase imediato:
"Dois minutos depois, a Voz e o vapor de soma tinha produzido seu efeito. Em lágrimas, os Deltas se abraçavam e beijavam um ao outro"(173).
Em forma de sorvete, servido com café, vaporizado, ou mais comumente apresentado em tabletes fornecidos diariamente pelo Estado, a droga oficial cumpre bem seu papel de manter as pessoas "na linha". Os indivíduos que não apreciam soma tornam-se estranhos ao seu próprio mundo, como é o caso de Bernard, ou acentuam sua imagem de "não civilizados", como acontece com John, o Selvagem.

1.6. Promiscuidade Sexual
Não há nada parecido com o conceito de família na Inglaterra da Era de Ford. Ao contrário, família é uma idéia do passado, desconhecida dos jovens alunos do D.H.C. Uma vez que a reprodução humana é toda feita em "chocadeiras", o sexo tem apenas a função de proporcionar prazer a homens e mulheres, além de, desta forma, servir como mais um mecanismo de dominação e perpetuação do Estado, à medida em que acalma, aliena e distrai os indivíduos. As pessoas não se pertencem, nem às suas famílias, pois estas não existem. Todos são membros do "corpo social".
Naturalmente, a educação sexual é parte do condicionamento de todos os indivíduos, homens e mulheres. As crianças são estimuladas a praticarem "jogos eróticos". Um garoto que reiteradamente "reluta" em brincar sexualmente com uma menininha é levado ao psicólogo "apenas para ver se há alguma coisa anormal"(36). O sexo é encarado como uma espécie de entretenimento recomendado a todas as idades.
Mais do que praticar sexo, é preciso fazê-lo livremente, com muitos parceiros. Lenina é enfaticamente advertida por sua colega e amiga Fanny pelo fato de estar saindo unicamente com Henry Foster já há quatro meses(42ss). Não era necessário, é claro, deixar Henry, mas apenas sair com outros homens além dele:
"...você precisa ser um pouco mais promíscua..."(44)
Mesmo enfrentando essa crise passageira, Lenina não foge à regra da promiscuidade geral:
"O elevador estava lotado de homens dos Vestiários Alfa, e a entrada de Lenina foi saudada por muitos gestos de cabeça e sorrisos amigáveis. Ela era uma garota popular e, em um momento ou outro, tinha passado uma noite com quase todos dentre eles"(55).
Devido ao seu condicionamento na área sexual, a jovem Linda seria duramente rejeitada pelas outras mulheres na Reserva Selvagem, onde cada uma devia ter seu próprio homem, idéia absurda para Linda:
"Uma vez uma porção de mulheres veio e fez uma cena porque seus homens vinham me ver. Ora, por que não?" (102)
Transportado para a civilização, John jamais viria a entender a promiscuidade reinante lá. Mutatis mutandis, enfrenta o inverso da situação de sua mãe Linda. Bernard também tem problemas quanto à aceitação da promiscuidade proposta, pelo menos em se tratando de sua relação com Lenina. Era imperativo, para ser civilizado e integrado à sociedade, entender novamente o preceito de que "todo mundo pertence a todo mundo", em todo e qualquer aspecto. O sexo devia ser visto como mais um meio de ser feliz e viver contente.

Mecanismo de Sustentação dos Sistemas Totalitários em Breave New World e Nineteen Eighty-Four
A Estrutura Social e os Mecanismos de Sustentação do Sistema em
Nineteen Eighty-Four

de: Benedito Gomes Bezerra
Aqui você encontra:
2.1. A Estrutura Social
2.2. Os Ministérios
2.3. A Polícia do Pensamento
2.4. Teletela(Telescreen)
2.5. A Língua Oficial(Newspeak)
2.6. Victory Gin

2.1. A Estrutura Social
Oceania, um dos três grandes poderes mundiais, é governada pelo "Partido". O artigo definido e a inicial maiúscula evidenciam a inexistência de partidos rivais ou aliados. Trata-se de uma estrutura de poder absoluto, o qual é exercido através de quatro grandes ministérios: o Ministério da Paz, o Ministério do Amor, o Ministério da Verdade e o Ministério da Plenitude, sobre os quais discorreremos mais adiante.
Em Oceania, apenas os membros do Partido desempenham algum papel relevante na estrutura social. A cúpula é formada pelos integrantes do chamado "Partido Interior", caracterizados pelo uso de macacões negros e pelo acesso a privilégios impensáveis para os demais cidadãos. Do "Partido Exterior" fazem parte os demais membros, os quais prestam serviço ao sistema nos mais diversos tipos de atividade, em especial aquelas relacionadas diretamente ao funcionamento dos quatro ministérios.
Acima de todos está a figura quase mítica de Big Brother, concretamente apenas um enorme rosto com um grande bigode negro e feições duras, cujos olhos "seguem você quando você se move"(12), espalhado por toda parte em enormes cartazes com a frase "BIG BROTHER ESTÁ VIGIANDO VOCÊ"(idem), e uma voz na teletela(telescreen). Através dos cartazes e da teletela, ele adquire a prerrogativa da ubiqüidade.
De acordo com o "Livro" de Goldstein(166), a doutrina do partido afirma que Big Brother é infalível e todo-poderoso. Todo sucesso, vitória ou descoberta científica, todo o conhecimento, toda a sabedoria, toda a felicidade são o resultado de sua liderança e inspiração. Apesar disso, ninguém jamais viu Big Brother. Não se sabe ao certo quando ele nasceu, mas presume-se que ele jamais morrerá. Ele é apenas um rosto escolhido para personificar o próprio partido, com a finalidade de canalizar o amor, o medo e a reverência dos cidadãos de Oceania. Ora, é mais fácil desenvolver tais emoções em relação a uma pessoa do que direcioná-las a uma organização.
Finalmente, temos as massas populares na base da pirâmide social. Eles são simplesmente "the proles", uma multidão sem voz que representa oitenta e cinco por cento da população de Oceania. A eles não é permitido o acesso a nenhum cargo no Partido, ou qualquer outra espécie de tentativa de ascensão social. Apesar disso, para Winston Smith, o personagem central do romance e protagonista de uma tentativa de rebelião contra o Partido, "se há esperança, ela reside no proletariado"(59).
O Partido não lhes dá a mínima importância. Sequer tenta doutriná-los com sua ideologia. Mantê-los sob controle é tarefa de poucos agentes da Polícia do Pensamento(Thought Police). Contanto que não haja qualquer tentativa de subversão política, no mais, "proletários e animais são livres", diz um slogan do Partido(61).

