Quem dá pérolas aos porcos só recebe ingratidão ou coisas parecidas?Tom Jobim dizia que fazer sucesso no Brasil é ofensa pessoal. É verdade, ainda que esse sucesso, no meu caso, não se dê nos moldes que normalmente se fazem presentes. Além do mais, que sucesso é esse em que as produtoras estão todas fechadas para o meu trabalho?Querendo ou não, isso tira um pouco do ânimo pra gente escrever... Cá pra mim eu tenho que 70% dos que lêem este blog só têm ingratidão pra me oferecer mesmo, mas, se, de pelo menos 30% eu receber coisas positivas, ou se eu conseguir ajudar alguém que tenha um caráter mais idealista já está bom... vamos então a mais uma dica:
Gênesis Cap. 1 V. 32 –
PARTE 1 - ATENÇÃO: SPOILERS
“Na cidade só chovia
Noite imensa, só havia
Luminosos, agonia
E a vida escorria pela escuridão
Nossas ruas eram frias
Como os homens desses dias
Engrenagens tão sombrias
Esquecidas pelos deuses
A pulsar em vão
Misteriosamente uma andróide
Gritou docemente
Me mostrou
a vida
Me encheu de
cores
Desenhando
um holograma em meu coração
Com seus olhos
foi pintando um dia
Reinventando
a alegria, brancas nuvens de verão
E a poesia
de repente volta a ter razão.”
Cidade Oculta, música de autoria de Eduardo Gudin / Arrigo Barnabé
/ Roberto Riberti. Faz parte da trilha musical do filme homônimo dirigido por Chico Botelho.
A
essência do cinema é aforismática, isto é, você deve dizer muito com pouco. Só
mestres do roteiro como Ingmar Bergman conseguem sustentar um filme de 2 horas
e 35 minutos com muitos diálogos como INFIEL - Trolösa (2000), dirigido
por Liv Ullmann e outros dirigidos por ele mesmo, gerando a catarse, mas mesmo
assim, ele consegue isso nesse filme porque existe ritmo e mudanças de cenário em
várias cenas. Ainda assim, mesmo um mestre como ele derrapa, isto é, acontece de
ele realizar filmes repletos de diálogos e soar chato, como ele demonstrou em GRITOS
E SUSSURROS - Viskningar och rop (1972) em que praticamente não existem mudanças de
cenário e o filme é muito lento. Quando
ele equilibra imagens e diálogos e segue a regra aforismática consegue fazer um
filmaço como MORANGOS SILVESTRES – Smultronstället (1957), isso porque ele usa, ele trabalha, sabe trabalhar
muito com os símbolos também*. Quando outros diretores levam ainda mais longe
a utilização de imagens em relação aos diálogos, como fez Mario Peixoto em LIMITE
(1931), líder das 2 principais enquetes feitas sobre os melhores filmes brasileiros
realizados até hoje, a da CINEMATECA BRASILEIRA e a da ABRACCINE, esse ótimo resultado,
e eu me incluo entre as pessoas que acham LIMITE um ótimo filme, não sei se o melhor
filme brasileiro, mas entre os melhores, é fruto disso.
Pra sair um pouco da esfera
dos cineastas mais simbólicos devemos ressaltar todo o dinamismo de DEPOIS DE
HORAS – After Hours (1985), de Martin Scorsese e de SABOTADOR – Saboteur (1942), um dos melhores e menos conhecidos filmes de Alfred
Hitchcock, dois filmes que sabem trabalhar muito bem o equilíbrio entre diálogo
e imagem. Muita gente vai assistir a filmes por causa do diretor, mas isso é
errado: a montagem e, principalmente o ROTEIRO é que fazem um filme ser
bom ou não. Vejamos um ótimo diretor e alguns de seus filmes, por exemplo: começando
por DUBLÊ DE CORPO – Body Double (1984) , de Brian De Palma. O
roteiro vai muito bem até que, no final, acontece um deus ex machina em
que um cachorro salva a personagem protagonista, estragando o filme e a
bela direção de De Palma. Fez, depois um outro filme chamado OS INTOCÁVEIS – The
Untouchables (1987) , este sim, muito bom e com um roteiro sem furos
de autoria de David Mamet. Tinha feito, um ano antes, um filme com roteiro ruim
chamado QUEM TUDO QUER, TUDO PERDE – Wise Guys (1986), e naufragado. Em 1981, fez, aquele que
eu considero seu melhor filme, UM TIRO NA NOITE – Blow Out (1981), com roteiro e direção muito bons e que não se
prende à obrigação de ter final feliz, pelo contrário, o final é trágico e no epílogo choramos junto com a personagem interpretada
por John Travolta. Peguemos agora um filme como SUPEROUTRO (1989), de Edgard
Navarro. Nada daquela coisa sonolenta preconizada por Syd Field e Christopher
Vogler de ter que mostrar o mundo comum da personagem durante um tempo que parece
interminável (embora existam roteiristas que conseguem fazer esse panorama do mundo
comum sem ser chato), o filme já começa a mil e segue assim durante quase todo
o tempo gerando um filme muito bom, sem dúvida, feito com pouco dinheiro mas muita
criatividade, assim como o é ILHA DAS FLORES (1989), de Jorge Furtado, que já
tinha feito outros ótimo curtas: BARBOSA (1988), com co-direção de Ana Luiza
Azevedo, O DIA EM QUE DORIVAL ENCAROU A GUARDA (1986), ao lado de José Pedro Goulart (1986) e repetiu,
depois de ILHA DAS FLORES o sucesso com ESTA NÃO É A SUA VIDA, (1991), entre outros, se
perdendo, porém, quando começou a fazer longas.
*aliás, quem é que começou a usar e falar em dicionário
de símbolos no cinema nacional? Eu. Aliás, ainda, como trabalho os meus roteiros?
Usando drama, mitologia, realismo mágico, humor, sátira, simbolismo, como eu já
frisei, estilo aforismático e intuição... quem sabe dizer o que mais eu uso? A linguagem
das fábulas ou apólogos estilo Esopo? Sim. O que mais?Os elementos de retórica stricto sensu e lato sensu, como escrever histórias que não sejam nem abaixo da
crítica, nem acima do gosto popular? Sim. O que mais?Quais os autores que me influenciaram?Eu
não tento imitar ninguém. Eu uso coisas que aparecem nos sonhos que eu tenho?
Sim. Eu uso experiências pessoais como conversas minhas ou dos outros que eu acabo
ouvindo? Sim. Eu uso a inversão da ordem das falas ou dos diálogos? Sim. Eu uso
história(s) secreta(s)? Sim. Eu faço transcriações de poemas, textos dissertativos,
ou diálogos de outros filmes, isto é, eu distorço os diálogos ao meu bel-prazer?Sim.
Eu boto falas nas bocas das personagens fiéis a textos de ficção ou não-ficção?Pouco,
mas sim, prefiro distorcer. Eu uso a música como inspiração? Uso. Eu uso epifanias?
Sim. Eu uso inversão lógica? Sim. Eu uso falsos finais e finais ocultos? Sim. Eu
aproveito coisas que eu leio no jornal? Sim. Eu trabalho a mensagem nos meus roteiros?
Sim, Leiam o DICAS DE ROTEIRO EM PÍLULAS nº 8 e 9 deste Blog para entender. Eu falo
de coisas complexas de forma simples? Sim. Eu uso trajetória circular? Sim, mas
lembrem-se: isso não foi inventado pelos manuais de roteiro, já existia em
histórias da mitologia. O que mais eu faço? Chuta aí!
P.S.: é importante, muito importante ter visão crítica.