A MENSAGEM
Numa entrevista na tv, um famoso roteirista*
respondeu a um espectador que perguntou como ele trabalhava a mensagem nos seus
roteiros: “putz! Lamento, não existe mensagem!” Discordo totalmente desse roteirista,
ainda mais porque o próprio roteiro – o roteiro mais famoso dele - desse autor
virou filme e deixa uma clara mensagem, só não vê quem não quer, de que o crime
compensa, pelo menos pra dois dos criminosos, apesar de uma das personagens não
aguentar o peso da culpa e se entregar, o que o final aberto do filme coloca em
cena, em interrogação, deixando as perguntas: esse terceiro criminoso vai se acomodar
e continuar com a farsa ou vai ser eliminado pelos outros dois?A mensagem está lá,
isto é, o crime também pode compensar para o terceiro, isso além de o filme mostrar que a sociedade está recheada de corrupção. Outros filmes que passam
essa mesma mensagem são OS BONS COMPANHEIROS(GOODFELLAS), de Martin Scorsese e DONNIE
BRASCO, de Mike Newell. No 1º, o antigo mafioso interpretado por Ray Liotta,
que denuncia seus companheiros em troca de sua inclusão no programa de realocamento
de testemunhas, já no final do filme, em uma declaração saudosa, lamenta com tristeza
o fim da sua vida de mafioso. No 2º, o policial interpretado por Johnny Depp, que
trabalhava infiltrado na máfia, aparece melancolicamente recebendo uma premiação
do FBI com uma medalha de honra ao mérito e um cheque de 500 dólares em cenas deprimentes.
Querendo passar mensagem no seu roteiro ou não, o fato é que a mensagem sempre existe
e, já que ela sempre vai existir de qualquer jeito, é preferível controlar a
mensagem. Não se deve confundir uma fala ou várias com a opinião do autor ou sua
mensagem, algumas falas vão coincidir com a opinião do autor, outras não, o que
vale é o discurso global, compreender os fenômenos de uma perspectiva global e
não me venham os sofistas de plantão querer dizer que essa perspectiva tem a
ver com a rede globo. O final não tem que ser necessariamente a moral da história,
embora esse recurso também seja válido, como no caso das fábulas, que em geral
são histórias-porrada e muito menos indicadas para crianças do que os contos de
fadas justamente por isso.
Em O QUE É MITO, de Everardo P.G.
Rocha (Coleção Primeiros Passos, editora Brasiliense), o autor descreve três
interpretações do mito de édipo, três diferentes mensagens enxergadas por três
grandes pensadores:
1)Uma de Claude Lévi-Strauss, que
diz que o mito é uma dificuldade, que existe uma ambivalência, uma hesitação da
sociedade grega em optar por uma origem, quer dizer, entre a origem autóctone,
ligada à terra e a origem vinda da união entre homem e mulher.
2)Já Michel Foucault acredita que,
no contexto da sociedade grega daquela época, o poder estava ligado à verdade e
esta expulsa Édipo do poder por meio de encaixes, isto é, a junção de diversas metades
da verdade:
- Uma peste assola o país, o país
está sujo, corrompido, o aviltamento do país se deve a um assassinato, o de Laio,
antigo rei, O adivinho tirésias diz que o assassino é Édipo, atual rei, Jocasta
tenta convencer Édipo de sua inocência e lembra que Laio foi morto por alguém
no cruzamento de três caminhos, Édipo se lembra que matou alguém justamente
nessa ocasião - um escravo vem de Corinto com a notícia de que o rei Políbio,
que Édipo julgava ser seu pai, havia morrido e revela que Políbio não era seu pai,
um outro escravo diz que, de fato, recebeu e deixou no Monte Cíteron uma criança
que vinha do palácio e que lhe haviam dito ser filho de Jocasta e Édipo. Jocasta,
ao saber da verdade, se mata e Édipo acaba furando seus próprios olhos e
virando um andarilho.
OBS: No nosso mundo contemporâneo,
temos muitos exemplos de que o poder, ao contrário da interpretação de Foucault
sobre o mito de Édipo, está ligado à mentira, à corrupção, à politicagem etc
isso não desvaloriza a interpretação de Foucault, pelo contrário, mostra a nossa
decadência.
3)Freud interpreta o mito de Édipo
como a história de todos nós, num triângulo amoroso com pai e mãe, uma história
de ódio e amor que devemos superar para não ficarmos presos nesse complexo, o chamado
complexo de Édipo.