2.2. Os Ministérios
Como dissemos acima, todo o aparato do poder em Oceania está dividido entre os quatro grandes ministérios. O Ministério da Verdade lida com a propaganda oficial do Partido. Trata de assuntos como entretenimento, educação, artes e notícias. O Ministério da Verdade é o local de trabalho de Winston, mais especificamente o Departamento de Registros. Através do acesso do personagem a esta parte do sistema, o narrador dá-nos a conhecer como o Partido manipula a mídia em seu próprio benefício. Júlia, também personagem central do romance, trabalha no mesmo ministério, no Departamento de Ficção, onde desenvolve "um trabalho mecânico em uma das máquinas escritoras de romances"(11).
O Ministério da Paz tem como encargo os assuntos relacionados à guerra. Visto que o permanente estado de guerra entre Oceania e Eastasia(ou Eurasia) é essencialmente uma questão de propaganda, esse ministério não tem grande destaque na história. Ele aparece apenas para divulgar boletins especiais através da teletela, cujo conteúdo varia de fantásticas narrativas de vitórias a terríveis expectativas de perigo.
Semelhantemente, o Ministério da Plenitude, responsável por assuntos relativos à produção de bens de consumo, intervém nos noticiários oficiais normalmente para anunciar algum tipo de escassez, freqüentemente escamoteada em forma de superávit.
Já o Ministério do Amor tem extrema relevância no desenvolvimento da trama. Ele é encarregado de manter a lei e a ordem, ainda que, paradoxalmente, "nada era ilegal, uma vez que não havia mais nenhuma lei" (9).Segundo o narrador, o próprio edifício do Ministério do Amor já é assustador. Sem janelas, era ao mesmo tempo impenetrável e à prova de fugas. Portas de aço, metralhadoras ocultas e guardas truculentos fazem parte de seu aparato de segurança. A base de seu esquema de fiscalização e vigilância da vida dos membros do Partido é a temível Polícia do Pensamento, sobre a qual falaremos abaixo.
A denominação do ministérios transmite uma forte dose de ironia, quando relacionadas com as respectivas funções e atribuições. Cada ministério faz exatamente o contrário daquilo que seu nome parece indicar. De resto, é precisamente isso o que o Partido faz com as pessoas: sob o rótulo da liberdade, impõe-lhes um pesado jugo de escravidão. O sistema proporciona às pessoas sempre o contrário do que é prometido, e as pessoas sequer têm liberdade ou consciência crítica para perceber a verdadeira situação.
O papel de dominação e opressão desempenhado pelos ministérios em relação aos cidadãos em geral é simbolicamente ilustrado pela desproporção entre seus edifícios e as demais edificações da cidade(Londres, no caso). Os quatro edifícios parecem gigantes em meio a anões, podendo ser vistos de qualquer parte da cidade:
"Eles ultrapassam os edifícios em redor de tal maneira que do terraço dos flats Vitória se podiam ver os quatro simultaneamente"(7).
2.3.A Polícia do Pensamento
O mais temível dos organismos governamentais tem seu quartel-general no Ministério do Amor. Ninguém escapa ao seu controle:
"Um membro do Partido vive do nascimento até a morte sob o olhar da Polícia do Pensamento"(168).
Mesmo quando está só, o membro do Partido não tem certeza de estar só: dormindo ou acordado, trabalhando ou descansando, ele pode estar sendo vigiado, sem aviso e mesmo sem saber o que está acontecendo. A Polícia do Pensamento vigia suas amizades, seus passatempos, seu comportamento em família, sua expressão facial, as palavras que fala dormindo, e até mesmo o menor movimento corporal. Qualquer mudança de comportamento, por menor que seja, é motivo para a ação repressora da Polícia do Pensamento. Expurgos, prisões, torturas e vaporizações são ações corriqueiras com a finalidade de evitar que os suspeitos possam causar problemas no futuro, uma vez que não havia leis em nome das quais eles pudessem ser punidos.
Além da rede oficial de espionagem e repressão, existe ainda uma corrente voluntária de espiões amadores, cujos membros mais ativos são crianças como os filhos do simplório Parsons. Eles vêem traidores em toda parte, especialmente dentro de sua própria casa, e estão ávidos por delatarem-nos à Polícia do Pensamento. A filha de Parsons, de apenas sete anos, denuncia um homem "estranho", suspeito de ser um agente inimigo pelo fato de usar um tipo "engraçado" de sapatos(49), que ela nunca tinha visto. Naturalmente, o homem é eliminado e Parsons fica orgulhoso da esperteza e ortodoxia de sua filhinha. O sistema chega a requintes de crueldade, ao usar crianças, não só contra pessoas estranhas, mas principalmente contra os próprios pais, atacando e destruindo assim a estrutura familiar, considerada perigosa e contrária aos interesses do Estado.
No final da Segunda Parte de 1984, Winston e Júlia são presos, como fruto da refinada ação de um membro da Polícia do Pensamento, que cuidadosamente os apanha em uma armadilha, enganando-os sob o disfarce de um homem chamado Mr. Charrington.

2.4. Teletela
Trata-se de um poderoso e eficientíssimo instrumento de vigilância e doutrinamento ideológico, a um só tempo. Ela é descrita como uma máquina retangular, em alguns aspectos semelhante a um aparelho de televisão, e que é afixada às paredes de modo que sempre há alguma por perto. Normalmente, ela apenas pode ter seu brilho e volume diminuídos, sendo impossível desligá-la completamente(5). Contudo, em outro ponto do livro verificamos que O’Brien, como um privilegiado membro do Partido Interior, tem a prerrogativa de desligá-la, para surpresa de Winston e Júlia(138). Até que ponto o incidente foi apenas mais uma maneira de enganá-los, o narrador não nos diz.
O Partido usa a teletela para divulgar seus boletins oficiais, ligados aos diversos ministérios, bem como para veicular formas de entretenimento tais como música e ginástica. Porém sua função mais importante é espionar as pessoas, pois ela é uma máquina que não só transmite, mas também recebe("vê") imagem e áudio. Não é permitido às pessoas o direito à privacidade e ao isolamento. Winston, quando tem pensamentos ou atitudes não ortodoxas, procura partes da casa ou do local onde se encontra que sejam menos acessíveis à visão escrutinadora da telescreen.
O quarto de Mr. Charrington, onde Winston e Júlia se encontravam, não possuía, segundo eles pensavam, telescreen. Por isso eles puderam agir com uma desenvoltura inimaginável nos ambientes vigiados. Júlia, por exemplo, trata de se maquiar e de se vestir com feminilidade, algo impensável para ela como membro da Liga Juvenil Anti-Sexo. Descobrimos depois que, na realidade, seu refúgio secreto não estava livre de vigilância: havia uma telescreen oculta por trás de um quadro.

2.5.A Língua Oficial(Newspeak)
A língua como instrumento ideológico desempenha um importante papel no enredo do livro. O Newspeak, ao substituir o inglês padrão( ou Oldspeak), reduziria o vocabulário apenas às palavras e expressões extremamente necessárias e adequadas a uma vida ortodoxa, segundo as diretrizes do Partido. De acordo com Syme, filólogo do Partido,
"No final, tornaremos o thoughtcrime literalmente impossível, pois não haverá palavras nas quais se possa expressá-lo"
(45).
Newspeak é a única língua que a cada dia diminui deliberadamente seu vocabulário. Ao final de seu desenvolvimento, cada conceito será expresso por apenas uma única palavra, de modo que a Revolução estará completa quando a língua estiver totalmente aperfeiçoada.
Para que um membro do Partido se mantenha dentro dos padrões ortodoxos, três conceitos fundamentais de Newspeak são necessários. O primeiro passo nesse processo disciplinar define-se pela expressão crimestop, que indica a capacidade de cortar pela raiz, instintivamente, qualquer pensamento perigoso. Crimestop inclui, ainda, a recusa em estabelecer analogias e perceber erros lógicos, bem como a incapacidade de entender os mais elementares argumentos, se eles forem contrários à ideologia oficial(INGSOC=English Socialism). Em poucas palavras, crimestop significa uma espécie de estupidez defensiva(169).
O segundo conceito vai ainda além. É necessário crer que preto é branco e defender essa idéia, se isso for proveitoso para a disciplina do Partido. Blackwhite, portanto, é o conceito que leva à afirmação, por exemplo, de que Big Brother é onipotente, mesmo quando se sabe que ele não é. E mais, além de crer e defender, é preciso saber que preto é branco, e esquecer que um dia se pensou o contrário.
Daí chegamos ao terceiro conceito fundamental em Newspeak: doublethink, que significa o poder de sustentar duas idéias contraditórias entre si, simultaneamente aceitando a ambas. Graças a essa técnica, o Partido pode manipular os fatos históricos, criar personagens fictícios e transformá-los em heróis, apagar nomes reais dos anais da História e, ao mesmo tempo, fazer todos crerem que nada foi mudado, tudo sempre foi como o Partido afirma ser.
No que concerne à sua estrutura vocabular, Newspeak divide-se em três classes distintas. O vocabulário A é formado por palavras usadas no dia a dia, simplificadas ao máximo. O vocabulário B consiste de palavras criadas com fins deliberadamente políticos. Por exemplo, a palavra goodthink significa "ortodoxo". Foi necessário eliminar, nesse ponto, termos como "honra", "justiça" e "moral". O vocabulário C complementa os primeiros e consiste inteiramente de termos científicos e técnicos, cujo número é extremamente reduzido e pouco usado, uma vez que a própria palavra "ciência" foi absorvida pelo conceito de INGSOC.
Newspeak apresenta ainda duas características próprias. Em primeiro lugar, é uma língua que usa ao máximo o intercâmbio entre as classes gramaticais. Uma mesma palavra pode ser usada quer como verbo, quer como substantivo ou adjetivo. E, finalmente, Newspeak é uma língua marcada pela regularidade. Por exemplo, todos os verbos formam o pretérito e o particípio passado apenas com a adição de -ed.
Através desse rigoroso controle da língua em todos os seus níveis, do morfológico ao semântico, o Partido espera a total implantação do Newspeak até o ano 2050. Quando isso acontecer, qualquer pensamento divergente se tornará efetivamente impossível, como deseja o Partido.

