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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

CRÍTICA DO FILME NUVELA

Assistam ao filme:


NUVELA


Crítica por Jorge Lobo

Cloud Opera ou um filme em forma de caleidoscópio

NUVELA  é uma coletânea de vários trechos de filmes que versam direta ou indiretamente sobre o Spa e Hotel da Loucura, localizado no Engenho de dentro, bairro da cidade do Rio de Janeiro. Atividades lúdicas visando propor o bem-estar de pessoas com qualquer tipo de distúrbio mental. Essa é uma das propostas. Mas NUVELA vai além, cada vez mais, visando expandir e proporcionar benefícios para um número cada vez maior de pessoas, buscando levar sua mensagem cada vez mais longe. Assim é que muitas vezes o trabalho é levado para além dos muros do hospital psiquiátrico. O movimento atrai artistas (como Chico César e Ney Matogrosso), psiquiatras, psicólogos e outros na busca de um lugar ao sol cada vez maior para as pessoas ditas “loucas”. O trabalho artístico como forma de cura (vide Moreno em seu conceito de PSICODRAMA), pode até não ser novidade no mundo, mas trabalha com a integração de pessoas de forma a fazer com que elas se sintam parte de um grupo. Fica a pergunta: se os canalhas, se os corruptos se unem, por que as pessoas com distúrbios mentais não podem se unir? NUVELA mostra que sim e se insere no contexto da luta antimanicomial. As armas do movimento do qual Vitor Pordeus é uma importante figura (do Engenho de Dentro para o mundo) são as várias formas de arte: teatro, artes plásticas, música, audiovisual, dança, poesia; isso além de todo um trabalho psicológico baseado em Jung, Nise da Silveira, Espinosa, William Shakespeare, o já citado Moreno etc. Tudo isso sem a mácula do famigerado espírito de competição que corrói a sociedade capitalista valorizando o cântico do filme que diz: “cuidar do outro é cuidar de mim, cuidar de mim é cuidar do mundo”. Neste sentido, é muito interessante assistir ao depoimento de Amir Haddad, mentor do grupo de teatro TÁ NA RUA, sobre capitalismo  e também seu discurso sobre o que é ser um artista. Deve ser citado também, o grande poder oratório de Vitor Pordeus, não só com os pacientes mas nos congressos e entrevistas das quais ele participa. É claro que, neste filme, às vezes existem cortes que prejudicam a fruição do filme, mas de forma geral a proposta, que é a de dar um panorama geral do trabalho, é bem sucedida.


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Psicodrama – J. L. Moreno

A Tragédia: Estrutura e História - Ligia Militz Da Costa & Maria Luiza Ritzel Remedios



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

RESUMO DO LIVRO MACUNAÍMA - O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER + COMENTÁRIOS CRÍTICOS SOBRE O LIVRO E O FILME - ATENÇÃO: SPOILERS

Eis abaixo um resumo do livro seguido de comentários críticos. Quem quiser ter uma visão mais completa do livro é só adquirí-lo por preços módicos em um sebo de sua escolha.



Macunaíma - Mário de Andrade - Modernismo
resumo

Cap.I - MACUNAÍMA

Relata o nascimento do herói, "preto retinto, filho do medo na noite", nascido de uma índia tapanhumas no meio da selva, Macunaíma aprende tardiamente a falar, mas, quando o faz (com 6 anos ao lhe darem água no chocoalho), tem pronto o seu bordão: "Ai, que preguiça!..."
Tinha dois irmãos, Jiguê e Maanape, um velhinho feiticeiro.
A diversão de Macunaíma era decepar cabeças de saúva e tomar banho nu junto com a família e as cunhãs, cujas partes íntimas agradavam muito o herói; enquanto "guspia"na cara dos machos.
À noite, de cima de sua rede onde dormia, mijava quente na velha mãe, sonhando imoralidades e dando coices no ar.
A companheira de Jiguê, Sofará, ajudava a cuidar de Macunaíma, levando-o ao mato para passear, mas chegando lá ele se transformava em um lindo príncipe e "brincava" muito com ela. Quando Jiguê chegava na maloca e encontrava o serviço por fazer, catava os carrapatos dela e dava-lhe uma grande surra, a qual recebia calada.
Macunaíma conseguiu capturar uma anta quando estava no mato com Sofará. Neste dia a cunhã se transformou em uma onça suçuarana e "brincou" violentamente com o herói, sendo assistidos por Jiguê. Este, deu uma surra no herói , levando Sofará de volta ao pai.
"O berreiro foi tão grande que encurtou o tamanho da noite e os pássaros caíram de susto e se transformaram em pedras."

Cap.II - MAIORIDADE

Jiguê arranja uma companheira nova, Iriqui, que trazia escondido um ratão na maçaroca dos cabelos.
Falta o que comer na maloca e para se divertir às custas dos manos, Macunaíma mente que tem timbó no rio, assim eles passam o dia todo procurando timbó, enquanto o herói afirma que timbó já tinha sido gente um dia...
Faz uma mágica para a mãe levando-a para o outro lado do rio, onde havia fartura de caça e frutas, mas ao perceber que a mãe pretende levar alimentos para os outros, transporta-a de volta sem nada. Com raiva, a velha leva-o para o Cafundó do Judas, abandonando-o onde não poderia crescer nunca mais; lá encontrou Currupira, de cuja perna cortou um pedaço e deu para Macunaíma comer, intencionando devorá-lo depois. Macunaíma foge, enquanto Currupira chama pelo pedaço de sua perna que lhe responde: "O que foi?". Assim, ele vomita o pedaço de carne e some.
Uma cotia derrama-lhe uma poção mágica que o faz crescer, contudo assustado desvia e a cabeça do herói 0não é atingida pela magia, ficando com cara de piá.
Chegando na maloca, fica sozinho com Iriqui e "brinca" com ela, tornando-se seu companheiro. Em uma caçada, persegue uma viada matando-a, ao chegar perto desmaia: a viada era sua velha mãe!
"Então Macunaíma deu a mão para Iriqui, Iriqui deu a mão pra Maanape, Maanape deu a mão pra Jiguê e os quatro partiram por esse mundo"