É interessante observar, também, como
os símbolos são uma ferramenta muito interessante pra passar mensagens. Às vezes
me pego tendo umas idéias que acabo vendo já terem sido descobertas, como o símbolo
do vento como mensageiro, que utilizei em QUE PAÍS É ESTE? No caso, eu tive a ideia
antes de saber o que significava, depois, porém, ao procurar o significado de vento
no dicionário de símbolos o teor era exatamente o mesmo, isto é, o vento como mensageiro.
Com os símbolos nacionais roubados pela ditadura e o roteiro O TEMPO SAGRADO ocorreu
a mesma coisa, eu tive a ideia primeiro e depois vi que o Celso Lungaretti pensou
a mesma coisa na época da ditadura, li em seu blog NÁUFRAGO DA UTOPIA. Já com o
simbolismo mortuário da concha a mesma coisa, eu coloquei primeiro ela em UM
CRIME SEM AUTOR e depois conferi que o simbolismo
que eu imaginei estava correto. Tive, também, um pensamento importante que publiquei
no blog, o pensamento de que o deus da maioria das pessoas é o dinheiro, isso antes
de ver os cartuns do Quino que concordava e ampliava esse meu pensamento. Ora,
conclui-se, portanto, que “todo o conhecimento está dentro do homem”, uma velha
mas sempre atual frase, é a maiêutica. Ocorre, porém, que as pessoas podem, e
eu também já fiz isso, inverter o processo, buscando, consultando no dicionário
de símbolos ou em outras obras o que significa tal coisa, por exemplo, uma coruja,
e ajustando esse elemento ao seu roteiro.
É importante notar também, salta aos
olhos, a liberdade que os letristas brasileiros de músicas têm para reclamar, em
comparação com o cinema nacional, já há bastante tempo, é só lembrar de “Perfeição”,
do grupo Legião Urbana: a música inteira é só reclamação, mesmo assim ela foi
um grande sucesso, aliás, quem disse que reclamar não dá ibope?Os produtores brazucas
é que são muito conservadores e subestimam a inteligência do público. Ainda sobre
mensagem e música, existe um texto bem interessante sobre outra música do Legião
Urbana, “Eduardo e Mônica”, numa interpretação de autoria de Adolar Gangorra.
Vamos a ele:
“O falecido
Renato Russo era, sem dúvida, um ótimo músico e um excelente letrista.
Escreveu verdadeiras obras de arte cheias de originalidade e sentimento. Como
artista engajado que era, defendia veementemente seus pontos de vista nas letras
que criava. E por isso mesmo, talvez algumas delas excedam a lógica e o bom senso.
Como no caso da música Eduardo e Mônica, do álbum "Dois" da
Legião Urbana, de 1986, onde a figura masculina (Eduardo) é tratada sempre como
alienada e inconsciente, enquanto a feminina (Mônica) é a portadora de uma
sabedoria e um estilo de vida evoluidíssimos. analisemos o que diz a letra.
Logo na segunda estrofe, o autor insinua que
Eduardo seja preguiçoso e indolente (Eduardo abriu os olhos mas não quis se
levantar; Ficou deitado e viu que horas eram) ao mesmo tempo que tenta dar uma
imagem forte e charmosa à Mônica (enquanto Mônica tomava um conhaque noutro
canto da cidade como eles disseram). Ora, se esta cena tiver se passado de
manhã como é provável, Eduardo só estaria fazendo sua obrigação: acordar. Já Mônica
revelaria-se uma cachaceira profissional, pois virar um conhaque antes do almoço
é só para quem conhece muito bem o ofício.
Mais
à frente, vemos Russo desenhar injustamente a personalidade de Eduardo de maneira
frágil e imatura (Festa estranha, com gente esquisita). Bom, "Festa
estranha" significa uma reunião de porra-loucas atrás de qualquer bagulho
para poderem fugir da realidade com a desculpa esfarrapada de que são contra o
sistema. "Gente esquisita" é, basicamente, um bando de sujeitos que têm
o hábito gozado de dar a bunda após cinco minutos de conversa. Também são as garotas
mais horrorosas da via-láctea. Enfim, esta era a tal "festa legal" em
que Eduardo estava. O que mais ele podia fazer? Teve que encher a cara pra agüentar
aquele pesadelo, como veremos a seguir.