2.6. Victory Gin
Uma bebida alcoólica de péssima qualidade, o gim é talvez o único item de consumo do qual não se menciona o racionamento ou escassez. Ao chegar em casa para começar a escrever seu diário(8), Winston não tem comida alguma à disposição, exceto um pedaço de pão envelhecido, que devia ser guardado para o café da manhã do dia seguinte, e uma garrafa de gim. O narrador descreve a bebida como um líquido incolor de cheiro repugnante. Winston o toma como se bebesse um remédio. Seu rosto se torna vermelho e lágrimas caem de seus olhos.
"A coisa era semelhante a ácido nítrico, e mais, ao engoli-lo se tinha a sensação de levar uma pancada na nuca com um bastão de borracha"(8).
Mas logo depois o mundo começa a parecer bem mais agradável. Tem-se a nítida impressão de que o Partido realmente alcança, desta forma, seu objetivo: manter as pessoas sob controle e, ao mesmo tempo, convencê-las de que são felizes.
Na cantina(Parte Um, Cap. 5), nem mesmo o cheiro da comida na hora do almoço consegue superar o odor do gim, que é distribuído quase de graça e em grandes doses. De fato, neste contexto, o gim parece ter a função de abrir o apetite para a pouco atraente comida servida pelo Partido. Após tragar uma generosa dose de gim, Winston, ao enxugar as lágrimas de seus olhos, "subitamente descobriu que estava com fome"(43).
Pelo que foi dito, infere-se que o Partido estava interessado em proporcionar um meio politicamente inofensivo de fuga à dura realidade de opressão e privação. Mesmo assim, o gim não foge à regra dos demais produtos do Partido, no que diz respeito à péssima qualidade, como é o caso dos cigarros(8). A diferença é que o gim é uma droga sempre ao alcance, obviamente por uma providência especial do Poder.

Mecanismo de Sustentação dos Sistemas Totalitários em Breave New World e Nineteen Eighty-Four
Análise comparativa de Brave New World e
Nineteen Eighty-Four

de: Benedito Gomes Bezerra

Aqui você encontra:
3.1. A Estrutura do Poder
3.2. O Tratamento aos Não-Conformistas
3.3. Drogas como Instrumento de Alienação
3.4. O Conceito de Família
3.5. Instrumentalização do Sexo

3.1. A Estrutura do Poder
Em ambas as estruturas sócio-políticas, temos uma figura semi-mítica funcionando como uma espécie de superestrutura legitimadora da realidade. Desta forma, o Ford de Brave New World corresponde ao Big Brother de 1984, em vários aspectos. As duas entidades se caracterizam por uma ambigüidade existencial: eles estão sempre presentes e ausentes, simultaneamente, na vida das pessoas. Ford está ausente enquanto figura pertencente ao passado, mas sempre presente na forma de um deus secularizado e humanizado. Quanto a Big Brother, em nenhum momento se tem um contato direto com ele. Será que existiu no passado?
"Ninguém jamais viu Big Brother. Podemos ter uma razoável certeza de que ele jamais morrerá, e já existe uma considerável incerteza sobre quando ele nasceu" (167).
No entanto, ele torna-se um ser onipresente através da propaganda do Partido, via cartazes e teletelas. Como Ford, ele funciona como uma espécie de deus, com os atributos de onipotência, onisciência e ubiqüidade. Na verdade, sabemos que a onipresença de Big Brother significa a onipresença do Partido em todos os setores da vida particular das pessoas.
Concretamente, o poder é exercido por uma oligarquia, em ambos os casos. Em Brave New World, seus limites estão bem definidos: há os Dez Controladores Mundiais exercendo o poder, embora sejamos apresentados, para os propósitos do romance, apenas ao Controlador Mundial Mustapha Mond, cuja atuação compreende a Europa Ocidental. O Controlador Mundial parece não estar sujeito a qualquer restrição no exercício de seu poder, sendo encarado quase como um semideus, ou como detentor de um poder sacerdotal, no estilo de antigos reis como os faraós egípcios, resguardadas as naturais diferenças. É como se ele fosse uma espécie de encarnação de Ford.
Em 1984, somos informados de que "abaixo de Big Brother vem o Partido Interior, cujo número de membros limita-se a seis milhões"(167). Certamente, a elite detentora do poder não é composta por toda essa multidão, e sim por pessoas dela provenientes. Mas, neste ponto, o sistema é tão obscuro que não se tem qualquer informação sobre quem e quantos realmente mandam em Oceania. Conhecemos um membro dessa oligarquia: O’Brien. Mesmo O’Brien, que representa o referencial máximo de poder , pelo menos para aqueles que, como Winston, caem em suas mãos e, assim, conhecem seu verdadeiro papel social e político, não é autônomo em sua autoridade. Ele não é o poder, e sim mais um escravo do poder, como afirma J. Calder:
"O’Brien também é uma vítima, assim como os porcos. É como se o poder tivesse vida própria, independente de seus instrumentos, e isto, certamente, é um dos mais alarmantes aspectos do romance" (1987:55).
Nos dois romances, os indivíduos mais poderosos são apenas agentes do poder, e não o poder em si. Os dois autores não idealizam sistemas totalitários regidos por um único tirano, no estilo de Hitler, Mussolini ou Stálin, e sim oligarquias, onde um colegiado exerce o poder. De acordo com Bertrand Russel(1957:153), a oligarquia é a sucessora natural da monarquia absoluta, podendo ser exercida por uma aristocracia rural, por uma plutocracia, pela Igreja ou por um partido político. O último caso é a situação implícita em Brave New World e claramente assumida em 1984. Em ambas as obras, essa oligarquia dominante é uma estrutura quase invisível, impessoal. Abaixo da cúpula do poder há, evidentemente, uma infinidade de cargos e organismos através dos quais os sistemas funcionam. Em Brave New World, temos o Centro de Condicionamento e os diversos cargos relacionados; em 1984, temos os quatro ministérios com um vasto corpo funcional e sub-organismos a seu serviço. Ambas as estruturas usam várias estratégias, organismos e mecanismos para se perpetuarem no poder. Alguns desses esquemas de perpetuação e exercício do poder foram expostos nos capítulos anteriores.