Cap.III - CI, A MÃE DO MATO

Um dia encontrou Ci dormindo no mato e quis "brincar"com ela, porém a cunhã defendeu-se violentamente, os manos precisaram acudi-lo, pois Ci o estava quase matando. Depois de uma paulada na cabeça, ela desmaiou e o herói pôde "bricar"com a mãe do mato. Agora virara Imperador do Mato Virgem, por isso muitas jandaias, araras, tuins, coricas, periquitos etc, vieram saudar Macunaíma.
Passara agora a viver com Ci, por quem se apaixorara depois de com ela "brincar" em uma rede trançada por ela com os próprios cabelos. Depois de seis meses tiveram um filho que logo morreu ao mamar no peito da mãe, pois este estava contaminado pelo veneno da Cobra Preta.
Neste dia Ci entrega a Macunaíma uma muiraquitã e sobe ao céu, transformando-se Na Beta do Centauro e no túmulo do filho nasceu um pé de guaraná.
"Com as frutinhas piladas dessa planta é que a gente cura muita doença e se refresca durante o calorão de Vei, a Sol".

Cap. IV - BOIÚNA LUNA

Fez da muiraquitã um tembetá pendurado no beiço inferior e padeçou muita saudade de Ci. Assim, choroso, seguiu viagem com os manos, sempre acompanhado das jandaias, araras etc.
Neste capítulo, o narrador relata a lenda do surgimento da Lua. Esta era a boiúna Capei que deveria possuir uma virgem de nome Naipi, porém Naipi entregara sua virgindade ao moço Titçatê. Capei transformou Naipi em uma cachoeira chorosa e o moço em uma planta de flores roxas. Macunaíma ouviu a história da Cascata e disse-lhe que tinha vontade de matar Capei por isso. Capei saiu de baixo de Naipi, onde morava vigiando o sexo da moça e partiu para se vingar do herói. Macunaíma arrancou-lhe a cabeça e este membro de Capei tornou-se escravo dele sempre perseguindo-o, por fim resolveu subir ao céu e lá ficou morando para sempre.
Ele perde o talismã nessa correria e o passarinho uirapuru conta-lhe que a pedra fora achada por um mariscador e vendida pra um regatão peruano chamado Venceslau Pietro Pietra, Piaimã, o gigante comedor de gente que andava com os calcanhares para frente, enriquecera e agora morava na cidade de São Paulo.
"Então Macunaíma contou o paradeiro da muiraquitã e disse pros manos que estava disposto a ir em SP procurar esse tal Venceslau P. P. e retomar o tembetá roubado."

Cap.V - PIAIMÃ

Macunaíma deixa a consciência na ilha de Marapatá, sobre um pé de caruru e ruma pra SP junto com seus manos através do rio Araguaia.
Sem perceber tomou banho em uma água encantada e ficou branco, louro e de olhos azuizinhos, os irmãos também entraram na água, porém já suja do negrume do herói, Jiguê ficou vermelho e Maanape só molhou as palmas das mãos que ficaram mais claras. E seguiram levando uma parte do tesouro da icamiabas.
Chegando em SP a comitiva de pássaros se despedem dele. Olhava pro céu, sentia saudade de Ci, mas conheceu as moças brancas (Mani! Mani! filhinhas da mandioca...") com quem "brincou" por quatrocentos bagarotes.
Tudo para ele era estranho na cidade e foi aprendendo o nome das coisas ( bondes, automóveis, relógio, faróis, rádios, telefones, postes chaminés) as quais chamava de Máquina. Concluiu então que "os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens."
Macunaíma saiu com Maanape em busca de Piaimã e da muiraquitã, mas o herói foi pego pelo gigante que o queria devorar. Maanape, ajudado por uma formiga sarará e um carrapato, conseguiu trazer o herói de volta à pensão e ressucitou-o com guaraná. Pensou em arranjar uma arma para matar o gigante e foi pedir aos ingleses.
"Agora dou minha garrucha pra você e quando alguém bulir comigo você atira. Então virou Jiguê na máquina telefone, ligou pro gigante e xingou a mãe dele".

Cap.VI - A FRANCESA E O GIGANTE

Tentando enganar o gigante, virou Jiguê em telefone e disse a Venceslau que uma francesa iria visitá-lo. Transformado em uma francesa linda foi para tentar negociar a muiraquitã, mas o gigante queria possuí-lo antes de entregar a pedra.
Piaimã descobre que o herói está tentando enganá-lo e tenta pegá-lo; Macunaíma corre muito, atravessando vários Estados do Brasil e só se livra do gigante quando este tenta tirá-lo de um buraco e pega no "sim-sinhô" do herói arremessando-o longe.
Descobriu que Venceslau era um colecionador célebre e ele não, ficou contrariado e resolveu que colecionaria palavrões.
"Ai! Que preguiça!..."

Cap. VII - MACUMBA

Para se livrar de Piaimã, ele resolve ir ao RJ, no terreiro da tia Ciata, pedir ajuda pro Exu diabo. O herói experimentou a cachaça e soltava gargalhadas escandalosas, por isso todos pensavam que o santo abaixaria nele naquela noite. De repente uma polaca pulou no meio da roda, era Exu que havia possuído a moça. Macunaíma ficou excitado de vê-la caída daquele jeito e correu a brincar com ela no meio da roda. Pediu à entidade que judiasse muito de Piaimã e, através do corpo da polaca, Macunaíma ia fazendo as maldades para o gigante que quase morria de tanto sofrer...
"E os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle, Dodô, Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento, todos esses macumbeiros saíram na madrugada".

