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sábado, 19 de dezembro de 2015

EU, TU, ELES, de Andrucha Waddington







EU, TU, ELES, de Andrucha Waddington (2000)

por Jorge Lobo - texto escrito em 2000

O filme EU, TU, ELES, dirigido por Andrucha Waddington, se propõe, como o próprio diretor salientou*, a contar uma história sem elucubrações. Bem fotografado e produzido - como o eram os filmes anteriores realizados pela CONSPIRAÇÃO FILMES (GÊMEAS (1999), TRAIÇÃO (1998)) - o filme segue a mesma trilha "popular" de DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (1976), isto é, a representação das classes populares, não possuindo, porém, a empatia do filme de 1976. Ao contrário do que fez Bruno Barreto no entanto, ele (Andrucha) se baseou numa história real (DONA FLOR...baseou-se no livro homônimo de Jorge Amado). Apesar disso, podemos notar semelhanças claras: o flagrante do popular e a maneira como se dá esse flagrante.O flagrante dos hábitos populares (presente em sua maneira de falar, de se vestir, no jeito de ser, na arquitetura) e a forma "agradável" de fazer esse flagrante realmente cativam grande parte das pessoas que assistem ao filme, fato comprovado pelo sucesso de bilheteria do filme no Brasil (o fato de o filme se basear numa história real não retira o aspecto "agradável", pois a visão do diretor, principalmente, é que faz um filme e no caso Andrucha preferiu minimizar a parte desagradável da realidade), assim como pela boa acolhida que o filme teve no Festival de Cinema de Cannes. Essa característica viabilizou sua exportação para a festa do Oscar - já é o represente brasileiro na festa - e garantiu sua exibição em várias partes do mundo.

Outro aspecto - que se entrelaça com o anterior - é a apresentação de uma história "exótica" (Darlene e seus três maridos) Além disso, o diretor apenas resvala pela problemática social tendo em vista sua proposta de contar "bem" uma história, ou seja, fazer "cinemão". O mundo brasileiro do interior é mostrado de forma superficial e pouco conflituosa, constituindo dessa forma, mais um aspecto atraente para o público externo e também interno (a velha frase "o brasileiro não gosta de se olhar no espelho" é aqui negada mas não totalmente, isto é, o brasileiro gosta de se olhar no espelho sim, mas sem ver as rugas e as estrias).

O fato de Andrucha preferir não salientar muito os problemas sociais, tendo em vista sua proposta de fazer "cinemão", não tira o mérito do filme, que é o de ser coerente com essa proposta, quer dizer, fazer um cinema competente tecnicamente - fotografia, produção, ótimos atores - e contar "bem" uma história. Para isso, contribui também, a (boa, dentro da proposta) estrutura linear do roteiro de Elena Soares. O "problema" (que para Andrucha não é problema), no caso, é justamente o ritmo morno que ele impõe à narrativa. Porquê problema se era isso mesmo que ele queria?Porque o morno não está só no ritmo da história, está também na postura de Andrucha como diretor, no fato de ele buscar a competência técnica, buscar contar "bem" uma história mas não conseguir abranger os aspectos múltiplos do Brasil. Aí é que está o problema, pois esse tipo de cinema não instiga o espectador, não faz ele pensar sobre a sua realidade de forma dialética**. Faz, pelo contrário, com que ele se acomode ainda mais, já que acabou de sair do cinema com uma "boa história" na mente e não com uma realmente boa história na mente, já que o ritmo morno de Andrucha é diferente do de VIDAS SECAS (1963), por exemplo, onde Nélson Pereira dos Santos, consegue abranger muito mais aspectos e significados do comportamento e da situação de vida dos brasileiros. Que aspectos seriam esses? Os aspectos constitutivos e/ou atuais do povo brasileiro e suas causas, as causas desse sofrimento, assim como a separação que existe entre os problemas de qualquer ser humano  (perspectiva humanista e universal - a luta pela independência econômica, a luta pelo afeto, a luta contra os preconceitos, a luta pela própria individualidade etc) e os do povo brasileiro em particular, tais como: a hegemonia das elites rurais, a representatividade enorme dessa elite no poder legislativo e executivo; as contribuições do próprio povo brasileiro (a parte do povo que cabe nesse latifúndio) que fizeram com que as coisas chegassem a esse ponto: a alienação, saltitante ou não, a espera de soluções que venham de cima ou de favores etc. Um exemplo de filme que conseguiu abordar esses aspectos sem abrir mão da comunicação com o público: CRONICAMENTE INVIÁVEL (2000), de Sérgio Bianchi. O problema seria de história, então?Não! Mesmo com essa história Andrucha poderia ter enfocado maior quantidade de aspectos e/ou aspectos mais significativos. Em vez disso, ele preferiu contar "bem" uma história. E se a história não ajuda por que ele não criou outras coisas em cima dessa história?Por quê não ousou mais?Por que a visão de cinema dele não é essa, ele quer ser competente e conquistar o público. A questão é: não basta incorporar as coisas interessantes contidas na história do cinema, no caso, os elementos neorealistas (elipses temporais e a valorização da duração e da situação rotineira) para se fazer um bom filme, mas sim articular isso com situações de maior significação, preencher a tela de significados, mostrar com força - um bom diretor sabe fazer isso - as contradições que existem entre as motivações de cada personagem , ousar mais, enfim.Quanto à conquista do público, o cinema brasileiro já conseguiu atingir o público com filmes mais interessantes como por exemplo: MACUNAÍMA (1969), MEMÓRIAS DO CÁRCERE (1984), BYE BYE BRASIL(1980) e outros.