3.2. O Tratamento aos Não-Conformistas
No mundo criado por Huxley, inexiste algo que se possa apropriadamente rotular de não-conformismo no sentido de uma opção política consciente de lutar contra um regime totalitário. Encontramos em Brave New World três indivíduos cujas ações e formas de pensar fogem aos esquemas de condicionamento providos pelo Estado. Diferentes são suas motivações, produzindo diferentes tipos de heterodoxias. Tratamos aqui como não-conformistas a esses indivíduos, com seu fazer e pensar peculiares, mas não livres de condicionamentos e limitações idiossincráticas.
Em primeiro lugar, analisemos a pessoa de Bernard Marx. Sendo um Alfa-Plus, ele fazia parte da casta mais privilegiada, constituindo uma elite intelectual. Entretanto, seu comportamento fazia com que ele tivesse a pior das reputações. Sua má fama originava-se de atitudes radicalmente contrárias ao espírito coletivo criado no Novo Mundo. No Capítulo II, Fanny argumenta com Lenina, mostrando o que as pessoas diziam de Bernard:
"Dizem que ele não gosta de Golfe com Obstáculos... e que ele passa a maior parte de seu tempo isolado - sozinho"(46).
Pior que o fato de Bernard ser muito feio e de baixa estatura, estranhas características para um membro da casta mais elevada, era a suspeita que recaía sobre ele:
"Dizem que alguém cometeu um erro quando ele ainda estava na proveta - pensou que ele fosse um Gama e pôs álcool em seu sangue artificial. Eis porque ele é tão atrofiado"(47).
Este comentário maldoso sempre acompanhará Bernard, fazendo dele uma pessoa extremamente introvertida. No entanto, esse mesmo suposto acidente na proveta pode ter influenciado no condicionamento de Bernard, tornando-o capaz de criticar o sistema.
Bernard, embora sendo um especialista em hipnopedia, manifesta um grande desapreço quando alguém repete um dos bordões e slogans aprendidos durante o processo. Ele tem idéias e gostos próprios, como ficar sozinho e conversar com Lenina, bem longe de locais públicos e de multidões. Mesmo apresentando um comportamento repleto de atitudes estranhas, e até assumindo uma postura provocativa nos seus dias de ego "inflado"(Capítulo XI), Bernard jamais foi um ativista político em luta contra um sistema opressor. Sua motivação é extremamente pessoal e, às vezes, egoísta.
Entretanto, o regime não aprova o comportamento dele. Já um pouco antes de perder o cargo, o D.H.C. tenta apanhar Bernard em uma armadilha, acusando-o publicamente perante os trabalhadores do Centro. O conteúdo de seu discurso é ilustrativo dos desvios de Bernard:
"A segurança e a estabilidade da Sociedade estão em perigo. Sim, em perigo, senhoras e senhores. Este homem,’ - apontou de forma acusadora para Bernard - ‘este homem que está diante de vocês, este Alfa-Plus a quem foi dado tanto, e de quem, conseqüentemente, muito se esperava, este colega de vocês - ou devo antecipar e dizer este ex-colega? - traiu gravemente a confiança nele depositada. Por suas idéias heréticas sobre esportes e soma, pela escandalosa heterodoxia de sua vida sexual, por sua recusa em obedecer aos ensinos de Nosso Ford e comportar-se nas horas livres "como um bebê na proveta"(aqui o Diretor fez o sinal do T), ele provou ser um inimigo da Sociedade, um subversor, senhoras e senhores, da Ordem e Estabilidade, um conspirador contra a própria Civilização"(123).
Ao final de seu discurso, o Diretor tenta, embora sem sucesso, aplicar contra Bernard a pena de exílio na Islândia. Dentro dos padrões da época e da sociedade de Brave New World, essa era a mais terrível punição: o isolamento. Mais tarde, o próprio Controller deportará Bernard para a ilha, por seu envolvimento em um tumulto juntamente com o Selvagem e Helmholtz.
Em Helmholtz, o amigo de Bernard e especialista em Engenharia Emocional, a heterodoxia é de caráter meramente intelectual. Ele quer algo mais que as frases vazias do condicionamento hipnopédico. Sua condenação nasce com a criação de um poema onde ele enaltece a solidão, recitado em uma conferência sobre "O Uso de Rimas em Anúncios e Propaganda Moral". Tratava-se, segundo o comentário de Bernard, de um poema "absolutamente contrário a todo o seu ensino hipnopédico"(147). Chamado à presença das autoridades, Helmholtz conclui: "sou um homem marcado"(146).
Helmholtz é o intelectual inconformado com um sistema nulificante, limitador do potencial artístico. Contrariamente a Bernard, no entanto, ele tem a coragem de transformar sua revolta em atos concretos, colocando-se ao lado do Selvagem no conflito com a multidão de Deltas(Capítulo XV). Sua punição não tarda a vir. Como Bernard, ele é coagido a escolher um local distante para viver, onde não possa corromper a Sociedade.
O Selvagem representa um caso à parte. Ele não pode ser punido como heterodoxo, pois não foi gerado dentro do sistema de castas nem condicionado à semelhança de seus amigos Bernard e Helmholtz. Assim, ao conversar com os três sobre o episódio com os Deltas, o Controller é especialmente brando com o Selvagem. O interesse da Civilização para com ele é científico, por um lado: ele é um caso para estudo, pelo fato de ter uma mãe de verdade e ter nascido em uma Reserva fora do mundo civilizado. Por outro lado, todos querem ter a oportunidade de conversar e, no caso das mulheres, fazer sexo com uma pessoa tão diferente. A Civilização, pois, não deseja impor qualquer punição a John.
Entretanto, aquilo que é apresentado como vida civilizada significa, para o Selvagem, um torturante castigo. A ausência de valores culturais (ele aprecia Shakespeare), familiares, morais e religiosos é insuportável. Por isso, ele mesmo resolve se isolar da Civilização. Ele diz a Bernard e Helmholtz:
"Eu fui ver o Controller esta manhã... para saber se eu podia ir para as ilhas com vocês"(194).
Não lhe sendo permitido ir para as ilhas, John procura um lugar isolado onde se entrega a uma severa auto-flagelação(Capítulo XVIII). Assediado por repórteres e curiosos, seu desespero acaba levando-o ao suicídio.
Temos, assim, em Brave New World, um sistema incapaz de conviver com padrões de vida divergentes do estabelecido. Mesmo sem usar a violência, o regime elimina prontamente qualquer voz rebelde, em nome da uniformidade entendida como pressuposto para a segurança, a ordem e a estabilidade.
Em 1984, o não-conformismo é bem mais consciente em Winston Smith. Como herói, ele não parece muito promissor. Fisicamente, Winston é um homem fraco, quase de meia idade, que usa dentes postiços e sofre de uma úlcera varicosa. Não obstante, ele é responsável por ações claramente rebeldes, executadas conscientemente, conhecendo o castigo por vir. Vários estudiosos ressaltam que esta espécie de ambigüidade do personagem vem indicada já pelo seu nome. Segundo Brown,
"O nome de Winston combina o mais comum sobrenome inglês com o primeiro nome do notável líder britânico durante a II Guerra Mundial, Winston Churchill. Neste nome, portanto, Orwell juntou o homem comum ao homem excepcional, preparando seus leitores para os corajosos atos de rebeldia contra o Partido a provirem desta pessoa(em alguns aspectos) tão comum"(Brown, 1977:34).
Winston não era totalmente diferente dos personagens que aprovam o regime, como vemos por suas reações, por exemplo, no episódio do filme de guerra relatado na Parte I, Capítulo 1, página 10. No entanto, ele se sentia dominado por um forte sentimento de desconforto:
"O sentimento de desconforto e a impossibilidade de em tempo algum sentir-se confortável, parcialmente por ser vigiado todo o tempo, é comunicado com extraordinária força"(Calder, 1987: 42).
Mesmo sabendo que seu fim seria terrível, Winston começa seu projeto particular de revolta. O primeiro passo é escrever um diário, uma atitude subversiva até pelo inusitado de se usar uma caneta comum em um tempo em que se podia ditar o texto para as máquinas de escrever (chamadas speakwrite). Seu grande ato de rebeldia, entretanto, seria o caso amoroso com Júlia, que leva a outras ações proibidas, por via de conseqüência.
O grande sonho de Winston era que a lendária Irmandade realmente existisse, que houvesse outros como ele, que Goldstein não fosse uma invenção do Partido. Sua heterodoxia, portanto, saía do mero plano pessoal, passando pelo real desejo de lutar em favor da completa derrocada do Sistema.
Júlia é a outra personagem não-conformista do romance. Mas, ao contrário de Winston, sua rebeldia é mais particular. Ela só quer ter o prazer de enganar o Partido, e usa sua sexualidade para tanto. Falta-lhe o ideologismo de Winston. Conforme o próprio Orwell, "com Júlia, tudo resume-se à sua própria sexualidade"(apud Brown, 1977:39).
Uma vez desmascarados pelo Partido e presos pela Polícia do Pensamento, os dois são submetidos a inúmeras sessões de tortura nas celas do Ministério do Amor. Embora acompanhemos apenas o processo de Winston, inferimos que Júlia também recebe o mesmo tratamento. O aparato totalitário de 1984 difere fundamentalmente, neste aspecto, de seu correspondente em Brave New World. Influenciado por seu contexto histórico, Orwell cria um sistema perverso baseado na punição e na repressão. A diferença é notada por Huxley:
"A sociedade descrita em 1984 é uma sociedade quase exclusivamente controlada pela punição e pelo medo da punição. No mundo imaginário de minhas fábulas, a punição é rara e geralmente branda"(Huxley, 1994:04).
Desta forma, a tortura é vista como a maneira natural de punir os rebeldes, até que eles cheguem ao ponto em que perdem sua própria dignidade. Para Winston, este momento chega quando ele suplica que Júlia seja castigada em seu lugar:
"Faça-o a Júlia! Faça-o a Júlia! Não a mim! Júlia! Não me importa o que faça com ela!"(230)
O tratamento de Winston só termina quando ele passa a aceitar, como quer o Partido, que a soma de dois mais dois é igual a cinco e, mais importante que isso, quando ele, já em "liberdade", passa a amar Big Brother. Por caminhos diferentes, os sistemas totalitários em apreço chegam ao mesmo resultado: a eliminação dos descontentes, o silenciamento dos não-conformistas.

