Blog dedicado a cinema, literatura e política

terça-feira, 16 de abril de 2019

DICAS DE ROTEIRO EM PÍLULAS (4)


As metáforas e contos são ferramentas importantes na educação. A humanidade, em sua fase oral, utilizava os contos, os adágios, as parábolas, as metáforas, para ensinar às gerações mais jovens, a história e estórias de sua própria gente, dos antepassados míticos e heroicos. Os modernos conceitos de metáfora, baseado na obra de Milton Erickson, adotados pela PNL, incluem símiles, parábolas, alegorias ou figuras de linguagem que impliquem uma comparação. Mas as histórias, fábulas e parábolas constituem suas formas mais evoluídas.

As metáforas comunicam indiretamente. E é um processo de linguagem que consiste em fazer uma substituição analógica. Metáforas simples fazem simples comparações: "meter a mão em cumbuca, feio como o diabo, fazer das tripas coração". Metáforas complexas são histórias com diversos níveis de significado. "Uma metáfora contada de maneira clara e simples distrai a mente consciente e ativa a procura inconsciente de significados e recursos" (O'CONNOR, Joseph e SEYMOUR, John. Introdução à programação neurolinguística. São Paulo: Summus, 1995). Quer dizer, revelam elementos ocultos que apenas o inconsciente pode perceber e utilizar.

As metáforas podem adotar várias formas, dependendo do efeito que se deseja, do conteúdo que se quer veicular, do tempo disponível, do interlocutor ou de grupo de ouvintes. Alguns tipos de metáforas que interessam à educação:

As imagens. São rápidas e simples. Ilustram bem o oral e o escrito. No fundo é uma palavra ou frase que muda de sentido: pegar o touro a unha; ficar de nariz torcido; tapar o sol com a peneira.

As comparações. Também são imagens. Contêm, no entanto, um elemento comparativo: fumar como uma chaminé, beber como um gambá.

Os provérbios. São máximas ou sentenças de caráter prático e popular, comum a todo um grupo social, expressa em forma sucinta e geralmente rica em imagens: quanto maior a nau, maior a tormenta; gato escaldado tem medo de água fria.

As anedotas e as citações. São relatos sucintos de fatos jocosos ou curiosos vividos por outros e citados entre aspas, pelo autor do discurso ou do texto: "Isto me faz pensar na pergunta que fulano fez durante…"; "Como teria dito o professor de português…".

Os mitos e os contos. Histórias imaginárias, geralmente de origem popular, que colocam em cena heróis que encarnam forças da natureza ou aspectos da condição humana durante incidentes que não teriam acontecido, mas que fazem parte do inconsciente coletivo: o mito do paraíso perdido, as mitologias greco-romanas, os contos de fada.

Narrações, parábolas, histórias. São formas metafóricas mais completas e complexas. Para gerar mudanças no interlocutor a história há que possuir formas semelhantes à realidade vivida por ele.
Como funcionam as metáforas
Uma metáfora apresenta "um equilíbrio sutil entre, por um lado, a especificidade dos elementos nela incluídos, a fim de persuadir o interlocutor ou leitor da semelhança entre a história e a sua própria situação e, por outro lado, uma certa imprecisão, lacunas no conteúdo, "jogo" (no sentido mecânico da palavra), para que ele aceite a metáfora e receba dentro do seu próprio modelo de mundo. (LONGIN, Pierre. Aprenda a liderar com a programação neurolinguística, Rio de Janeiro: Qualitymark, 1996.)

O professor deve deixar lacunas no índice referencial: "Em um país longínquo…", "Era uma vez um velho rei…". Trabalhar com verbos inespecíficos: chegar, dizer, fazer, discutir, etc. e com nominalizações: espírito, sabedoria, esperança, santidade, amor, verdade, etc. Disfarçar as determinações ou sugestões, colocando-as a boca de personagem: "Eu não sabia, mas o cordeiro sabia!".
Como se cria uma metáfora para mudança pessoal
José Carlos Mazilli in "Manual de Programação Neurolinguística", (São Paulo: Edição do Autor, 1996) descreve da seguinte maneira a criação de uma metáfora:

1.  O primeiro passo para se criar uma metáfora é saber o estado atual e o estado desejado do ouvinte. A metáfora será a história ou a jornada de um ponto para o outro.
2.  Decodifique os elementos de ambos os estados: pessoas, lugares, objetos, atividades, tempo, sem perder de vista os sistemas representacionais e submodalidades de cada um desses elementos.
3.  Escolha um contexto adequado para a história. De preferência um que seja interessante, e substitua os elementos do problema por outros elementos, porém mantendo a relação entre eles.
4.  Crie a trama da história de maneira que ela tenha a mesma forma do estado atual e conduza-a, através da estratégia de ligação, até a solução do problema (o estado desejado) sem passar pelo hemisfério esquerdo, indo direto ao inconsciente.

João Nicolau Carvalho professor universitário, Trainer em PNL, Coach certificado

Mais textos sobre metáforas na internet:

Metáforas

Você também pode gostar de Ler:

As Fábulas de Esopo - Prefácio, introdução e notas de Manuel Aveleza de Sousa - Editora Thex


segunda-feira, 8 de abril de 2019

COMUNICADO

Este blog pretende ser uma central de textos interessantes, e não apenas um espaço para meus próprios. Desde que seja dado o crédito, e é o que acontece, acho mais do que válido existirem atalhos voltados para a área de cinema e literatura. Com relação a spoilers, acho mais do que oportuno eu colocá-los, quem quiser apreciar melhor minhas críticas ou coletânea de textos de outros, deve assistir primeiro aos filmes ou ler os livros, pois eu contando o que acontece no filme ou livro sem preocupações como não revelar o final ou ações cardeais, a crítica se torna mais completa. Tomo o cuidado, porém, de avisar quando existem spoilers para não pegar o leitor desavisado.

