BIZOOOOOOOOOOOSSS!!!
I. AS LIMITAÇÕES COMO FERRAMENTAS CRIATIVAS
É coisa comum entre os poetas
dizer que a brevidade, a rima, a quantidade
limitada dos versos e/ou estrofes funcionam como limitações que, em vez de
prejudicar, incentivam a criatividade. O mesmo acontece com o conto e com os
filmes. Nadia Batella Gotlib em “Teoria do Conto” fala da força concentrada do
conto. Carlos Reichenbach falava da falta de condições como instrumento de
criação, se referindo à direção e também ao roteiro, pois,
mesmo quando o diretor mexe no roteiro feito pelo roteirista, ele está fazendo...
ROTEIRO. Charles Bukowski usava os capítulos curtos para dar mais ritmo aos
seus romances, o mesmo fazia John Fante. O objetivo da cena também pode
servir como limitação ajudando a criatividade, na medida em que o roteirista se
foca no objetivo e preenche as lacunas na busca do seu objetivo naquela
determinada cena. Os roteiristas podem usar, também, por exemplo, a trajetória
circular numa só cena e não apenas no começo e no final do roteiro, pra
refletir melhor o que mudou, ou, pelo contrário, afirmar que nada mudou, existem
as 2 teorias. Eu, particularmente, fico com as 2, entendendo que é possível
acontecer essas 2 mensagens. Como exemplo de que nada mudou existe o ótimo
filme de Luis Buñuel – O FANTASMA DA LIBERDADE – enquanto exemplos de que as
coisas mudaram pode ser visto na mitologia grega e em diversos filmes
estadunidenses.
II. A inversão da ordem dos diálogos ou de frases:
1)Não preciso dizer mais nada!
Vocês vão ter que me engolir!
2)Vocês vão ter que me engolir!
Não preciso dizer mais nada!
Usei isso várias vezes, a 1ª foi em
BLASFÊMIA – UMA INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DO BRASIL – 500 ANOS, em que as palavras do técnico de futebol Zagallo quando estava desabafando contra os críticos
virou, invertendo-se a ordem do que ele disse, voz de pipoca falante, a exemplo das fábulas, em que coisas inanimadas dizem coisas e acabou caindo como uma luva, isto é, houve, com sucesso, uma ressignificação. Outra coisa que pode ser feita é inverter a ordem das cenas, é
uma coisa que às vezes dá resultado.
III.
O truque clássico dos filmes de ação como O JUSTICEIRO, de Jonathan
Heinsley, RISCO TOTAL de Renny Harlin, DARKMAN – VINGANÇA SEM ROSTO, de Sam
Raimi, e muitos outros, é fazer o protagonista ser atingido por alguma grande
tragédia para angariar a simpatia do público desde o começo. O procedimento, no
entanto, pode ser usado em outros gêneros, como o drama.
IV.
O acaso a favor do protagonista não é aceito pelos roteiristas sérios,
sérios no sentido de competentes e honestos e não de sisudez, diga-se. Mesmo
antes de estudar roteiro eu não suportava esse chamado DEUS EX MACHINA, em que,
por exemplo, um protagonista é ajudado por um engasgar da arma do vilão na hora
H – veja A TEORIA DA CONSPIRAÇÃO, de Richard Donner, com Mel Gibson e Julia
Roberts, por exemplo - embora eu não chamasse esse procedimento por esse nome
ainda. Em DUBLÊ DE CORPO, de Brian De Palma, já no final do longa, um cachorro aparece
de repente e salva o protagonista interpretado por Craig Wasson, estragando o
filme e a ótima direção de De Palma. Coisa semelhante ocorre em FEMME FATALE,
também com direção de de Palma, em que somos obrigados a acompanhar toda a
trajetória de uma personagem, e o filme ia muito bem até aí, para descobrir que
ela estava apenas sonhando. Já o acaso contra o protagonista é muito bem visto,
aceito e utilizado pelos bons roteiristas e escritores, vide os quadrinhos e os
filmes do HOMEM-ARANHA em que o protagonista, Peter Parker, aprende que com o
poder vem a responsabilidade, graças a uma coincidência: o ladrão que ele deixa
escapar, por ter sido maltratado por um empregador, é o mesmo que mata seu tio Ben
Parker. Já em O GRANDE GOLPE, de Stanley Kubrick, ótimo filme aliás, o acaso
arrasa os planos de uma personagem produzindo um final impactante. Às vezes o
roteirista brinca com esse DEUS EX MACHINA e a arma dos 2 oponentes principais
engasga na hora H.