Cap.VIII - VEI, A SOL

Seguindo, Macunaíma topou com a árvore Volomã, cujos galhos estavam carregadinhos de variadas frutas; pediu uma e Volomã negou. Então o herói pronunciou algumas palavras mágicas e todas foram para o chão. Irada, Volomã atirou-o pelos pés em uma ilha deserta. Demorou tanto a cair que dormiu durante o percurso. Lá, um urubu fez necessidade em sua cabeça e, po isso, ninguém se dispunha a trazê-lo de volta, pois estava fedendo muito.
Vei, a Sol, deu-lhe carona em sua jangada juntamente com suas três filhas, pois pretendia torná-lo seu genro. Mas para isso disse-lhe que não poderia brincar com nenhuma outra cunhã. Nem bem saíram para iluminar o dia, Macunaíma encontrou uma portuguesa com quem brincou demoradamente. Quando chegaram encontraram o herói dormindo com ela na jangada. Vei se zangou e não consentiu que o herói se casasse com nenhuma. À noite uma assombração comeu a portuguesa e o herói voltou para a pensão.
"Pouca saúde e muita saúva, os males do brasil são!"

Cap. IX - CARTA PRAS ICAMIABAS

Com um vocabulário erudito, escreve uma carta pras icamiabas, tentando relatar-lhes as aventuras pelas quais estavam passando ele e seu dois irmãos. Explica-lhes como os paulistanos as chamam, por amazonas, e como estes nunca ouviram falar da muiraquitã tão conhecida e respeitada entre as icamiabas. Sobre o dinheiro ,chama-o de "o curriculum vitae da civilização", para explicar que as mulheres cobram para brincar.
Prolonga-se na tentativa de descrever o comportamento das mulheres paulistanas: como se vestem, como se casam. Fala dos prostíbulos, da política, vida pública em geral e, por fim, descreve a cidade de São Paulo sempre com um linguajar prolixo
"Vazada num vernáculo pernosticamente castiço, com evidente intenção satírica, visando os puristas da belle époque e todos aqueles mais afeitos à dicção portuguesa."( Massud de Moisés - História da Literatura Brasileira).
"Ora, sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra."

Cap.X - PAUÍ-PÓDOLE

Enquanto aguardava uma chance de recuperar a muiraquitã, Macunaíma passeava pela cidade. Foi assim que encontrou uma cunhã vendendo flores e quando o herói passou por ela, esta colocou-lhe uma flor na botoeira da camisa, orifício que ele chamou de "puíto", segundo o narrador, um palavrão muito feio. Puíto pegou e virou moda.
Depois de uma semana, resolveu ir ao parque ver os fogos. No caminho encontrou Fraülen ( personagem do livro Amar, verbo intransitivo) e foi com ela.
Observando um mulato explicar sobre o dia do Cruzeiro, Macunaíma resolve desmenti-lo e contar sua versão: Pauí-Pódole era o pai do Mutum, um pássaro que fora perseguido por um feiticeiro que tentou matá-lo. Por isso Pauí resolveu morar no céu e pediu para que seu compadre vagalume alumiasse o caminho dele. Vários vagalumes o acompanharam e por isso esse caminho de estrelas pode ser explicado.

Cap. XI - A VELHA CEIUCI

Sempre mentindo, Macunaíma convidou os manos pra caçar. Pegou dois ratos chamuscados no fogo, comeu-os e disse aos vizinhos que tinha matado dois viados catingueiros.
Depois de desmentido pelos manos, ficou chateado e começou a ter lembranças do Mato e de Ci. Então ficaram juntos lembrando do passado.
O herói fumou fava de paricá para ter sonhos gostosos. No outro dia causa uma grande confusão quando convence os manos a procurarem rasto de tapir na frente da bolsa de mercadorias, quase foi linchado e preso.
Um dia resolveu pescar no igarapé Tietê e encontrou a velha Ceiuci, esposa de Piaimã. Ela capturou o herói e levou-o para casa. A filha mais nova da velha gostou de Macunaíma , "brincou" com ele e deixou-o fugir. A velha transformou a filha em um cometa e correu o Brasil inteiro atrás do herói. Ele pegou carona com um tuiuiu e voltou para a pensão.
"A filha expulsa corre no céu, batendo perna de déu em déu."

Cap.XII - TEQUETEQUE, CUPINZÃO E A INJUSTIÇA DOS HOMENS.

Piaimã viaja à Europa para descansar da sova e Macunaíma fica muito frustrado. O mano Jiguê tem a idéia de irem atrás do gigante, porém Maanape conclui que o melhor é que Macunaíma se finja de pianista e vá sozinho por conta do governo. Macunaíma prefere se passar por pintor, porém não consegue nada . Além disso, agora tinha perdido quarenta contos ao comprar de um tequeteque (mascate) um gambá que, supostamente, soltava moedas de prata quando fazia necessidades.
Então resolveu que não ia à Europa e decidiu procurar uma panela com dinheiro enterrado, não achando convida os manos para jogarem no bicho.
Numa praça, quando refletia sobre a injustiça dos homens, viu um tico-tico e um chupim, este chorava atrás do outro pedindo comida e o pássaro tentava sustentá-lo achando que fosse seu filhote, então Macunaíma matou o tico-tico para acabar com a injustiça. Mais adiante encontrou um macaco comendo coquinhos, o bicho disse ao herói que estava comendo seu próprios toaliquiçus (bolsa escrotal), deu um pouco para o herói que gostou muito e resolveu comer os dele também. Pegou um paralelepípedo e esmigalhou seus "toaliquiçus", morrendo de dor.
Um advogado encontra Macunaíma morto e leva-o para a pensão, chegando lá, Maanape ressuscita o mano com guaraná; acorda, pede uma centena a Maanape e joga no bicho...
"Maanape era feiticeiro".

Cap.XIII - A PIOLHENTA DO JIGUÊ

Jiguê arrumou uma outra companheira de nome Susi, a qual em pouco tempo já estava namorando e "brincando" com Macunaíma. Quando ia à feira comprar macacheira, levava o herói junto e com ele brincava toda a tarde. Jiguê, desconfiado, deixa a companheira em casa e passa a fazer a feira sozinho, enquanto Susi fica em casa catando os piolhos da cabeleira vermelha que eram muitos. Desconsolado com a traição de Susi dentro de sua maloca, manda-a embora e ela sobe ao céu, trasnformada em uma estrela que pula.