3.3. Drogas Como Instrumento de Alienação
Os cientistas do Admirável Mundo Novo de Huxley conscientemente desenvolvem, sob encomenda do Estado, o que consideram ser a droga perfeita. Com o objetivo de manter as pessoas sob controle, a droga(soma) é regularmente fornecida e comercializada. Desaparece qualquer idéia de clandestinidade em seu uso. Na verdade, será marginalizado aquele que, como Bernard, recusar-se a consumi-la. Como vimos anteriormente, o regime conta com a soma para sanar qualquer possibilidade de conflito e manter as pessoas calmas e "felizes".
Com soma, não há necessidade de whisky, fumo ou drogas ilícitas como heroína e cocaína. O Estado não está interessado em vícios particulares, privados; soma é, por isso, uma instituição política, "um dos mais poderosos instrumentos de governo no arsenal ditatorial"(Huxley, 1994:104). A ração diária de soma garante o Estado contra os desajustamentos individuais e previne o alastramento de idéias subversivas:
"A Religião, disse Karl Marx, é o ópio do povo. No Admirável Mundo Novo esta situação foi invertida. O ópio, ou melhor, Soma, era a religião do povo"(Huxley, 1994:105).
A soma era realmente a droga dos sonhos de qualquer governo não democrático, com uma área de atuação muito abrangente. O Sistema dominante no mundo de Brave New World usou todas as possibilidades da droga como instrumento de alienação e manipulação:
"Além de ser tranqüilizante, alucinógeno e estimulante, a Soma de minha fábula tinha o poder de intensificar a sugestibilidade, e assim podia ser usada para reforçar os efeitos da propaganda governamental"(Huxley, 1994: 113).
Em 1984, a situação é bem diferente em alguns aspectos, já como decorrência das diferenças entre os dois mundos. O mundo criado por Orwell é o mundo da coerção e da força, e não da sugestibilidade. Conseqüentemente, aquilo que identificamos como a droga do sistema em Oceania difere radicalmente da soma de Brave New World.
Ressalte-se que o gim Vitória não é a única droga ao alcance do povo em Oceania. Além do gim, Winston nos apresenta os cigarros Vitória. Parece apenas um comentário bastante incidental, mas mostra eloqüentemente a má qualidade do produto:
"Ele tirou um cigarro de uma embalagem amassada, com os dizeres CIGARROS VITÓRIA, e inadvertidamente segurou-o verticalmente, o que fez com que o fumo caísse do cigarro para o chão"(08).
O gim, assim como os cigarros e os demais produtos "vitória" (i.e., todos os produtos provenientes do domínio estatal), devia seu largo consumo não a uma suposta boa qualidade, e sim ao fato de que não havia escolha. A maioria dos produtos, mesmo ruins, era escassa, com exceção do gim. Apesar de o gim vitória ser uma péssima bebida, sem qualquer atrativo, a realidade era bem pior; por isso as pessoas freqüentemente o utilizavam como meio de fuga. É o que acontece com Winston, até que ele começa seu caso amoroso com Júlia, que vem substituir, com evidente vantagem, a odiosa bebida.
Ainda que isto não seja explicitamente declarado, é evidente que o Partido monitora e certamente aprova o livre consumo de gim. As pessoas precisam ser distraídas nos intervalos das horas de trabalho. As conseqüências do gim, ao contrário do soma de Brave New World, são terríveis, conforme demonstramos pela reação de Winston ao bebê-lo. Ao Partido, porém, isto não parece importar. O fato relevante é que a bebida cumpra seu papel como instrumento de alienação, e isto ela faz. Em ambos os casos a droga é necessária: quer para proporcionar a impressão de bem-estar característica de Brave New World, que para combater a interminável sensação de angústia de 1984.
Concluímos, portanto, que apesar da radical diferença entre soma e gim, as duas drogas cumprem o mesmo papel de prover um meio de fuga para as pessoas. Este meio de fuga não é gratuito: está a serviço do Estado, em ambos os casos.

3.4. O Conceito de Família
Na Inglaterra da Era de Ford, desapareceu completamente a noção de família, até como uma conseqüência natural das pessoas não serem mais geradas por pais e mães biológicos. As lembranças porventura existentes representavam uma tal deturpação do conceito que este chega a parecer indecente. Quando o Diretor pergunta a seus alunos o significado da palavra "pais", diz o narrador:
"Houve um silêncio perturbador. Vários rapazes coraram"(30).
Em geral, as referências a palavras pertencentes ao campo semântico "família" despertam ora uma reação jocosa ora uma grande sensação de embaraço. Linda, a jovem Beta acidentalmente abandonada na Reserva Selvagem, conta como foi sua experiência de se tornar mãe:
"Eu fiquei tão envergonhada! Pense só nisso: eu, uma Beta - tendo um filho: ponha-se em meu lugar. (A simples sugestão fez Lenina tremer.)"(101).
Ter um filho era humilhante a ponto de fazer o poderoso Diretor perder seu cargo. Dizer que ele era o pai de John era como se ele fosse acusado de um terrível crime:
"-’Você me fez ter um filho’, ela gritou em meio ao tumulto.
Houve um súbito e apavorante silêncio; olhos vagueavam desconfortavelmente, sem saber para onde olhar. O Diretor empalideceu subitamente... olhando-a fixamente, horrorizado.
-’Sim, um filho - e eu era mãe dele!’ - ela lançou a obscenidade como um desafio contra o ultrajante silêncio" (124).
Após o primeiro momento de choque, o silêncio dá lugar ao riso da audiência diante da patética cena de John chamando o Diretor de "meu pai" (124). A situação é tão constrangedora que o Diretor acaba saindo do cargo.
O problema da família eram as ligações emocionais e os conflitos que ela pressupunha, considerados uma ameaça à estabilidade da Sociedade. Além disso, ter uma família significava canalizar energias para ela, e não para a Comunidade em geral. A existência da família significava a multiplicação de problemas que podiam ser evitados pela sua supressão:
"O mundo era cheio de pais - conseqüentemente, cheio de tristeza; cheio de mães - portanto, cheio de todo tipo de perversão, do sadismo à castidade; cheio de irmãos, irmãs, tios, tias - cheio de loucura e suicídio.
.....................................................................................Família, monogamia, romance. Exclusividade em toda parte, em tudo uma concentração de interesses, uma estreita canalização de impulsos e energia.
....................................................................................Não admira que os pobre pré-modernos fossem loucos, maus e infelizes. Seu mundo não lhes permitia ver as coisas com tranqüilidade, não lhes permitia ser sãos, virtuosos, felizes... Eles eram obrigados a sentir intensamente. Sentindo intensamente (e intensamente, o que era pior, em solidão, em um isolamento individual irremediável), como eles podiam ser estáveis?" (41,42,43).
Eliminada a família, várias problemas eram evitados pelo Sistema. E, mais importante, as pessoas passavam a ser propriedade do Estado, não de suas famílias. Na linguagem hipnopédica, "todo mundo pertence a todo mundo".
Na obra de Orwell, a família e o casamento não desaparecem como instituições. O que o Estado faz é dar um novo sentido à família, que passa a ser constituída não como o resultado do amor entre duas pessoas, mas como expressão de seu serviço leal ao Partido. O casamento devia ser previamente analisado por um comitê, e o princípio fundamental era que as pessoas atraídas mutuamente não tinham a permissão concedida para o enlace:
"O objetivo do Partido não era meramente evitar que homens e mulheres criassem uma lealdade que não se pudesse controlar. Seu verdadeiro propósito, não declarado, era retirar todo o prazer do ato sexual... O único objetivo reconhecido do casamento era gerar filhos para o serviço do Partido"(56).
A propaganda oficial produz, em 1984, algo semelhante ao condicionamento de Brave New World. De forma sub-reptícia, foi colocada na mente das pessoas, especialmente jovens e mulheres, a idéia de que o prazer sexual é algo sujo ou sem importância. A origem desses preconceitos na área sexual é obscura, i.e., na maioria das vezes foram inculcados de forma indireta pela propaganda oficial, nunca colocados de forma explícita.
Desta forma, não admira a completa ausência, em 1984, de algo que possa ser considerado um casamento ou uma família estável e feliz. Winston praticamente não pensa em sua ex-esposa Katherine, de quem se separou há "nove, dez - aproximadamente onze anos"(56). Eles permaneceram juntos cerca de quinze meses e ele não sabe se ela ainda é viva ou não. Katherine representa o estereótipo da mulher doutrinada pelo Partido. O único conteúdo de seu cérebro eram os slogans oficiais, pelo que Winston a apelidou mentalmente de "trilha sonora humana". O sexo, com ela, não tinha o menor atrativo, devido à sua inteira passividade e frigidez:
"Ela ficava lá com os olhos fechados, nem resistindo nem cooperando, apenas se submetendo"(57).
Apesar disso, Katherine não aceitava permanecer sem atividade sexual:
"Eles deviam, dizia ela, gerar um filho, se possível. Assim, a performance continuava a acontecer regularmente uma vez por semana, a não ser que fosse impossível. Ela até costumava relembrar-lhe pela manhã, como algo que tinha de ser feito naquela noite e que não devia ser esquecido. Ela tinha duas expressões para o ato. Uma era "fazer um filho" e a outra era "nosso dever para com o Partido"(sim, ela realmente usava esta frase)" (57).
Quando chegava o dia marcado para o ato sexual, Winston chegava a sentir medo. Como, para sorte dele, nenhum bebê foi gerado, eles acabaram se separando quando ela concordou em desistir de tentar. A separação, neste caso, era encorajada pelo Partido, embora o divórcio não fosse permitido. Além de mulheres como Katherine, havia ainda muitas outras que tinham idéias parecidas, inclusive chegando a defender o celibato.
A organização da qual Júlia ironicamente era membro, a Liga Juvenil Anti-Sexo, defendia o celibato e sonhava com um futuro onde todos fossem gerados por inseminação artificial, à semelhança de Brave New World. Com estas idéias na área sexual permeando as mentes dos jovens, não admira que um caso amoroso verdadeiro venha a se constituir, no romance, em um verdadeiro ato de rebelião.
Através de instrumentos como jogos, paradas, músicas e slogans, o Partido molda um modelo de família que venha a atender a seus propósitos. Mesmo uma família com filhos como a de Parsons é objeto da atuação manipuladora do Partido. Os filhos, como dissemos noutro capítulo, tornam-se espiões e delatores dos pais, normalmente produzindo acusações fantasiosas que resultam, não obstante, na "vaporização" dos denunciados.
Em ambos os romances, podemos afirmar, a família é sacrificada em função da dominação dos indivíduos pelo Estado. Quer eliminando-o, quer modificando-a e utilizando-a de acordo com interesses escusos, os sistemas a transformam em mais um instrumento de manipulação e dominação. Neste ponto, as duas anti-utopias(ou "distopias") são exatamente o contrário da Utopia idealizada por Thomas Morus, cujas cidades se organizavam com base na união e no prestígio dos membros das famílias:
"A cidade se compõe de famílias, na sua maioria unidas por laços de parentesco... O membro mais antigo de uma família é o chefe, e se os anos enfraqueceram sua inteligência, é substituído por aquele que mais se aproxima de sua idade"(Morus, s.d.:89).
3.5. Instrumentalização do Sexo
Em Brave New World, o sexo jamais tem a função de reprodução da espécie humana. Ele se inclui naqueles recursos utilizados pelo Estado para manter as pessoas "felizes" e satisfeitas com o status quo. Desde crianças, todos aprendem a usar o sexo irrestritamente, na forma de jogos infantis, sem impedimentos de ordem moral. A sexualidade, juntamente com o intelecto, constituem o foco de interesse da estratégia governamental. Nas palavras de Mustapha Mond,
"Governa-se com cérebros e nádegas(grifo meu), nunca com os punhos" (49).
O aparato governamental prepara uma série de atividades pelas quais as pessoas se sintam plenamente satisfeitas, mesmo que pertençam às castas inferiores. O sexo livre se inclui no conjunto dos fatores de bem-estar proporcionados pelo Governo:
"Sete horas e meia de trabalho brando e leve, e então a ração de soma, os jogos, a copulação irrestrita(grifo meu) e os feelies. O que mais eles poderiam querer?" (180).
O uso instrumental do sexo se verifica de forma completamente diferente em Oceania(1984). Entre os membros do Partido, a interação sexual é radicalmente proibida, mesmo sem leis escritas nesse sentido. Se a pessoa não optar pelo celibato, deverá manter atividade sexual apenas com seu esposo ou esposa. Esta proibição fazia parte da estratégia do Partido de retirar todo o prazer do ato sexual e de evitar que se criassem laços afetivos entre as pessoas. O sexo era considerado um perigo a ser evitado e os infratores deveriam ser punidos:
"O crime imperdoável era a promiscuidade entre membros do Partido" (56).
O Partido, porém, fazia vista grossa quando se tratava de sexo com prostitutas, principalmente porque elas eram sempre provenientes do proletariado. A indulgência do Partido devia-se à percepção de que o sexo funcionava como um meio de aliviar tensões que de outro modo poderiam se tornar incontroláveis. Havia uma punição para o deslize, é claro, mas a mesma parecia bem suave diante dos castigos habituais:
"O relacionamento com prostitutas era proibido, é claro, mas esta era uma daquelas regras que se podia ocasionalmente ter a ousadia de quebrar. Era perigoso, mas não era um caso de vida ou morte. Ser apanhado com uma prostituta podia significar cinco anos em um campo de trabalho forçado, não mais, se não se cometesse nenhum outro crime.
................................................................................... Tacitamente, o Partido estava até inclinado a encorajar a prostituição como um meio de liberar os instintos que não podiam ser completamente reprimidos"(55).
O tratamento dado ao proletariado era ainda mais liberal. O Ministério da Verdade tinha um setor(Pornosec, em Newspeak) especializado na produção de material pornográfico dirigido a esta população marginal. Tanto no caso do proletariado como no dos membros do Partido, através de métodos tão díspares, o regime controlava e usava a sexualidade como um instrumento de controle e manipulação.
Se compararmos o tratamento dado ao sexo em Huxley e em Orwell, verificamos que ambos, por caminhos totalmente diferentes, criaram sistemas onde as pessoas são igualmente manipuladas por interesses alheios aos seus próprios. As metas em ambos os sistemas se identificam: fazer com que as pessoas canalizem suas energias para o serviço do Estado, e reduzir o sexo a um meio de satisfação alienante dos instintos, de forma puramente animalesca.

