José Carlos Capinan
Ai Brasil,
Quem escapa do desamor em tuas noites ferozes
Quem se salva da ciência dos teus doutos sábios doutores
Quem foge de teus
senhores algozes
Nasce com alguma forma de homem
E se não morre dos sete dias
Nem do angu de farinha
Vai um
dia pro batismo
Recebe por sorte um nome
Vai ser João ou Maria
Vai ser José ou das Dores
Vai ser de
Deus Jesus ou dos Santos
Ou serão Carlos que nunca foram
E serão assim
brasileiros como tantos
E serão sempre brasileiros
Que serão de algum terreiro
Bloco
sujo carnavalesco
Lesco-lesco café ralo com torresmo
Ou de nada nada mesmo
Como
nós assim a esmo
E quem capitão de
areia num livro de Jorge Amado
Aprende lição das coisas
E quem insone nas
madrugadas é mulher de lobisomem
Ou aprende nas ciladas que o pior lobo dos
homens
Talvez seja o próprio homem
Quem retirante escapa num quadro de
Portinari
Quem poeta quer ter frátria de Veloso ou de Vinícius pátria amada
Quem gracilianamente deságua desta vida seca agrária
Ou na solidão urbana sonha
a vida humana solidária
Quem na cartilha suburbana soletra o nome fulô
Quem
nasce de negra índia ou branco
E sobe ligeiro ou manco as ladeiras do Pelô
Quem
descasca uma banana
E se consome no sonho da grande mesa comum
Para a imensa
toda fome
Quem assim vive não morre
Vai virando jacarandá ou poesia pau-brasil
Virando samba e cachaça
Se torna gol de Garrincha se torna mel de cabaça
Se
torna ponta de lança do esporte clube da raça
Se torna gente embora gente nem
nascida
Mas (quem sabe?) pode ser
Um dia gauche na vida
Se torna nossa
aquarela
Torna-se Carlos
Marighella
Um anjo doce na morte
Que os homens tortos
quiseram
Sem que te matassem ainda

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