Cap.XIV - MUIRAQUITÃ

Fica sabendo através dos jornais que Piaimã voltou da Europa.
Neste capítulo, o narrador explica por que existe o sono e o homem não pode dormir em pé.
Andando, o herói vê um casal brincando na beira da lagoa e aproxima-se pedindo um cigarro, o moço diz que não tem e Macunaíma resolve fumar o seu de palha que traz escondido. Esperando dar a hora de ir à casa do gigante ele conta uma história ao casal, explicando que o automóvel, antigamente, era uma Onça parda que perseguida por uma tigre preta resolveu colocar quatro rodas nos pés, tomar óleo de mamona, comer  um motor morder dois vagalumes...Assim, transformando-se na máquina automóvel.
"Dizem que mais tarde a onça pariu uma ninhada enorme. Teve filhos e filhas. Por isso que a gente fala "um forde" e "uma chevrolé".
Depois da prosa, o gigante chegou.Observando os três parados perto de sua casa, convidou-os para entrar. Perguntou ao moço se queria balançar e o moço subiu no balanço do gigante, porém a velha Ceiuci estava preparando uma macarronada e esperava o sangue do moço para engrossar o caldo. Piaimã deu-lhe um empurrão e jogou-o na macarronada fervendo Agora queria pegar o herói, porém este se recusava a balançar, fez manha e convenceu o gigante a balançar primeiro. A velha preparou o panelão sem saber quem viria engrossar o caldo. De repente, Macunaíma deu um solavanco no gigante e empurrou-o dentro da macarronada da velha Ceiuci
Então Macunaíma matou o gigante comedor de gente e recuperou sua muiraquitã.
"Num esforço gigantesco inda se ergueu do fundo do tacho. Afastou os macarrões que corriam na cara dele, revirou os olhos pro alto, lambeu a bigodeira:
- Falta queijo! Exclamou...
E faleceu."


Cap. XV - A PACUERA DO OIBÊ

Recuperado o talismã, resolvem voltar para a selva. Na despedida repete pela última vez a sua definição sobre o país: "Pouca saúde e muita saúva,os males do Brasil são..."
Levou com ele um revólver e um relógio que pendurou nas orelhas, um galo e uma galinha Legorne e a muiraquitã pendurada no beiço.
Na volta, pelo Araguaia, pegou a violinha e cantou cantigas tristes e sem sentido, enquanto ia sendo acompanhado pela comitiva de pássaros que o protegia de Sol. Lembrava das donas de pele alvinha e sentia saudades de SP. Perto do mato pegou Iriqui e procurou um lugar para passar a noite.
Em um rancho, encontrou o monstro Oibê que estava fazendo uma pacuera . Disse que estava com fome e o monstro deu-lhe cará com farinha, água e arrumou um lugar para o herói dormir. Macunaíma roubou a pacuera de Oibê e comeu-a .Perseguido pelo monstro, vomita tudo para se livrar.
Na correria encontrou uma princesa, brinca com ela e abandona Iriqui que fica desconsolada, por isso resolve subir ao céu. "E o Setestrelo".


Cap. XVI - URARICOERA

Foram chegando perto do Uraricoera e Macunaíma já começa a reconhecer o lugar, porém muita coisa havia mudado e o herói chorou. No outro dia, enquanto todos se ocupavam com algum serviço, Macunaíma deu uma chegadinha até a boca do Rio Negro para buscar a consciência deixada na ilha de Marapatá; não achando, pegou a de um hispano-americano.
Jiguê encontra uma cabaça encantada que pertence ao feiticeiro Tzaló que tem uma perna só e, com ela, consegue pescar muitos peixes, mas Macunaíma, roubando a cabaça encantada perde-a no rio e Jiguê fica furioso e deixa todos com fome. Para se vingar do mano, Macunaíma transforma uma presa de sucuri em anzol e pede para que espete a mão de Jiguê. Machucado com o anzol, Jiguê tenta curar a ferida, mas esta transforma-se em uma lepra que devora todo o corpo de Jiguê, deixando apenas sua sombra. A princesa ficou com raiva do herói porque ultimamente andava brincando com Jiguê e ordenou que a sombra envenenada destruísse Macunaíma; assim a sombra virou uma bananeira carregadinha e o herói, faminto, devorou as bananas, adquirindo a lepra. Estando moribundo resolveu passar a doença para sete povos. Veio a Saúde e livrou Macunaíma da morte.
A sombra voltou e engoliu a princesa e o mano Maanape, mas não conseguiu pegar o herói. Correndo dela, Macunaíma passou por vários lugares do Brasil, até conseguir se livrar. Enfim, a sombra econtrou um boi, subiu nas costas dele e não deixava que o bicho comesse nada, assim o boi morreu e muitos urubus vieram fazendo a festa ( aqui o narrador explica a origem do bumba-meu-boi).
"A sombra teve raiva de estarem comendo o boi dela e pulou no ombro do urubu-ruxama. O pai do urubu ficou muito satisfeito e gritou:
- Achei companhia pra minha cabeça, gente!
E voou pra altura. Desde esse dia o urubu ruxama que é o Pai do Urubu possui duas cabeças. A sombra leprosa é a cabeça da esquerda."