Mecanismo de Sustentação dos Sistemas Totalitários em Brave New World e Nineteen Eighty-Four
Brave New World, 1984 e o mundo contemporâneo.

de: Benedito Gomes Bezerra
Aqui você encontra:
4.1. Democracia x Totalitarismo
4.2. O Papel da Propaganda Institucional
4.3. A Ciência Genética e o Homem
4.4. Sexo, Casamento e Família
4.5. Drogas e Realidade

4.1. Democracia x Totalitarismo
Alcançamos o limiar do século XXI com perspectivas inteiramente novas em campos como a política, a religião, as artes, a comunicação e os esportes. Na área política, que nos interessa mais neste ponto de nosso trabalho, temos mudanças cruciais no horizonte mundial em relação às últimas décadas.
O descrédito e a queda da maioria dos regimes socialistas, representados simbolicamente pela queda do Muro de Berlim, implicaram no esfacelamento da União Soviética e conseqüente esvaziamento da noção de "guerra fria". Restou apenas uma superpotência bélica mundial, os Estados Unidos da América. É como se retirássemos do mundo de 1984 a Eurasia e a Eastasia e deixássemos apenas Oceania como potência suprema.
Juntamente com a queda dos regimes socialistas totalitários, verificamos uma retomada de sistemas ditos democráticos de governo, inclusive com a realização mais ou menos imediata de eleições diretas. Embora em alguns desses processos eleitorais, a liberdade de escolha do cidadão ainda seja questionável, devido às fraudes e à intimidação ostensiva de representantes do poder.
Temos hoje um número bem menor de sistemas totalitários e de ditadores em relação ao tempo em que surgiram Brave New World e 1984. No entanto, os perigos causados pela sede de poder e por disputas raciais ou religiosas não acabaram como em um passe de mágica apenas pela destruição dos regimes totalitários, especialmente socialistas. Da Irlanda do Norte à Palestina, da Chechênia à Bósnia, da Espanha à Cuba, antigos conflitos continuam a fazer vítimas. As grandes democracias respondem a isto com meras declarações de intenções formuladas em suas infindáveis reuniões de cúpula. Analisando os conflitos mundiais antigos e novos, diz o jornalista Juremir Machado da Silva:
"Nada mais próximo do inferno do que uma temporada no paraíso. A queda do Muro de Berlim não impediu o surgimento de uma nova desordem mundial" (in Revista Isto É, n.º 1381, de 20.03.96).
Além disso, mesmo os sistemas ditos democráticos não se eximem de utilizar mecanismos de dominação perversos e presumidamente inerentes apenas a governos totalitários. Como os proletários de 1984, expostos à miséria social e à alienação dos folhetins eletrônicos, vivem milhões de brasileiros miseráveis e favelados. Em um país gigantesco como o Brasil, incrivelmente pessoas morrem lutando pelo direito a um pedaço de terra, como se verificou recentemente no estado do Paraná. Exemplos das incríveis contradições próprias de nosso país poderiam ser enumerados em grande número.
É fácil perceber que o sistema democrático não é uma panacéia em si mesmo, assim como a simples erradicação de ditaduras não implica na suprema realização humana. O maior perigo talvez resida nas motivações ocultas de determinados donos do poder, protegidos pelo manto da democracia, às vezes apenas "lobos em pele de cordeiro". Ao se referir a países subdesenvolvidos, Huxley descreve uma situação que se aplica com propriedade ao que vemos ao nosso redor:
"A morte rápida pela malária foi abolida; mas a vida feita miserável pela subnutrição e pela superpopulação é a regra agora e a morte lenta pela completa falta de comida ameaça um número ainda maior de pessoas" (Huxley, 1994:22).
Assim, por exemplo, o Ceará vangloria-se da erradicação de doenças como a paralisia infantil, mas as mesmas crianças continuam a morrer de fome em número altíssimo. Enquanto a democracia não implicar em uma vida mais justa para todos, com educação, saúde e lazer, entre outras coisas, podemos utilizar muitos insights advindos de obras como Brave New World e 1984. Não é válido rotulá-las de "ultrapassadas", uma vez que muitos dos problemas do povo de Oceania e dos habitantes do Novo Mundo da Era de Ford são ainda os nossos problemas. Veremos outros exemplos disso nas páginas seguintes.

