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segunda-feira, 10 de junho de 2019

DICAS DE ROTEIRO EM PÍLULAS (5)



BIZOOOOOOOOOOOSSS!!!







I.  AS LIMITAÇÕES COMO FERRAMENTAS CRIATIVAS  

 É coisa comum entre os poetas dizer que a brevidade, a rima,  a quantidade limitada dos versos e/ou estrofes funcionam como limitações que, em vez de prejudicar, incentivam a criatividade. O mesmo acontece com o conto e com os filmes. Nadia Batella Gotlib em “Teoria do Conto” fala da força concentrada do conto. Carlos Reichenbach falava da falta de condições como instrumento de criação, se referindo à direção e também ao roteiro, pois, mesmo quando o diretor mexe no roteiro feito pelo roteirista, ele está fazendo... ROTEIRO. Charles Bukowski usava os capítulos curtos para dar mais ritmo aos seus romances, o mesmo fazia John Fante. O objetivo da cena também pode servir como limitação ajudando a criatividade, na medida em que o roteirista se foca no objetivo e preenche as lacunas na busca do seu objetivo naquela determinada cena. Os roteiristas podem usar, também, por exemplo, a trajetória circular numa só cena e não apenas no começo e no final do roteiro, pra refletir melhor o que mudou, ou, pelo contrário, afirmar que nada mudou, existem as 2 teorias. Eu, particularmente, fico com as 2, entendendo que é possível acontecer essas 2 mensagens. Como exemplo de que nada mudou existe o ótimo filme de Luis Buñuel – O FANTASMA DA LIBERDADE – enquanto exemplos de que as coisas mudaram pode ser visto na mitologia grega e em diversos filmes estadunidenses.

II.  A inversão da ordem dos diálogos ou de frases:
            
                1)Não preciso dizer mais nada!
                   Vocês vão ter que me engolir!

                2)Vocês vão ter que me engolir!
                   Não preciso dizer mais nada!
    
               Usei isso várias vezes, a 1ª foi em BLASFÊMIA – UMA                      INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DO BRASIL – 500 ANOS, em que as palavras do técnico de futebol Zagallo quando estava desabafando contra os críticos virou, invertendo-se a ordem do que ele disse, voz de pipoca falante, a exemplo das fábulas, em que coisas inanimadas dizem coisas e acabou caindo como uma luva, isto é, houve, com sucesso, uma ressignificação. Outra coisa que pode ser feita é inverter a ordem das cenas, é uma coisa que às vezes dá resultado.


III.         O truque clássico dos filmes de ação como O JUSTICEIRO, de Jonathan Heinsley, RISCO TOTAL de Renny Harlin, DARKMAN – VINGANÇA SEM ROSTO, de Sam Raimi, e muitos outros, é fazer o protagonista ser atingido por alguma grande tragédia para angariar a simpatia do público desde o começo. O procedimento, no entanto, pode ser usado em outros gêneros, como o drama.

IV.          O acaso a favor do protagonista não é aceito pelos roteiristas sérios, sérios no sentido de competentes e honestos e não de sisudez, diga-se. Mesmo antes de estudar roteiro eu não suportava esse chamado DEUS EX MACHINA, em que, por exemplo, um protagonista é ajudado por um engasgar da arma do vilão na hora H – veja A TEORIA DA CONSPIRAÇÃO, de Richard Donner, com Mel Gibson e Julia Roberts, por exemplo - embora eu não chamasse esse procedimento por esse nome ainda. Em DUBLÊ DE CORPO, de Brian De Palma, já no final do longa, um cachorro aparece de repente e salva o protagonista interpretado por Craig Wasson, estragando o filme e a ótima direção de De Palma. Coisa semelhante ocorre em FEMME FATALE, também com direção de de Palma, em que somos obrigados a acompanhar toda a trajetória de uma personagem, e o filme ia muito bem até aí, para descobrir que ela estava apenas sonhando. Já o acaso contra o protagonista é muito bem visto, aceito e utilizado pelos bons roteiristas e escritores, vide os quadrinhos e os filmes do HOMEM-ARANHA em que o protagonista, Peter Parker, aprende que com o poder vem a responsabilidade, graças a uma coincidência: o ladrão que ele deixa escapar, por ter sido maltratado por um empregador, é o mesmo que mata seu tio Ben Parker. Já em O GRANDE GOLPE, de Stanley Kubrick, ótimo filme aliás, o acaso arrasa os planos de uma personagem produzindo um final impactante. Às vezes o roteirista brinca com esse DEUS EX MACHINA e a arma dos 2 oponentes principais engasga na hora H.