Cap. XVII - URSA MAIOR

Sozinho agora e com muita preguiça, Macunaíma amarra a rede em dois cajueiros perto de uma pedra com dinheiro enterrado em baixo. "Que solidão!"
O único que lhe fez companhia foi um aruaí (espécie de arara) muito falador, que aprendia, repetindo, todos os casos contados pelo herói, desde sua infância. E todos os dias a ave repetia o caso da véspera e Macunaíma punha-se a contar mais um.
Depois de muitos dias na rede, comendo caju e contando casos ao papagaio, a Sol veio fazer cosquinhas no corpo do herói e a vontade de "brincar" reapareceu forte em Macunaíma, então resolveu tomar um banho frio no vale de Lágrimas para a vontade passar. Ao olhar para o fundo das águas viu uma cunhã lindíssima, era Uiara que, mandada pela Sol para atrair o herói e matá-lo, vinha dançando e piscando até que Macunaíma pulou no fundo das águas. Atacado pelas piranhas, perdeu a perna direita, os dedões, os "cocos da Bahia", o nariz, as orelhas e o beiço com a muiraquitã. Depois de muito procurar, encontrou tudo e colou de volta no lugar, menos a perna direita e a muiraquitã, pois foram engolidos pelo monstro Ururau. Sem um sentido agora para continuar vivendo, resolveu ser brilho inútil lá no céu, deixando escrito numa laje: "NÃO NASCI PARA SER PEDRA". No céu, Pauí-Pódole virou Macunaíma na constelação da Ursa Maior.

EPÍLOGO

Uma feita um homem foi lá.

Então o homem descobriu na ramaria um papagaio verde de bico dourado espiando pra ele.

O papagaio veio pousar na cabeça do homem e os dois se acompanheiraram. Então o pássaro principiou falando numa fala mansa, muito nova, muito! Que era canto e que era cachiri com mel-de-pau,...
Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente."


Considerações gerais



"Passando abruptamente do primitivo solene, à crônica jocosa e desta ao distanciamento da paródia, Mário de Andrade jogou sabiamente com níveis de consciência e de comunicação diversos, justificando plenamente o título de rapsódia, mais do que romance que emprestou à obra.
Simbolicamente, a figura de Macuaníma, o herói sem nenhum caráter, foi trabalhada como síntese de um presumido "modo de ser brasileiro" descrito como luxurioso, ávido, preguiçoso e sonhador: caracteres que lhe atribuía um teórico do Modernismo, Paulo Prado, em Retrato do Brasil(1926). Mas o herói, em Mário, é colocado na metrópole nova e funde instinto e asfalto, primitivismo e modernismo.
Macunaíma, meio epopéia, meio novela picaresca, atuou uma idéia-força de seu autor: o emprego diferenciado da fala brasileira em nível culto; tarefa que deveria, para ele, consolidar as conquistas do Modernismo na esfera dos temas e do gosto artístico." (Alfredo Bosi)



"Publicado no mesmo ano de Retrato do Brasil, de Paulo Prado, Macunaíma semelha indicar-lhe a contraface mítica ou folclórica: a tese das duas obras é idêntica, nucleada em torno da luxúria, obsessão do brasileiro e causa de todos os seus males. Como se a rapsódia servisse de ilustração ao ensaio, as andanças macunaímicas são dum homem primitivo, adâmico, sem peias, entregue desenfreadamente aos exercícios eróticos, de onde adviriam as mazelas que sofre. Frágil ante os perigos, salva-se por via do embuste, da mentira ou do absurdo das licenças míticas, que lhe facultam atos mágicos capazes de superar as dificuldades interpostas pelos semelhantes e pela natureza." (Massaud Moisés)


"Macunaíma, considerado dentro de um tipo de realismo que lida com o maravilhoso e com o mágico, é uma narrativa linear na medida em que observamos o desenvolvimento de sua ação dramática. As peripécias do herói, vividas num tempo e num espaço mágicos, que absorvem o mito do índio e os mitos do povo como contraponto à mitologia da sociedade tecnizada e de uma cultura colonizada, revelam na construção da narrativa a consciência da exploração do maravilhoso e do mágico, que está, aliás, já na própria criação popular, fonte de Mário de Andrade, autor erudito." ( Telê Porto Ancona Lopez)

Luci Rocha



Macunaíma: um herói sem causa
Por Sarah Yakhni


1. Introdução

Esse trabalho tem como objetivo analisar o filme "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade, no sentido de perceber como o personagem / herói desenvolve a sua trajetória e quais são os possíveis significados simbólicos contidos nesse percurso e perceber como a questão do negro é colocada ao longo do filme.
O filme "Macunaíma", realizado em 1969, é baseado no livro homônimo de Mário de Andrade escrito em 1928. A recuperação de uma obra modernista no final da década de 60 traduz uma relação íntima entre os dois contextos históricos. A preocupação com o caráter nacional, com a definição do que é brasileiro, em contraposição ao produto importado, as tentativas de descolonizar a produção cultural do país, são traços marcantes do modernismo e do cinema novo.
A obra de Mário de Andrade é expressão de ampla pesquisa sobre a realidade e o folclore brasileiros. Sua estratégia básica era usar as formas populares de expressão em um nível erudito, buscando a síntese entre a arte popular e a erudita e alcançando o povo através de sua própria produção cultural.
Alcançar o grande público também era uma das preocupações do cinema novo em sua segunda fase, que começa depois de 64, quando o questionamento da forma de produção autoral e a maior abertura ao esquema industrial trazem em si a reformulação do que seriam a realidade e a verdade a serem alcançadas.Os cinematovistas percebiam que não tinham conseguido criar um diálogo com o grande público nem atingir as camadas populares.
Num plano mais geral, a década de 60 é marcada pela crescente urbanização, pelo desenvolvimento dos meios de comunicação e da propaganda. No plano cultural, o tropicalismo, inicialmente oriundo do contexto da música popular, sintetizava a tentativa de encontrar uma linguagem brasileira para expressar os problemas brasileiros.
Nesse contexto, os modernistas são revisitados. Dois anos antes da adaptação de Macunaíma para o cinema, José Celso Martinez Correia dirigiu a primeira representação da peça de Oswald de Andrade, "O Rei da Vela"(1933), dedicando-a ao cineasta Glauber Rocha depois de ter visto "Terra em transe".
Como aponta Randal Johnson ," há muitos paralelos entre o modernismo e o cinema novo. Ambos os movimentos foram reações contra o código dominante nas suas respectivas áreas de significação: o modernismo, contra o parnasianismo e sua linguagem bacharelesca, artificial e idealizante que espelhava a ideologia da estrutura de classe arcaica da sociedade brasileira; o cinema novo, contra a chanchada e os filmes sérios produzidos em São Paulo, especialmente os da Vera Cruz, os quais refletiam, ambos, uma visão colonizada, idealizada e inconsequente da realidade brasileira."(1)
Mas haviam também diferenças básicas entre os dois movimentos. Para o Cinema Novo não bastava investigar a realidade brasileira, era preciso transformá-la, enquanto que os modernistas estavam desligados dos acontecimentos políticos da época.
Para o Cinema Novo, a grande questão era atingir o público sem perder a visão crítica da realidade e a possibilidade de transformá-la. "Macunaíma" , lançado em novembro de 69, foi o primeiro filme verdadeiramente popular do cinema novo. O filme se insere dentro do contexto do tropicalismo, cujo procedimento básico, segundo Roberto Schwartz, "consiste em submeter os anacronismos à luz branca do ultramoderno, apresentando o resultado como uma alegoria do Brasil."(2)
A preocupação em representar o país, em entender a conjuntura de crise que se apresentava com o fim do sonho de uma revolução popular e os novos ventos do regime militar sob a vigência do AI-5, engendraram novas formas de linguagem e expressão. Muitos cineastas encontraram na alegoria uma forma que sintetizava a necessidade de criação pessoal diante das dificuldades de se colocar abertamente questões relevantes da realidade brasileira da época. Segundo Ismail Xavier , "as alegorias entre 1964 -1970 não se furtaram ao corpo a corpo com a conjuntura brasileira; marcaram muito bem essa passagem, talvez a mais decisiva entre nós, da promessa de felicidade à contemplação do inferno, passagem cujo teor crítico não deu ensejo à construção de uma arte harmonizadora, desenhada como antecipação daquela promessa, mas sugeriu, como ponto focal de observação, o terreno da incompletude reconhecida. Ou seja, o melhor do cinema brasileiro recusou, então, a falsa inteireza e assumiu a tarefa incômoda de internalizar a crise."(3)
O filme de Joaquim Pedro pode ser considerado como uma alegoria do Brasil moderno, um Brasil que tem que dar respostas para a crise de representação do poder, do esvaziamento dos projetos alternativos e uma nova reflexão sobre a sociedade de consumo.