4.2. O Papel da Propaganda Institucional
A propaganda tem se revelado um instrumento poderosíssimo nas mãos daqueles que detêm o poder. No prefácio à edição ucraniana de Animal Farm, quando comenta a discrepância entre eventos ocorridos na Rússia e na Espanha e a maneira como foram contados oficialmente, Orwell admira-se:
"Quão facilmente a propaganda totalitária pode controlar a opinião de pessoas esclarecidas nos países democráticos" (Orwell, 1989:110).
A propaganda oficial é largamente utilizada em Brave New World e 1984 como meio de doutrinamento e controle das pessoas. O Partido de 1984 chega ao requinte de ter um "Ministério da Verdade", um organismo especializado em propaganda e doutrinamento. O uso da propaganda se faz em conjunto com os mecanismos de dominação por nós analisados nos capítulos anteriores. Tudo consiste em fazer as pessoas crerem naquilo que interessa ao poder constituído. Não necessariamente, contudo, a propaganda é utilizada maquiavelicamente apenas por governos ditatoriais.
Na verdade, a propaganda é mais um fertilíssimo recurso que está à disposição de todos aqueles que detêm algum tipo de poder. Evidentemente, existe a possibilidade de se usar essa força para a promoção do bem comum. Não negamos isso ao enfocarmos o mau uso da propaganda e da comunicação de massa, uma vez que
"A comunicação de massa, numa palavra, não é nem boa nem má; é simplesmente uma força e, como qualquer outra força, pode ser usada para o bem ou para o mal. Usados de uma maneira, a imprensa, o rádio e o cinema são indispensáveis à sobrevivência da democracia. Usados de outro modo, eles estão entre as armas mais poderosas no arsenal ditatorial" (Huxley, 1994:59).
Os sistemas democráticos, infelizmente podemos afirmar, utilizam largamente a propaganda para fins alheios ao bem das pessoas. Já no final da década de 50, Huxley destacava os perigos criados pela utilização da comunicação de massa ditada pelos interesses consumistas da indústria da época. A propaganda não está, nesse domínio, preocupada com os conceitos de verdade ou mentira e sim com a exploração dos desejos fantasiosos das pessoas. Ainda de acordo com Huxley, um vago paralelo com a situação atual pode ser buscado apenas no antigo Império Romano, onde o povo foi exposto a uma sobrecarga de ofertas de entretenimento e distração: do teatro às lutas de gladiadores, das recitações de Virgílio à luta livre, dos concertos às execuções públicas, o objetivo era dar ao povo "pão e circo", para que tudo ficasse bem. Hoje, as pessoas são distraídas o dia inteiro por jornais, revistas, rádio, cinema e, last but not the least, televisão. Em Brave New World, os meios de entretenimento visavam a impedir que o povo prestasse atenção à sua realidade social e política. Outra vez, a análise de Huxley é impressionantemente atual:
"Uma sociedade cuja maioria dos membros passa grande parte de seu tempo não com os pés na realidade, não aqui e agora e no futuro previsível, mas em algum outro lugar, no irrelevante outro mundo do esporte e da novela, da mitologia e da fantasia metafísica, terá dificuldades para resistir à intrusão daqueles que a querem manipular e controlar" (Huxley, 1994:52).
Passados mais de trinta anos desde a morte de Huxley, a situação é ainda mais impressionante. O comportamento das pessoas é, em geral, diretamente influenciado pela propaganda, especialmente a veiculada pela televisão. A estratégia do especialista em marketing consiste em descobrir nas pessoas as motivações, desejos e medos inconscientes e então trabalhar baseado nos dados obtidos. Como resultado disso, e.g., não compramos mais laranjas, e sim vitalidade; não compramos um carro, e sim prestígio.
Numa campanha política, o marketing apela não para a inteligência do eleitor, e sim para suas fraquezas. O candidato precisa, mais que tudo, ter uma boa dicção, uma voz agradável e parecer sincero diante das câmeras. Descobertas as aspirações do público votante através de pesquisas, os especialistas projetam um candidato preparado para dar a impressão de responder à expectativa detectada. O discurso televisivo desse candidato não exigirá esforço intelectual ou concentração mental. O candidato é, antes de tudo, um "entertainer". De acordo com Huxley,
"Os métodos usados atualmente para vender o candidato político como se ele fosse um desodorante garantem com toda a certeza que o eleitorado jamais ouvirá a verdade sobre coisa alguma" (Huxley, 1994:83).
No caso de um sistema totalitário, os recursos da propaganda são sistematicamente utilizados para a manipulação de mentes e corpos, com a finalidade de manutenção do poder. De acordo com B. Russel, o poder sobre a opinião passa eventualmente pelas seguintes fases:
"Primeiro, a persuasão pura conduzindo uma minoria à conversão; depois, a aplicação da força, para fazer com que o resto da comunidade fique exposta ao direito de propaganda; e, finalmente, uma crença verdadeira por parte da grande maioria, o que de novo torna desnecessário o emprego da força" (Russel, 1957:110).
As técnica empregadas para conseguir o que Russel chama de "poder sobre a opinião" foram e são conhecidas dos ditadores reais e potenciais em qualquer tempo. O axioma de que "é através do poder da repetição que os detentores do poder adquirem capacidade de influenciar a opinião"(Russel, op.cit.:113) corresponde à seguinte afirmação de um dos mais célebres tiranos da História, Adolf Hitler:
"Somente a repetição constante conseguirá afinal imprimir uma idéia na memória de uma multidão" (apud Huxley, 1994:63).
De tudo o que foi dito, o mais importante numa discussão sobre o papel da propaganda é refletir criticamente sobre os meios sub-reptícios pelos quais os especialistas a serviço do poder político, econômico ou religioso podem manipular e controlar populações inteiras, produzindo gerações imbecilizadas, incapazes de interagir racionalmente com sua própria realidade.

4.3.A Ciência Genética e o Homem
Os incríveis avanços da ciência genética colocam diante do homem grandes desafios, em especial um desafio ético. Até onde se pode manipular a vida? Quando o homem tenta recriar a vida artificialmente, estará assumindo um papel elevado demais para si, o papel de Deus? De acordo com Mary Shelley, em seu Frankenstein(1818), termina em tragédia a tentativa humana de recriar a vida. Em Brave New World, este é um problema superado, pois a ciência não só cria a vida como o faz segundo seu próprios desígnios, predestinando-a nos mínimos detalhes.
A situação descrita em Brave New World nos faz refletir sobre algumas conseqüências éticas do desenvolvimento científico em nossos dias. O avanço das técnicas de reprodução in vitro não carrega nenhum mal intrínseco, parece evidente. O problema pode ser, novamente, o uso que se faz desse conhecimento. O fato de uma pessoa com sessenta anos ou mais ser levada a engravidar, por exemplo, como tem sido feito na Europa, levanta algumas dificuldades inegáveis. O que dizer da educação da criança assim gerada? Por quantos anos sua mãe poderá, sendo idosa, acompanhar seu crescimento? E quanto ao seu pai? Evidentemente, cada caso é um caso particular, mas as dificuldades continuam existindo, até pela ausência de um padrão anterior.
Uma outra questão diz respeito aos chamados bancos de esperma. Alguns se especializam em colecionar esperma de pessoas superdotadas intelectualmente. Quais as implicações éticas disso? Mesmo os cientistas de Brave New World evitaram criar uma sociedade de superdotados. Na opinião do Controlador Mustapha Mond:
"Uma sociedade de Alfas não poderia deixar de ser instável e infeliz" (178).
O homem sempre foi um ser em busca de sua própria superação, o que tornou possível o surgimento da filosofia, da ciência e da religião. No entanto, a Natureza, Deus, ou seja qual for o nome que escolhamos, parece nos ensinar a existência de limites preestabelecidos. No esporte, por exemplo, um atleta é punido ao usar alguma droga com a finalidade de otimizar seu desempenho numa competição.
O desenvolvimento na área genética se presta também a uma exploração comercial e industrial. Hoje, não é necessário esperar o frango ou o boi crescerem em seu ritmo natural para que sejam abatidos e comercializados. Seu crescimento é estimulado e acelerado através de doses maciças de hormônios, com evidentes riscos para os consumidores. Diante do aumento da demanda, em função do crescimento populacional, tais usos da ciência são necessários, mas não podem ser indiscriminados. A necessidade de limites éticos é evidente. O fim último deve ser sempre o bem comum, não a acumulação de riquezas e poder.
A pergunta sobre os limites da genética continua em aberto, até porque ela não alcançou, e possivelmente jamais alcançará, algo que se possa considerar o seu termo final, seu non plus ultra.

