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segunda-feira, 8 de abril de 2019

BELO POEMA






Vai, Carlos, ser  Marighella na vida

 José Carlos Capinan

Ai Brasil, 
Quem escapa do desamor em tuas noites ferozes
 Quem se salva da ciência dos teus doutos sábios doutores 
Quem foge de teus senhores algozes
 Nasce com alguma forma de homem

E se não morre dos sete dias
Nem do angu de farinha
 Vai um dia pro batismo
 Recebe por sorte um nome

Vai ser João ou Maria
 Vai ser José ou das Dores
 Vai ser de Deus Jesus ou dos Santos
 Ou serão Carlos que nunca foram 
E serão assim brasileiros como tantos

E serão sempre brasileiros
 Que serão de algum terreiro
 Bloco sujo carnavalesco
 Lesco-lesco café ralo com torresmo
 Ou de nada nada mesmo
 Como nós assim a esmo

E quem capitão de areia num livro de Jorge Amado
 Aprende lição das coisas
 E quem insone nas madrugadas é mulher de lobisomem
 Ou aprende nas ciladas que o pior lobo dos homens
 Talvez seja o próprio homem
 Quem retirante escapa num quadro de Portinari
 Quem poeta quer ter frátria de Veloso ou de Vinícius pátria amada
 Quem gracilianamente deságua desta vida seca agrária
 Ou na solidão urbana sonha a vida humana solidária
 Quem na cartilha suburbana soletra o nome fulô
 Quem nasce de negra índia ou branco
 E sobe ligeiro ou manco as ladeiras do Pelô
 Quem descasca uma banana
 E se consome no sonho da grande mesa comum
 Para a imensa toda fome
 Quem assim vive não morre
 Vai virando jacarandá ou poesia pau-brasil
 Virando samba e cachaça
 Se torna gol de Garrincha se torna mel de cabaça
 Se torna ponta de lança do esporte clube da raça
 Se torna gente embora gente nem nascida
 Mas (quem sabe?) pode ser

Um dia gauche na vida
Se torna nossa aquarela
Torna-se Carlos Marighella
Um anjo doce na morte
Que os homens tortos quiseram
 Sem que te matassem ainda

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