2. O filme

Em sua pesquisa, Randal Johnson conclui que "o Macunaíma de Mário de Andrade é uma mistura de vários heróis encontrados nas lendas coletadas por Koch-Grünberg: Konewó, um herói astuto e corajoso; Kalawunseg, um mentiroso; e Makunaíma, herói tribal. A natureza ambivalente e contraditória de Macunaíma está contida no seu própriio nome. O nome é composto da raiz maku, que significa mau, e o sufixo -ima, que significa grande...Macunaíma, como um herói, é bom e mau, corajoso e covarde, capaz e inepto. As mesmas caaracterísticas foram mantidas por Mário de Andrade na composição de o herói sem nenhum caráter."(4)
Para a análise da caracterização do herói no filme de Joaquim Pedro, iremos buscar referência na obra de Junito Brandão sobre Mitologia Grega, quando trata do mito dos heróis.(5) Deixaremos sómente como pano de fundo as questões relativas à antropofagia, canibalismo já que essas características da obra de Joaquim Pedro foram amplamente exploradas por autores como Randal Johnson e Ismail Xavier.
Ao acompanhar o itinerário do herói, do berço ao túmulo, para caracterizá-lo enquanto tal o autor determina algumas características fundamentais com as quais tentaremos fazer um paralelo com as peculiaridades de Macunaíma e perceber,pela sua trajetória, até que ponto o nosso herói é herói.

2.1. A Infância

Segundo Junito Brandão,em primeiro lugar, via de regra, os heróis têm um nascimento complicado, como Perseu, Teseu, Héracles e muitos outros. Descendem de um Deus com um simples mortal e podem ter um nascimento irregular, como consequência de um incesto. Além de um nascimento difícil ou irregular são expostos ao mundo, por força normalmente de um oráculo, que prevê a ruína do rei, da cidade, ou por outros motivos caso o recém nascido permaneça na corte ou na pólis.
Macunaíma nasce de uma mãe velha, masculina e branca. Ele é negro e já formado, não é uma criança. Não se sabe quem é o pai e a mãe não tem nenhuma dificuldade em parir, muito pelo contrário, ela está de pé e ele cai de dentro de seu vestido.
O nascimento do nosso herói não é complicado e , até aonde sabemos, ele não é descendente de nenhum Deus. Aqui cabe uma observação sobre a sua descendência - ele parece nascido da própria terra e nesse sentido existe um caráter mágico que emoldura a sua chegada ao mundo. Essa magia tende para uma comicidade na figura de Grande Otelo fazendo o papel de um recém nascido. Em relação a presença do oráculo, a própria mãe se encarrega de profetizar sua má sina - "Macunaíma...nome que começa com Ma tem má sina".
Poderia se pensar Macunaíma como simbolo do brasileiro que nasce já sem infância , exposto ao mundo sim, como todos os heróis, mas com a questão da sobrevivência enrolada no pescoço. É filho de mãe solteira e a falta de paternidade traz uma conotação de abandono , de falta de autoridade, pois o pai, na simbologia, é a representação de toda forma de autoridade: chefe, patrão, professor e protetor. O pai representa, ainda, a fonte da instituição, é aquele que dá as leis. Nesse sentido, o herói do filme nasce como que abandonado à sua prória sorte. É um herói às avessas, sendo que na sua jornada não se configura um sentido maior, pelo menos por enquanto...
Junito Brandão coloca que, exatamente por ser um herói, a criança já vem ao mundo com duas virtudes inerentes à sua condição e natureza: a honorabilidade pessoal e a excelência, configurando a superioridade em relação aos outros mortais. Nesse ponto, o nosso herói tem prós e contras a seu favor . Por um lado, como no livro, Macunaíma passa mais de seis anos sem falar e seu divertimento maior é decepar formigas, duas características que não atestam a superioridade de ninguém. Por outro lado, Macunaíma apresenta um apetite sexual incomum para sua idade ( que se consuma quando vira príncipe) e uma esperteza inata apresentada na sequência em que, como explica o narrador : "...o bananal apodreceu e caça, ninguém pegava mais. Nem algum tatu galinha aparecia. A fome bateu no mocambo." Enquanto os irmãos tentavam pescar ele permanece na terra comendo as frutas que havia escondido.
A esperteza de Macunaíma não é explicada, não se sabe como conseguiu guardar as frutas ficando a façanha por conta de uma certa magia mesclada à outra característica do herói que é a malandragem, que, como um anjo da guarda, o ajuda a se dar bem sempre.
Essas características da personalidade de Macunaíma se não atestam sua superioridade em relação aos outros pessonagens, pelo menos, o envolve numa aura de natureza mágica e fantástica que o diferencia dos outros pesonagens, com os quais nada de mágico ou fantástico acontece.
Essa aura mágica também se manifesta em alguns episódios, ainda na sua infância, como no caso de sua transformação em príncipe quando fuma o cigarro mágico que Sofará prepara para ele. Como aponta Randal Johnson, a transformação de Macunaíma é apenas superficial. Sua roupa é feita de papel e êle logo volta a ser a criança negra que se diverte com uma chupeta e come terra.. A caracterização de Macunaíma - príncipe de Joaquim Pedro é, assim, diferente da de Mário de Andrade, onde o herói, através de seus próprios poderes de transformação, torna-se um "príncipe fogoso".
Outros acontecimentos mágicos merecem atenção. É o caso do encontro de Macunaíma com o Curupira., que além da sua conotação antropofágica, também demonstra o livre acesso de Macunaíma ao mundo mágico dos deuses, já que, nas lendas folclóricas brasileiras, o Curupira é um deus que protege as florestas. O nosso herói ainda encontra com a Cotia, que no filme é uma mulher velha, que é quem lhe mostra o caminho de volta para casa.