4.4. Sexo, Casamento e Família
Brave New World e 1984 apresentam padrões diferentes com relação ao tratamento dado ao sexo, ao casamento e à família. Ambos os padrões, entretanto, prestam-se a interessantes analogias com a realidade do mundo atual. Muitas dessas analogias já estão implícitas em nossa análise anterior sobre esses temas(itens 1.5 e 3.5).
A liberação generalizada do sexo em Brave New World já fora inspirada por algumas práticas das quais Huxley tinha conhecimento e as quais comenta no prefácio escrito em 1946 para a referida obra:
"Já existem certas cidades americanas nas quais o número de divórcios é igual ao de casamentos. Em poucos anos, sem dúvida, contratos de casamento serão vendidos à semelhança de licenças para cão, válidos por um período de doze meses, sem qualquer lei contra trocar de cão ou possuir mais de um animal de cada vez" (14).
Mais uma vez, Huxley ressalta o pragmatismo dos governantes, para os quais a liberalização sexual tem o papel de compensar a ausência de liberdade política ou econômica, juntamente com outros meios já tratados no corpo deste trabalho.
A abolição da família torna possível, em Brave New World, a liberação irrestrita das práticas sexuais. O mundo moderno, se não aboliu a família, adotou padrões morais que a enfraquecem como instituição. Temos bastante liberdade, mas em geral não temos uma boa preparação para conviver com essa liberdade. No Brasil, a televisão tem moldado, através das novelas e programas de entretenimento, padrões de comportamento que atingem diretamente a família através do sexo.
Um evidente reflexo dessa liberalização de costumes adquiriu contornos polêmicos na decisão do Supremo Tribunal Federal de absolver em recurso o encanador Márcio Luiz de Carvalho, anteriormente condenado pelo estupro de uma menor de doze anos. Segundo o parecer do ministro Marco Aurélio de Mello,
"Nos nossos dias, não há crianças, mas moças de 12 anos. Precocemente amadurecidas, a maioria delas já conta com discernimento bastante para reagir ante eventuais adversidades" (apud Brissac, in Revista Isto É n.º 1394, de 19.06.96).
Com o olhar voltado para a realidade, o ministro teve a coragem de votar contra o Código Penal, de acordo com o qual a relação sexual com uma menor de catorze anos é sempre classificada como estupro. O acerto ou não da decisão é questionável, porém o acontecimento revela uma mudança radical nos conceitos éticos vigentes na sociedade contemporânea, uma vez que há indícios de que a menina(ou moça) em questão permitiu a relação. No mesmo artigo, o jornalista Chantal Brissac traz depoimentos de várias outras garotas de doze anos, algumas das quais declaram conhecer amigas que "transam" e gostam de dizer isto para as demais. Talvez apenas exibicionismo de adolescente, talvez um claro indício da realidade. Todas, por outro lado, revelam bastante esclarecimento quanto à questão sexual.
Ainda com relação ao sexo, a realidade brasileira apresenta um triste paralelo com aquela vigente em 1984. Em Oceania, ao lado dos padrões sexuais quase puritanos impostos aos membros do Partido, o tratamento dispensado à escória social, "the proles", caracteriza-se por uma completa liberalização e instrumentalização do sexo. As mulheres proletárias têm a permissão de se prostituir, e o Partido faz vista grossa ao intercâmbio de seus membros com elas. No Brasil, meninas-moças pertencentes às camadas mais pobres da população são seduzidas e prostituídas em troca de doces, brinquedos ou um pouco de dinheiro. Garotas de maior idade, também pobres, são vendidas como prostitutas para a Alemanha, Itália, Holanda e outros países, ludibriadas pela promessa de ganhar muito dinheiro em pouco tempo. Nada disso incomoda seriamente o governo democrático do Brasil, dada a irrelevância política e econômica desses excluídos.
Ainda em 1984, alguns tipos de organizações contribuem para o esfacelamento da família, à medida em que dividem seus membros em "Liga Juvenil Anti-Sexo", "Espiões", e coisa do gênero. Os membros da Liga Juvenil Anti-Sexo atuam como agentes da propaganda, especialmente sexual, do Partido, enquanto os "Espiões" mobilizam as crianças para a atividade de delação, começando por sua própria casa. Ambas as organizações são desintegradoras da família: a Liga, por exaltar o serviço ao Partido em detrimento do prazer sexual; os "Espiões", por estabelecer um clima de desconfiança e medo dentro dos lares, entre os filhos e seus próprios pais.
A família contemporânea encontra-se igualmente dividida. A diferença de mentalidade e interesses entre crianças, adolescentes, jovens e seus pais é flagrante. A maioria dos pais, mesmo os mais jovens, nem sempre consegue entender e conciliar seus padrões éticos com os de seus filhos. Há uma espécie de "propaganda oficial" fornecendo os paradigmas de comportamento às gerações mais jovens. Seu veículo privilegiado parece ser a televisão, que funciona exatamente como uma telescreen moderna: cada lar, cada lugar público ou privado, possui uma, e parece que ninguém consegue "desligá-la", i.e., filtrar, selecionar e trabalhar criticamente as idéias por ela veiculadas.
A quebra de vários tabus sexuais, a permissão para o divórcio, a informação na área sexual, representam avanços à medida em que permitem às pessoas uma maior autonomia e mais ampla liberdade pessoal. Infelizmente, há muitos desvios, frutos de interesses mercantilistas que não têm escrúpulos em instrumentalizar o sexo e a família e resultado do descaso generalizado(até por falta de preparo) da classe governante.
Sexo, casamento e família são um assunto difícil de enfocar com isenção de preconceitos de várias ordens. No entanto, a leitura de Brave New World e 1984 levanta, conforme vimos, vários questionamentos nessa área. Alguns desses questionamentos foram referidos aqui. Vários outros ainda poderiam ser tratados, dada a complexidade inerente à vida hodierna, complexidade essa resultante, em grande parte, da superexposição à informação à qual todos estamos sujeitos.

4.5. Drogas e Realidade
Diversos fatores levam o ser humano a consumir drogas. Em Brave New World, as pessoas consomem a "droga perfeita"(soma) levados por um condicionamento pré-determinado pelo Estado. O Sistema faz com que a droga seja encarada como algo tão normal e corriqueiro quanto a alimentação diária. E tira proveito disso:
"A ração diária de Soma era uma precaução contra o desajustamento individual, a agitação social e a propagação de idéias subversivas"(Huxley, 1994:104).
Já em 1984, o álcool é o recurso ditado pelo desespero geral, a dolorosa fuga da realidade, por contraste à aparente tranqüilidade universal de Brave New World.
As drogas são parte da realidade de milhões de pessoas no mundo inteiro, do menor de rua que inala cola de sapateiro para suportar a fome e o abandono de que é vítima ao executivo estressado que consome cocaína para enfrentar a concorrência e a tensão do mundo dos negócios.
O consumo de drogas não é seriamente combatido pelo poder estabelecido, pois este nem sempre está livre de contradições e comprometimentos que tolhem sua ação. Em um país como a Colômbia, qual é o real interesse do governo em liquidar uma indústria que representa sua maior fonte de renda, a indústria dos derivados de coca? O poder e a influência dos "barões da coca" manipulam a vida dos colombianos nos diversos âmbitos, da política ao esporte. Mesmo com a questionável ajuda estrangeira, especialmente americana, o problema continua irresolvido.
As drogas legalizadas e socialmente aceitas representam uma espécie de porta de entrada para o consumo de suas congêneres ilegais. Evidentemente, nem todos os fumantes e alcoólicos se tornam dependentes de drogas ilegais. Permanece, no entanto, a contradição que leva o mundo moderno, em nome de interesses comerciais, a canonizar alguns tipos de drogas e a excomungar outras. Se é verdade que muitas pessoas cometem crimes ou se envolvem em acidentes de trânsito sob o efeito de drogas como cocaína e heroína, o mesmo acontece com os que se deixam dominar pelo álcool. As estatísticas mostram um enorme número de acidentes de trânsito ocasionados pelo alcoolismo, assim como inúmeros casos de câncer e doenças pulmonares causados pelo tabagismo. Nenhum governo, entretanto, jamais cogitou seriamente de combater o uso de tais drogas, até pela força econômica que representam através dos impostos recolhidos aos cofres estatais.
A vida moderna parece impelir muitos ao consumo de drogas como meio de fugir à dura realidade cotidiana. A ciência não desenvolveu, até hoje, uma droga equivalente à soma de Brave New World, que não trouxesse males à saúde do usuário. Diante da pouco provável perspectiva da erradicação do uso de drogas, o homem contemporâneo precisa pelo menos usar seu conhecimento científico e tecnológico para minimizar seus males. Tendo em vista a incapacidade humana, bem como a falta de um real empenho, para construir a Utopia, as pessoas sempre terão motivos para buscar meios de fuga às anti-utopias em que vivem. O razoável seria, portanto, pelo menos utilizar inteligentemente os meios disponíveis de cura recuperar o maior número possível de dependentes, criar programas de informação e esclarecimento e, fundamentalmente, investir em educação e saúde. O contraditório é que tais aspirações parecem demasiado difíceis, inalcançáveis até, mesmo vivendo nós sob um regime dito social e democrático. As mazelas de Brave New World e 1984 não são domínio exclusivo de sistemas ditatoriais.