V.
Estou levantando uma bandeira:
sou a favor de que a autoria do filme seja dada ao diretor(es) e ao(s) roteirista(s).
Alguns roteiristas americanos levantaram essa bandeira e durante um curto período
de tempo alguns filmes vieram assinados pelo diretor(es) e pelo(s) roteirista(s),
embora lá nos EUA, as coisas sejam diferentes até certo ponto, pois lá quem
ganha o Oscar de melhor filme, por exemplo, é o produtor e não o diretor.
VI.
O Motivo do Duplo é Muito Antigo
Borges escreveu “O Outro”, presente
em seu livro “O Livro de Areia”
“(...) motivou tantas vezes a pena
de Stevenson. Na Inglaterra, seu nome é fetch ou, de maneira mais livresca, wraith
of the living, na Alemanha, doppelganger. Suspeito que um dos seus primeiros
apelidos foi o de alter ego. Esta aparição espectral terá procedido dos espelhos
do metal ou da água, ou simplesmente da memória, que faz de cada um um espectador
e um ator. Meu dever era conseguir que os interlocutores fossem bastante diferentes
para serem dois e bastante parecidos para serem um. Valerá a pena declarar que
concebi a história às margens do rio Charles, na Nova Inglaterra, cujo curso frio
me lembrou o distante curso do Ródano?”
Jorge Luis Borges
Buenos Aires, 3 de fevereiro de
1975
ALGUNS
EXEMPLOS DO MOTIVO DO DUPLO NA LITERATURA, NO CINEMA, NOS QUADRINHOS E NA TELEVISÃO:
William Wilson – Edgar Allan Poe – Conto; O Outro –
Jorge Luis Borges - Conto; O Homem que Não Era – Direção de Basil Dearden, filme
com Roger Moore, ex-007; O Médico e o Monstro – Robert Louis Stevenson, Romance; O Médico e o Monstro (Dr.
Jekyll and Mr. Hyde), filme de 1941, do gênero drama de horror, dirigido por
Victor Fleming e um remake do
filme Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Rouben Mamoulian (1931); O Incrível Hulk – Quadrinhos e cinema;
O Homem Duplicado, filme de Dennis Villeneuve; Clube da Luta – Filme de David Fincher
com Edward Norton e Brad Pitt; O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde – Livro e
Filmes; O Vingador do Futuro, filme de Paul Verhoeven, com Arnold schwarzenegger;
Coração Satânico, filme de Alan Parker, com Mickey Rourke e Robert de Niro; Na telenovela brasileira, temos o
exemplo de O Outro, de 1987, com
Francisco Cuoco encarnando duas personagens.
Destaques:
2)O HOMEM QUE NÃO
ERA(“THE MAN WHO HAUNTED HIMSELF”) – filme de 1970
Ao voltar para casa,
o executivo Harold Pelham (Roger Moore) sofre um terrível acidente de carro.
Levado às pressas ao hospital, ele fica clinicamente morto por alguns minutos,
mas logo retorna à vida. Após ser liberado, ele percebe que alguém está usando
seu nome e que esse estranho compartilha sua casa, toma decisões nos seus negócios
e infiltra-se em sua família. Apesar de todos os esforços para descobrir a identidade
do intruso, Harold fracassa: o impostor possui uma personalidade volátil, agressiva
e não perde tempo em deixar claro que planeja se livrar dele e assumir para sempre
o seu lugar. Foi baseado no romance The Strange Case of Mr Pelham,
de Anthony Armstrong, que foi originalmente publicado em 1957.
3)Coração Satânico(“Angel
Heart”) - 1987
Em 1955, em Nova York, o detetive
particular Harry Angel é contratado para encontrar um cantor desaparecido no
final da Segunda Guerra Mundial. Sua investigação o leva a Nova Orleans, onde
feitiçaria e assassinato seguem seus passos. Ótimo roteiro e direção. Baseado no livro homônimo de
William Hjortsberg.
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Teoria do Conto – Nadia Battela Gotlib – Editora
Ática
Os
100 Melhores Contos de Crime e Mistério da Literatura Universal – Vários Autores
– Flávio Moreira da Costa – Organizador - Editora Ediouro
Antologia da Literatura Fantástica –
Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo – Organizadores - Editora Companhia das Letras
O Herói de Mil Faces – Joseph Campbell –
Editora Cultrix/ Pensamento