2.2. A Busca da maturidade

Junito Brandão segue sua análise em relação a trajetória do herói. Para ele, um dado importante para que o herói inicie seu itinerário de conquistas e vitórias, é a educação que esse recebe, o que significa que ele vai desprender-se das garras paternas e ausentar-se do lar, por um período mais ou menos longo, em busca de sua "formação iniciática". A partida, a educação e, posteriormente, o regresso representam o percurso comum da aventura mitológica do herói, sintetizada na fórmula dos ritos de iniciação: separação - iniciação - retorno.
"Separando-se dos seus e, após longos ritos iniciáticos, o herói inicia suas aventuras, a partir de proezas comuns num mundo de todos os dias, até chegar a uma região de prodígios sobrenaturais, onde se defronta com forças fabulosas e acaba por conseguir um triunfo decisivo. Ao regressar de suas misteriosas façanhas, ao completar sua aventura circular, o herói acumulou energias suficientes para ajudar e outorgar dádivas inesquecíveis a seus irmãos."(6)
No filme de Joaquim Pedro, esse esquema circular da trajetória do herói está presente. A morte da mãe, simbólicamente a provedora, a protetora, é o acontecimento que marca o final da infância e o início do itinerário do herói em busca de sua formação iniciática,que no caso é sua ida para a cidade grande, para a grande aventura.
São vários os ritos de passagem , ou iniciáticos, que Junito Brandão destaca: o corte de cabelo, a mudança de nome, o mergulho ritual no mar, a passagem pela água e pelo fogo, a penetração num labirinto, o androgenismo, o travestimento.
Em relação ao filme, a passagem pelas águas está presente duplamente. Num primeiro momento, quando Macunaíma se banha nas águas de uma fonte, que mais parece um esguicho, e se torna branco. É como branco que ele vai em busca de sua formação iniciática.
Aqui cabe refletir sobre a transformação de Macunaíma para homem branco. Em primeiro lugar, pode-se pensar essa transformação como tendo semelhança com a mudança de nome,no sentido de uma mudança de identidade e assim, teria um caráter de rito de passagem., quando os heróis recebem o seu verdadeiro e definitivo nome. Mas a transformação de Macunaíma tem um outro significado dentro do contexto histórico do filme, que é assumir o racismo como um dado da realidade brasileira. No filme, Macunaíma só se dá bem quando é branco, seja quando consegue namorar Sofará como um príncipe branco, seja quando vira branco e vai para cidade.
A passagem pelas águas como rito de iniciação, no seu sentido pleno, acontece na travessia, de Macunaíma e seus irmãos, por um grande rio, dentro de uma canoa, em direção à cidade grande. Esse fato marca a busca da aventura que representa a ruptura do passado, a infância, em relação ao futuro, a maturidade do herói.
Junito Brandão aponta para outra característica à que o herói está fundamentalmente ligado em seu percurso: a luta. O têrmo "herói", observa o autor, permaneceu nas línguas modernas sobretudo com o sentido de guerreiro, de combatente intrépido. E talvez tenha sido esse o significado mais antigo da palavra e é principalmente essa a conceituação que Homero empresta aos bravos da Guerra de Tróia.
O autor coloca a luta como o destino principal de um herói, como o sentido último de sua vida. A luta tem sempre como objetivo o bem comum, a coletividade.A caracterização de Macunaíma como herói tem aqui o seu ponto fraco, pois a luta pressupõe uma causa e é justamente o que falta à Macunaíma, a não ser quando vai em busca do Muiraquitã, quando o herói assume um objetivo definido no filme, mas mesmo assim cabe ressaltar que é uma luta que não visa o bem comum,mas apenas a posse do amuleto em benefício próprio.
No que se refere a esse ponto, pode-se dizer que o nosso herói enfrenta duas lutas distintas. A primeira é com Ci, na garagem quando ela o toma por alcagüete, ele explica que despistou os seus perseguidores e que veio ao seu encontro porque estava sentindo o seu cheiro e porque ela era muito bonita e ele "estava com uma vontade danada" dela. A luta entre eles começa quando ela bate nele depois que ele tenta abraçá-la. Jiguê aparece, com uma pedra grande nas mãos e golpeia Ci. Macunaíma, então, "brinca" com Ci que está inconsciente. Ela gosta, se apaixona e será o grande amor de Macunaíma.
Essa luta não tem um cunho de batalha heróica, é antes de mais nada um estratagema de sedução por parte de Macunaíma.
A verdadeira e única luta travada pelo nosso herói é com Venceslau Pietro Pietra, "o gigante Piaimã, comedor de gente", pela posse do amuleto muiraquitã. Pode-se considerar essa luta em três etapas. A primeira corresponde a visita que Macunaíma faz a Venceslau, travestido de mulher sedutora e atraente. O episódio trancorre num clima cômico, caricatural e absurdo, com Venceslau vestido de smoking roxo com shorts verde e ligas que seguram suas meias, tudo acompanhado por um tango argentino que dá um toque "caliente" à tentativa de sedução por parte de Macunaíma. Essa primeira tentativa de conseguir o amuleto acaba com Venceslau correndo atrás do nosso herói nú, desmascarado, aos berros: "Eu não tenho preconceito! Vem cá filho!"
A segunda etapa da luta contra o gigante Piaimã se dá com a ajuda da macumba. Através de Exu, que encarna o espírito do gigante, Macunaíma dá uma surra em Venceslau, mas não consegue ainda o amuleto.
Na terceira e última etapa, finalmente Macunaíma consegue o amuleto. Ele é convidado para uma feijoada em comemoração ao casamento da filha de Venceslau. A feijoada é servida dentro de uma grande piscina, onde carne humana dos próprios convidados substitui as carnes típicas. É num balanço, ao lado da piscina que se dá o duelo final. Venceslau convence Macunaíma a se balançar sobre a piscina, mas esse consegue sair do balanço, arrancar o amuleto e fazer Venceslau subir no balanço.Apanha um arco e flecha e atira no traseiro do gigante.
Junito Brandão observa que, no mito do herói, a vitória do herói e sua volta à vida é sempre medida pelos benefícios que estas trazem para toda a coletividade. "Ao regressar de suas misteriosas façanhas, ao completar a sua aventura circular, o herói acumulou energias suficientes para ajudar e outorgar dádivas inesquecíveis a seus irmãos."(7)
O amuleto, simboliza uma força mágica, que traz uma relação muito especial entre aquele que o possui e as forças que representam. Nesse sentido, a vitória de Macunaíma é individual, não tem uma dimensão social , não se consuma dentro dos padrões da trajetória dos heróis.