Assim
temos (- Eu não tô legal. Não agüento mais birita). Percebe-se que o jovem
Eduardo não está familiarizado com a rotina traiçoeira do álcool. É um garoto puro
e inocente, com a mente e o corpo sadios. Bem ao contrário de Mônica, uma
notória bêbada sem-vergonha do underground.
Adiante,
ficamos conhecendo o momento em que os dois protagonistas se encontraram (E
a Mônica riu e quis saber um pouco mais Sobre o boyzinho que tentava impressionar).
Vamos por partes: em "E a Mônica riu" nota-se uma atitude de pseudo-superioridade
desumana de Mônica para com Eduardo. Ela ri de um bêbado inexperiente! Mais à
frente, é bom esclarecer o que o autor preferiu maquiar. Onde lê-se "quis
saber um pouco mais" leia-se" quis dar para"! É muita hipocrisia
tentar passar uma imagem sofisticada da tal Mônica.
A verdade
é que ela se sentiu bastante atraída pelo "boyzinho" que tentava impressionar"!
É o máximo do preconceito leviano se referir ao singelo Eduardo como "boyzinho".
Não é verdade. Caso fosse realmente um playboy, ele não teria ido se encontrar
com Mônica de bicicleta, como consta na quarta estrofe (Se encontraram então
no parque da cidade A Mônica de moto e o Eduardo de camelo). Se alguém aí
age como boy, esta seria Mônica, que vai ao encontro pilotando uma ameaçadora motocicleta.
Como é sabido, aos 16 (Ela era de Leão e ele tinha dezesseis) todo boyzinho
já costuma roubar o carro do pai, principalmente para impressionar uma maria-gasolina
como Mônica.
E
tem mais: se Eduardo fosse mesmo um playboy, teria penetrado com sua galera na tal
festa, quebraria tudo e ia encher de porrada o esquisitão mais fraquinho de todos
na frente de todo mundo, valeu?
Na
ocasião do seu primeiro encontro, vemos Mônica impor suas preferências, uma
constante durante toda a letra, em oposição a uma humilde proposta do afável Eduardo
(O Eduardo sugeriu uma lanchonete Mas a Mônica queria ver o filme do Godard).
Atitude esta, nada democrática para quem se julga uma liberal.
Na
verdade, Mônica é o que se convencionou chamar de P.I.M.B.A (Pseudo Intelectual
Metido à Besta e Associados, ou seja, intelectuerdas, alternativos, cabeças e
viadinhos vestidos de preto em geral), que acham que todo filme americano é ruim
e o que é bom mesmo é filme europeu, de preferência francês, preto e branco, arrastado
para caralho e com bastante cenas de baitolagem.
Em
seguida Russo utiliza o eufemismo "menina" para se referir suavemente
à Mônica (O Eduardo achou estranho e melhor não comentar. Mas a menina tinha
tinta no cabelo). Menina? Pudim de cachaça seria mais adequado. Ainda há pouco
vimos Mônica virar um Dreher na goela logo no café da manhã e ele ainda a chama
de menina? Além disto, se Mônica pinta o cabelo é porque é uma balzaca querendo
fisgar um garotão viril. Ou então porque é uma baranga escrota.
O autor
insiste em retratar Mônica como uma gênia sem par. (Ela fazia Medicina e falava
alemão) e Eduardo como um idiota retardado (E ele ainda nas aulinhas de
inglês). Note a comparação de intelecto entre o casal: ela domina o idioma
germânico, sabidamente de difícil aprendizado, já tendo superado o vestibular altamente
concorrido para Medicina. Ele, miseravelmente, tem que tomar aulas para poder balbuciar
"iéis", "nou" e "mai neime is Eduardo"! Incomoda
como são usadas as palavras "ainda" e "aulinhas", para refletir
idéias de atraso intelectual e coisa sem valor, respectivamente.
Na
seqüência, ficamos a par das opções culturais dos dois (Ela gostava do Bandeira
e do Bauhaus, De Van Gogh e dos Mutantes, De Caetano e de Rimbaud). Temos
nesta lista um desfile de ícones dos P.I.M.B.A., muito usados por quem acha que
pertence a uma falsa elite cultural. Por exemplo, é tamanha uma pretensa intimidade
com o poeta Manuel de Souza Carneiro Bandeira Filho, que usou-se a expressão "do
Bandeira". Francamente, "Bandeira" é aquele juiz que fica apitando
impedimento na lateral do campo. O sujeito mais normal dessa moçada aí cortou a
orelha por causa de uma sirigaita qualquer. Já viu o nível, né? Só porra-louca
de primeira. Tem um outro peroba aí que tem coragem de rimar "Êta"
com "Tiêta" e neguinho ainda diz que ele é gênio!
