EXEMPLOS DA UTILIZAÇÃO DO DICIONÁRIO DE SÍMBOLOS, DA MINHA PRÓPRIA NOÇÃO DE SIMBOLISMO E RETÓRICA E DA TÉCNICA DA FERMATA
Uma vez, numa aula, uma pessoa que eu respeito muito, um professor, que até já não está mais entre nós, disse aos alunos, e eu estava entre eles, que não existia dicionário de símbolos. Apesar desse meu respeito, sou obrigado a discordar. Vejamos duas cenas em que utilizei o dicionário de símbolos, da minha própria noção de símbolos e também, numa delas, o uso da antítese imagética e a técnica da fermata, preconizada por Michel Chion, compondo em todos esses elementos a minha noção de retórica, lembrando que essas cenas já foram registradas na Fundação Biblioteca Nacional:
28 - INTERIOR – NOITE
FADE IN:
OUVIMOS o som de um TROVÃO ainda com a imagem escurecida-0, enquanto MAYA está deitada, sozinha, numa CAMA DE CASAL-1, num
quarto, com uma fraca LÂMPADA acesa, fumando um CIGARRO, com o CINZEIRO na
cama, cinzeiro que está cheio de GUIMBAS apagadas-2. A mulher, com um cigarro
na mão, dá um longo suspiro, depois dá uma tragada no cigarro e solta a fumaça
pelo nariz. Ouvimos a respiração e o som das tragadas e baforadas ao MESMO TEMPO em que VEMOS a fumaça, num PLANO EM MOVIMENTO, se dirigir até uma sala em
que há uma MESA com outro cinzeiro cheio de guimbas-2. VEMOS a luz do quarto
atrás se apagar. A sala está cheia de BOLSAS DE PAPELÃO, BOLSAS DE PLÁSTICO, GARRAFAS DE VINHO, ROUPAS, SAPATOS, JORNAIS e PAPÉIS espalhados pelo chão. Continuamos em PLANO EM MOVIMENTO acompanhando a fumaça do cigarro até uma
JANELA COM GRADES DE FERRO Até que a fumaça sai pela janela - FIM DO ÁUDIO DAS TRAGADAS. A lâmpada da sala
também se apaga e VEMOS a paisagem lá fora: ÁRVORES SEM FOLHAS. Apenas GALHOS
numa noite pouco iluminada. OUVIMOS o som de um TROVÃO, um RELÂMPAGO ilumina a paisagem e começa a chover.-3
FADE OUT
NOTAS:
1-SOLIDÃO.
2-DESREGRAMENTO.
0 e 3-FERMATA: “A fermata é uma maneira de demorar-se
num detalhe, numa piada, numa pontuação, numa idéia, numa réplica “prenhe de
sentido” (por exemplo, de ameaça) para terminar e fechar uma cena importante
permitindo que ela faça ressoar uma nota particular (de emoção, de angústia, de
perplexidade, de expectativa, etc.), ou então anuncie algo que vai acontecer. –
Michel Chion, “O Roteiro de Cinema”.
29 - EXTERIOR - LUZ AZULADA ESCURA QUANDO O CÉU APARECE -4–
DEMAIS ELEMENTOS DA CENA APARECEM COM A LEVE ILUMINAÇÃO PRÓPRIA DA NOITE -
ÁUDIO: SOM DE CIGARRAS - 5
Um HOMEM DE 50 ANOS, de CHAPÉU PRETO-6, está correndo com um
REVÓLVER na mão numa MATA. Ele pára, faz mira, OUVIMOS o som do disparo. Ele
acerta outro HOMEM, que também está de chapéu, mas de uma cor BRANCA-6. Este
tomba e dá um GRITO. O primeiro homem dá um sorriso de satisfação e vai olhar o
homem caído. Ele o vira de frente e faz uma cara de espanto, pois vê que o rosto do homem é igual ao seu.
4-COR DO IRREAL, DO FANTÁSTICO.
5-SÍMBOLO DA MORTE, RESSURRREIÇÃO
OU PROMESSA DE FELICIDADE
6-A COR DIFERENTE DOS CHAPÉUS É IMPORTANTE, POIS MOSTRA, POR ANTÍTESE, QUE O LADO SOMBRIO DA PERSONALIDADE DO HOMEM VENCEU A DISPUTA.
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