Alguém poderia dizer que a proposta de Andrucha mudou, que a estética publicitária de GÊMEAS (1999) não está presente, que o ritmo e a fotografia do filme não têm nada de publicitário... o que acontece, porém, é que em sua essência a visão de cinema dele continua a mesma: artesanal, comercial e logo, publicitária. Apenas mudou de tática: em vez da estética publicitária clichê, dessa vez ele usou a simpatia dos grandes atores e a força de uma história baseada em fatos verídicos e pitoresca, embalados num roteiro bem escrito. Andrucha poderia responder dizendo: "desprezo qualquer elucubração de estilo em meus filmes". Darlene, personagem do filme, poderia reforçar: "às vezes a beleza serve para diminuir a tristeza". EU, TU, ELES é um belo filme?

É, porque contém boa fotografia, ótimos atores, roteiro bem estruturado, uma boa produção enfim.

Não é, pois não explora a riqueza de possibilidades que o popular tem a oferecer e que um trabalho artístico mais elaborado poderia proporcionar.

Ao afirmar que despreza qualquer elucubração de estilo ele se contradiz, já que a elucubração da Conspiração Filmes e dele estão presentes, tendo em vista que a competência técnica é evidente. O que faltou foi mais elucubração artística, fundamental para uma obra de arte.

Conseguir atingir o público ele consegue e essa proposta é mais do que válida, mas fica a pergunta:

por quê não atingir o público com obras mais elaboradas?

*Em entrevista concedida no último Festival de Gramado a André Francioli ele disse que despreza qualquer elucubração de estilo em seus filmes e que não adere a nenhuma fórmula ou dogma.

**dialética: forma de raciocínio ou argumentação. No sentido mais informal do termo, dialética é simplesmente uma discussão ou diálogo em que se progride em direção à verdade pelo exame crítico daquilo que é dito. Esse método tem um de seus mais elaborados exemplos nos diálogos filosóficos de Platão. Existem também, no entanto, muitos outros sentidos mais técnicos de dialética. Um deles está associado a Kant, para quem a dialética é o método pelo qual se mostra que toda tentativa de se especular além dos limites da experiência possível leva necessariamente à contradição. Outro sentido está associado a Hegel, para quem a dialética é a forma de interação de conceitos, na qual uma idéia ("tese") entra em contradição com outra ("antítese), daí resultando uma terceira ("síntese"), que supera a contradição original e é mais completa e mais próxima da verdade do que suas antecessoras. Foi a partir desse sentido que Marx desenvolveu o conceito de materialismo dialético.

ELUCUBRAÇÃO
1 Ato de lucubrar. 2 Trabalho intelectual noturno; vigília. 3 Estudo laborioso e aturado. 4 Esforço literario. 5 Produto de trabalho intelectual. 6 Obra literária excessivamente douta e esmerada






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