Mais
uma vez insinua-se que Eduardo seja um imbecil acéfalo (E o Eduardo gostava de
novela) e crianção (E jogava futebol de botão com seu avô). A bem da
verdade, Eduardo é um exemplo. Que adolescente de hoje costuma dar atenção a um
idoso? Ele poderia estar jogando videogame com garotos de sua idade ou tentando
espiar a empregada tomar banho pelo buraco da fechadura, mas não. Preferia a
companhia do avô em um prosaico jogo de botões! É de tocar o coração. E como esse
gesto magnânimo foi usado na letra? Foi só para passar a imagem de Eduardo como
um paspalho energúmeno. É óbvio, para o autor, o homem não sabe de nada. Mulher
sim, é maturidade pura.
Continuando,
temos (Ela falava coisas sobre o Planalto Central, Também magia e meditação).
Falava merda, isso sim! Nesses assuntos esotéricos é onde se escondem os maiores
picaretas do mundo. Qualquer chimpanzé lobotomizado pode grunhir qualquer
absurdo que ninguém vai contestar. Por que? Porque não se pode provar absolutamente
nada. Vale tudo! É o samba do crioulo doido. E quem foi cair nessa conversa
mole jogada por Mônica? Eduardo é claro, o bem intencionado de plantão. E ainda
temos mais um achincalhe ao garoto (E o Eduardo ainda estava no esquema escola
- cinema - clube - televisão). O que o Sr. Russo queria? Que o esquema fosse
"bar da esquina - terreiro de macumba - sauna gay - delegacia"?? E qual
é o problema de se ir a escola?!?
Em seguida,
já se nota que Eduardo está dominado pela cultura imposta por Mônica (Eduardo
e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato e foram viajar).
Por ordem:
1)
Teatro e artesanato não costumam pagar muito imposto.
2)
Teatro e artesanato não são lá as coisas mais úteis do mundo.
3)
Quer saber? Teatro e artesanato é coisa de viado!!!
Agora
temos os versos mais cretinos de toda a letra (A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar). Mais uma vez, aquela lengalenga
esotérica que não leva a lugar algum. Vejamos: Mônica trabalha na previsão do tempo?
Não. Mônica é geóloga? Não. Mônica é professora de química? Não. A porra da Mônica
é alguma aviadora? Também não. Então que diabos uma motoqueira transviada pode
ensinar sobre céu, terra, água e ar que uma muriçoca não saiba?
Novamente,
Eduardo é retratado como um debilóide pueril capaz de comprar alegremente a Torre
Eiffel após ser convencido deste grande negócio pelo caô mais furado do mundo.
Santa inocência... Ainda em (Ele aprendeu a beber), não precisa ser muito
esperto pra sacar com quem... é claro, com a campeã do alambique! Eduardo poderia
ter aprendido coisas mais úteis, como o código morse ou as capitais da Europa,
mas não. Acharam melhor ensinar para o rapaz como encher a cara de pinga. Muito
bem, Mônica! Grande contribuição!
Depois,
temos (deixou o cabelo crescer). Pobre Eduardo. Aquela altura, estava crente
que deixar crescer o cabelo o diferenciaria dos outros na sociedade. Isso sim é
que é ativismo pessoal. Já dá pra ver aí o estrago causado por Mônica na cabeça
do iludido Eduardo.
Sempre
à frente em tudo, Mônica se forma quando Eduardo, o eterno micróbio, consegue
entrar na universidade (E ela se formou no mesmo mês em que ele passou no
vestibular). Por esse ritmo, quando Eduardo conseguir o diploma, Mônica deverá
estar ganhando o seu oitavo prêmio Nobel.
Outra
prova da parcialidade do autor está em (porque o filhinho do Eduardo tá de
recuperação). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Mônica,
que ficou de segunda época. Em suma, puxou ao pai e é burro que nem uma porta.
O
que realmente impressiona nesta letra é a presença constante de um sexismo estereotipado.