2.3. O Retorno

Macunaíma e seus irmãos retornam ao lugar de origem, a casa materna, cumprindo a circularidade do itinerário do herói. Atravessam as grandes águas novamente só que, agora, levam com eles uma infinidade de eletrodomésticos. Esses, representam a sua transformação na jornada, traduzida pela assimilação dos valores da sociedade capitalista da grande cidade. O nosso herói, transformado, toca guitarra sentado na canoa, gesto que sintetiza um sincretismo de valores do mundo rural e urbano.
Esse retorno também não representa um valor coletivo, ao contrário, é solitário e melancólico - a maloca está caindo e o jardim está abandonado e coberto de mato. Os irmãos saem para procurar comida e quando voltam encontram Macunaíma dormindo. Furiosos, os irmãos percebem que ele está mentindo quando diz que foi à caça. Como Macunaíma se recusa à cooperar com o coletivo acaba sendo totalmente abandonado e fica à deriva durante algum tempo. Um dia acorda "com um novo desejo em seus músculos, se lembrou que fazia certo tempo não brincava..." Ele se dirige para o rio e vê uma moça bonita, enquanto a narração nos informa que é Uiara, comedora de gente...Macunaíma entra dentro d'água para seguir a moça e, no último plano, aparece apenas sua jaqueta verde flutuando com sangue borbulhando debaixo dela.
Para Junito Brandão, se o herói tem um nascimento difícil e complicado; se toda a sua existência terrena é um desfile de viagens, de lutas, de sofrimentos, de desajustes, de incontinência e de descomedimentos, o último ato de seu drama, a morte, se constitui no ápice de sua prova final: a morte do herói ou é traumática e violenta ou o surpreende em absoluta solidão.
Ainda segundo o autor, a morte do herói se constitui no climax de sua trajetória pois lhe confere a condição sobre-humana. Através de seus despojos, que são carregados de poderes mágicos-religiosos, continua atuando sobre os vivos durante longos séculos. Nesse sentido, poderia-se dizer que os heróis se aproximam da condição divina graças à sua morte.
A morte de Macunaíma é voraz, não deixa restos mortais, nada sobra,ele é totalmente devorado e com isso, a sua existência desaparece por completo. A sua morte não é apenas solitária, ele foi abandonado e esquecido por todos. Assim, a morte de Macunaíma é uma morte decadente, que não deixa rastros para a humanidade.
3. Conclusão
Apesar da trajetória de Macunaíma obedecer a algumas características do destino de um herói na mitologia grega como a trajetória circular, o contato mágico com os deuses, os ritos de passagem pela água, a luta com Venceslau como ponto alto da narrativa e uma morte solitária, a sua trajetória como herói falha justamente num ponto muito importante. Segundo Junito Brandão a vida do herói é pautada pelo bem comum,todos os seus passos reverterão em benefício do coletivo , alcançando finalmente, o posto e as honras a que tem direito. O fio condutor de sua vida é uma causa pela qual ele luta. Para o nosso herói o que falta é justamente uma causa maior, ligada ao bem comum, ele não está à serviço da comunidade.
Herói de consciência individual, egoísta e encimesmado, ele não tem lastro para cumprir o papel de herói, é um anti - herói. Um herói sem causa, morre em vão.
Símbolo de um Brasil sem projeto, em crise com a sua identidade. Um país sem uma noção forte de coletivo é um país que tende para a autodestruição, um país que devora a si mesmo.

*Sarah Yakhni é formada pela Faculdade de Ciências Sociais da USP. É montadora, diretora de cinema, diretora de televisão e roteirista. 






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