BELO POEMA






Vai, Carlos, ser  Marighella na vida

 José Carlos Capinan

Ai Brasil, 
Quem escapa do desamor em tuas noites ferozes
 Quem se salva da ciência dos teus doutos sábios doutores 
Quem foge de teus senhores algozes
 Nasce com alguma forma de homem

E se não morre dos sete dias
Nem do angu de farinha
 Vai um dia pro batismo
 Recebe por sorte um nome

Vai ser João ou Maria
 Vai ser José ou das Dores
 Vai ser de Deus Jesus ou dos Santos
 Ou serão Carlos que nunca foram 
E serão assim brasileiros como tantos

E serão sempre brasileiros
 Que serão de algum terreiro
 Bloco sujo carnavalesco
 Lesco-lesco café ralo com torresmo
 Ou de nada nada mesmo
 Como nós assim a esmo

E quem capitão de areia num livro de Jorge Amado
 Aprende lição das coisas
 E quem insone nas madrugadas é mulher de lobisomem
 Ou aprende nas ciladas que o pior lobo dos homens
 Talvez seja o próprio homem
 Quem retirante escapa num quadro de Portinari
 Quem poeta quer ter frátria de Veloso ou de Vinícius pátria amada
 Quem gracilianamente deságua desta vida seca agrária
 Ou na solidão urbana sonha a vida humana solidária
 Quem na cartilha suburbana soletra o nome fulô
 Quem nasce de negra índia ou branco
 E sobe ligeiro ou manco as ladeiras do Pelô
 Quem descasca uma banana
 E se consome no sonho da grande mesa comum
 Para a imensa toda fome
 Quem assim vive não morre
 Vai virando jacarandá ou poesia pau-brasil
 Virando samba e cachaça
 Se torna gol de Garrincha se torna mel de cabaça
 Se torna ponta de lança do esporte clube da raça
 Se torna gente embora gente nem nascida
 Mas (quem sabe?) pode ser

Um dia gauche na vida
Se torna nossa aquarela
Torna-se Carlos Marighella
Um anjo doce na morte
Que os homens tortos quiseram
 Sem que te matassem ainda

DICAS DE ROTEIRO EM PÍLULAS (3)




A extensão exterior do espaço interior, ou transferência de significado, ocorre quando uma(s) personagem(ns) plana(s) ou, mesmo que seja redonda (sinônimo de complexa), faz uma ação que se refere a um significado pertencente a uma complexa. É o que acontece no filme UMA LIÇÃO DE TANGO, sobre o qual fiz um texto no meu blog anterior(12ª aula) – leiam o texto:


É o que acontece também em 2 das cenas do roteiro que estou fazendo, já registradas na FBN, diga-se de passagem:


O TEMPO SAGRADO – CLANDESTINO

2 – INTERIOR - DIA

Num boteco pé-sujo JONAS está terminando de beber, em pé, um COPO com cerveja, várias GARRAFAS DE CERVEJA estão do lado do copo. Um CLIENTE ENTRA e dá uma nota de dinheiro pro GARÇOM.

CLIENTE

Vê um cigarro à varejo!

O garçom dá um cigarro para um cliente.

GARÇOM

Quer café?

O cliente faz que não com a cabeça.

GARÇOM

Quer troco?

O cliente faz que não com a cabeça.


Quer boceta?

CLIENTE

Não, nem isso eu quero...

Um velho no bar dá uma gargalhada.



Jonas coloca o copo na boca e termina de beber, enquanto diz ao mesmo tempo:

JONAS
 (VOICE OFF)

Eu ando assim também, nem isso me anima mais.

A gargalhada continua em OVER.


Jonas deixa o copo com um pouco de líquido no balcão e SAI. O copo cai de lado e VEMOS o conteúdo lentamente escorrer pelo balcão.


3 – EXTERIOR - DIA

A gargalhada continua em over e vai sumindo aos poucos, JONAS, que estava andando, pára, puxa um cigarro do bolso, acende o cigarro e pára de andar na rua olhando pro horizonte. UM HOMEM NEGRO de ÓCULOS ESCUROS, sentado na rua num batente de loja fechada, começa a tocar violão e cantar a música “José?”, poema de Carlos Drummond de Andrade musicado por Paulo Diniz . Jonas se vira, olha pra ele por um instante e volta a andar rapidamente atirando o cigarro que estava fumando no chão.


Pra que fazer isso?MOSTRAR EM VEZ DE CONTAR É MELHOR na maioria das vezes, é mais cinematográfico. A VOZ OFF é um recurso útil pra demonstrar o que a personagem está sentindo, mas às vezes pode cansar se for usada de forma excessiva ou em momentos errados. A transferência de significado, ou extensão exterior do espaço interior, é uma boa opção, até para variar - A busca de soluções menos óbvias e de maior concisão, quer dizer, em muitos casos MENOS É MAIS. O diálogo até pode ser mais um elemento pra conflitar e/ ou harmonizar com outros elementos como as cores, a imagem como objetivos da cena e do filme em geral, o ritmo e os elementos de retórica – estes, podem ou não sair da boca das personagens,  pode ser um recurso imagético também, isso depende - mas virar teatro filmado é horrível, deixa de ser cinema, é a minha opinião.

Você também pode gostar de ler:

Textos na Internet sobre o pensamento lateral:  O Pensamento Lateral texto 1
                                                                                 O Pensamento lateral Texto 2

Livro:


O Pensamento Lateral - Edward de Bono - Editora Record