O homem é retratado como sendo um simplório alienado que só é salvo de uma vida
medíocre e previsível graças a uma mulher naturalmente evoluída e oriunda de
uma cultura alternativa redentora. Nesta visão está incutida a idéia absurda que
o feminino é superior e o masculino, inferior. É sabido que em todas culturas e
povos existentes o homem sempre oprimiu a mulher. Porém, isso não significa, em
hipótese alguma, que estas sejam melhores que os homens. São apenas diferentes.
Se desde o começo dos tempos o sexo feminino fosse o dominador e o masculino o
subjugado, os mesmos erros teriam sido cometidos de uma maneira ou de outra. Por
que? Ora, porque tanto homens quanto mulheres e colunistas sociais fazem parte
da famigerada raça humana. E é aí que sempre morou o perigo. Não importa que
seja Eduardo, Mônica ou até... Renato!”
Vejamos
agora a mensagem num livro que inspirou vários filmes, trata-se de O PLANETA
DOS MACACOS(LA PLANÈTE DES SINGES), escrito por Pierre Boulle, num trecho
bem significativo de uma análise de autoria de Eduardo Torelli:
“No desfecho da trama, não encontrei a imagem-choque
de Charlton Heston e Linda Harrison cavalgando junto às ruínas da Estátua da
Liberdade. Porém, sob certa perspectiva, a conclusão do romance era igualmente
inquietante – e, talvez, ainda mais aterradora: o livro sugeria que os macacos
haviam sucedido os seres humanos não apenas como senhores da terra, mas de todo
o universo.
Este, aliás, é um ponto de fundamental importância
em La Planète Des Singes: na novela de Boulle, a palavra humano está imbuída do mesmo sentido com o qual costumava ser empregada
na era Renascentista. Humano – no sentido de criatura privilegiada , eleita
por deus, a raça dominante no universo. Quando o desafortunado Ulisses Mérou é
aprisionado por uma cultura de macacos evoluídos , que vivem em um planeta da
longínqua constelação de Órion, Boulle começa a questionar a veracidade deste
conceito, confrontando-o com uma nova e surpreendente perspectiva: e se, em outras
paragens do Cosmo, Deus tivesse invertido as regras do jogo? Ao ser caçado
, estudado e tratado como um bom mascote por seus captores, Ulisses descobre que
o conceito clássico de homem é uma farsa. Muitas são as moradas de Deus – ou suas
faces:
(...) Era decerto esse o motivo essencial do
meu espanto: nas pupilas deste animal(o macaco) luzia a centelha espiritual
que procurara em vão nos homens de Soror.”
- O
Planeta dos Macacos (Capitulo IX, Primeira Parte)
Mais interessada no potencial escapista da obra,
Hollywood assimilou, apenas em parte, a mensagem metafísica da novela: o que
Boulle nos diz em La Planète Des Singes é que realmente existe uma inteligência
governando o Universo – mas que o fato desta achar-se encarnada no homem é,
antes de tudo, uma obra do acaso. Diante do fracasso da civilização representada
pelos astronautas do romance, esta inteligência migra para uma outra espécie – o
que faz de Mérou e dos macacos meros invólucros corpóreos do espírito
onipotente que controla seus destinos.”
O Planeta dos Macacos é um daqueles livros cujas adaptações cinematográficas acabam
os ofuscando e eles são legados pelas editoras a um injusto segundo plano, quiçá
ao esquecimento. Lançado em 1963 e imortalizado pelo filme de 1968 protagonizado
por Charlton Heston, este relato é uma das mais profundas reflexões que a literatura
já fez sobre questões como a evolução, a inteligência humana, o domínio da tecnologia
e a racionalidade, entre outras. A edição mais recente disponível no Brasil, da
Aleph, é um colírio para os olhos apaixonados por livros, com um excelente projeto
gráfico e extras que complementam perfeitamente a narrativa.
A história, já bem conhecida por todos, é
narrada em primeira pessoa pelo jornalista Ulysse Mérou. Ele nos conta
como embarcou como tripulante numa viagem de exploração do professor Antelle até
a estrela Betelgeuse. Lá, encontram o planeta Soror, com condições de vida semelhantes
à Terra, e decidem pousar para melhor efetuar suas pesquisas. Este planeta traz
duas peculiaridades: os seres humanos que eles encontram vivem num estado selvagem,
quase como animais; e os habitantes que formam uma sociedade bastante evoluída
e organizada são macacos.