V.              Estou levantando uma bandeira: sou a favor de que a autoria do filme seja dada ao diretor(es) e ao(s) roteirista(s). Alguns roteiristas americanos levantaram essa bandeira e durante um curto período de tempo alguns filmes vieram assinados pelo diretor(es) e pelo(s) roteirista(s), embora lá nos EUA, as coisas sejam diferentes até certo ponto, pois lá quem ganha o Oscar de melhor filme, por exemplo, é o produtor e não o diretor.


VI.           O Motivo do Duplo é Muito Antigo

Borges escreveu “O Outro”, presente em seu livro “O Livro de Areia”

“(...) motivou tantas vezes a pena de Stevenson. Na Inglaterra, seu nome é fetch ou, de maneira mais livresca, wraith of the living, na Alemanha, doppelganger. Suspeito que um dos seus primeiros apelidos foi o de alter ego. Esta aparição espectral terá procedido dos espelhos do metal ou da água, ou simplesmente da memória, que faz de cada um um espectador e um ator. Meu dever era conseguir que os interlocutores fossem bastante diferentes para serem dois e bastante parecidos para serem um. Valerá a pena declarar que concebi a história às margens do rio Charles, na Nova Inglaterra, cujo curso frio me lembrou o distante curso do Ródano?”

Jorge Luis Borges

Buenos Aires, 3 de fevereiro de 1975


ALGUNS EXEMPLOS DO MOTIVO DO DUPLO NA LITERATURA, NO CINEMA, NOS QUADRINHOS E NA TELEVISÃO:

William Wilson – Edgar Allan Poe – Conto; O Outro – Jorge Luis Borges - Conto; O Homem que Não Era – Direção de Basil Dearden, filme com Roger Moore, ex-007; O Médico e o Monstro – Robert Louis Stevenson, Romance; O Médico e o Monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde), filme de 1941, do gênero drama de horror, dirigido por Victor Fleming e um remake do filme Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Rouben Mamoulian (1931); O Incrível Hulk – Quadrinhos e cinema; O Homem Duplicado, filme de Dennis Villeneuve; Clube da Luta – Filme de David Fincher com Edward Norton e Brad Pitt; O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde – Livro e Filmes; O Vingador do Futuro, filme de Paul Verhoeven, com Arnold schwarzenegger; Coração Satânico, filme de Alan Parker, com Mickey Rourke e Robert de Niro; Na telenovela brasileira, temos o exemplo de O Outro, de 1987, com Francisco Cuoco encarnando duas personagens.

Destaques:

1)O Homem Duplicado (no original em inglês, Enemy) é um filme de suspense psicológico dirigido por Denis Villeneuve que baseia-se no livro homônimo de José Saramago. O longa conta com Jake GyllenhaalMélanie LaurentIsabella Rossellini e Sarah Gadon nos papéis principais. 


2)O HOMEM QUE NÃO ERA(“THE MAN WHO HAUNTED HIMSELF”) – filme de 1970

Ao voltar para casa, o executivo Harold Pelham (Roger Moore) sofre um terrível acidente de carro. Levado às pressas ao hospital, ele fica clinicamente morto por alguns minutos, mas logo retorna à vida. Após ser liberado, ele percebe que alguém está usando seu nome e que esse estranho compartilha sua casa, toma decisões nos seus negócios e infiltra-se em sua família. Apesar de todos os esforços para descobrir a identidade do intruso, Harold fracassa: o impostor possui uma personalidade volátil, agressiva e não perde tempo em deixar claro que planeja se livrar dele e assumir para sempre o seu lugar. Foi baseado no romance The Strange Case of Mr Pelham, de Anthony Armstrong, que foi originalmente publicado em 1957.

3)Coração Satânico(“Angel Heart”) - 1987  
Em 1955, em Nova York, o detetive particular Harry Angel é contratado para encontrar um cantor desaparecido no final da Segunda Guerra Mundial. Sua investigação o leva a Nova Orleans, onde feitiçaria e assassinato seguem seus passos. Ótimo roteiro e direção. Baseado no livro homônimo de William Hjortsberg.


Você também pode gostar de ler:

     Teoria do Conto – Nadia Battela Gotlib – Editora Ática

           Os 100 Melhores Contos de Crime e Mistério da Literatura Universal – Vários Autores – Flávio Moreira da Costa – Organizador - Editora Ediouro

            Antologia da Literatura Fantástica – Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo – Organizadores - Editora Companhia das Letras

            O Herói de Mil Faces – Joseph Campbell – Editora Cultrix/ Pensamento

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