A partir do momento que Ulysse é caçado e
preso junto a outros humanos, Boulle nos guia para dentro desse ambiente símio
em que tudo é exatamente igual à nossa vida. Roupas, utensílios, costumes, níveis
sociais… O mundo dos macacos é um reflexo do nosso, e esse aparente absurdo não
causa nenhum choque, nem no personagem-narrador nem em nós leitores, tamanha a qualidade
da escrita. Este planeta dominado pelos macacos é extremamente verossímil e
serve de base para inúmeros debates e reflexões à cerca da capacidade evolutiva
das espécies.
Quando Ulysse consegue chamar a atenção
dos macacos para o seu lado racional e se mostra como um ser diferente dos demais
humanos, ele é aceito para conviver e conhecer esse mundo. Através dos seus
olhos, vamos desvendando como os macacos evoluíram ao ponto de deixar homens
para trás, e vamos nos chocando ao sermos confrontados com situações que para
nós são simples atos de lazer, mas que quando os papéis se invertem o incômodo
é inevitável. Um dos exemplos mais marcantes é o passeio ao zoológico onde homens,
mulheres e crianças estão atrás das grades para divertir os macacos e ganhar
torrões de açúcar. E o que pensar de experiências de laboratório com cobaias humanas?
O relato de Ulysse nos mostra que é possível
tanto regredir a um estado animalesco e perder a razão, o espírito, as emoções,
quanto a readquirir estes mesmos sentimentos e características. E no jogo de perguntas
que a história vai colocando em nossa cabeça, ficamos com a sensação de que o
fato de ser dotado de uma alma racional não nos dá o direito de subjugar outras
espécies inferiores. Tanto homens quanto macacos deixam a clara impressão de superioridade
quando olham para o outro. Aquele orgulho de dominar o que o outro mal sabe identificar.
É um comportamento correto? É um comportamento que se justifica simplesmente pela
capacidade de pensar? Ou, em resumo, ser racional é sinônimo de ser superior?
Estas e muitas outras questões vão sendo
levantadas à medida que a história avança, conduzindo magistralmente para um dos
finais mais surpreendentes e, opinião minha, maravilhosos que já se produziu na
literatura. Diferente do término do filme, O Planeta dos Macacos-livro
se encerra de forma a esmagar todas as ideias ou esperanças que possamos ter
concebido durante a leitura. Uma cena antológica que pode provocar choque, perplexidade
ou até mesmo, risos.
Se você quer sair da sua zona de conforto
de espécie dominante e fazer conjecturas sobre “e se…”, esta é uma leitura obrigatória.
Pierre Boulle nos legou uma obra universal com todos os ingredientes para perturbar
e provocar reflexões em infindáveis gerações. Sejam elas de leitores humanos ou
macacos.
Avaliação: 5 Estrelas
O Autor: Pierre Boulle nasceu a
19 de fevereiro de 1912, em Avignon, França. Estudou Engenharia Eletrotécnica
na Escola Superior de Eletricidade de Paris e, depois de ter exercido a profissão
em França, mudou-se para a Malásia, em 1938. Na Segunda Guerra Mundial, com a
ocupação da França pelas tropas alemãs, juntou-se à Missão Livre francesa em
Singapura. Serviu como agente secreto com o nome de Peter John Rule, auxiliando
o movimento de resistência da China, da Birmânia e da Indochina.
Suas duas obras mais famosas são A Ponte
do Rio Kwai (1952) e O Planeta dos Macacos (1963), ambos convertidos para
cinema com enorme sucesso. A Ponte do Rio Kwai reflete em grande medida as suas
experiências enquanto prisioneiro de guerra, enquanto que O Planeta dos Macacos
se concentra no descontentamento com o mundo, de cujo potencial para cometer
atrocidades é bom conhecedor. Entre os seus últimos trabalhos contam-se La Baleine
Des Malovines (1983), Le Professeur Mortimer (1988) e A Nous Deux Satan (1992).
Pierre Boulle foi oficial da Legião de Honra, medalhado com a Cruz de Guerra e
a Medalha da Resistência. Faleceu a 30 de janeiro de 1994, em Paris.
*Trata-se
de Marçal Aquino, roteirista de O INVASOR, dirigido por Beto Brant, filme, aliás,
muito bom.
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