ERA UMA VEZ UMA ÉPOCA...
Nessa época, existiam revistas como CHICLETE COM BANANA, GERALDÃO, CIRCO e outras que tornavam o cotidiano menos áspero e nos davam a oportunidade de rir e tirar um sarro de uma sociedade escrota (lembro que alguém que achava a mesma coisa escreveu na sessão de cartas da CHICLETE e eu acrescento que além de ser a sociedade do espetáculo, também é a sociedade dos sacanas – várias pessoas já disseram e continuam dizendo: o mundo é dos mais espertos!) com craques do cartum como ANGELI, LAERTE, GLAUCO VILLAS-BOAS, LUIZ GÊ e personagens incríveis e memoráveis como BOB CUSPE, RÊ BORDOSA, MARA TARA, GERALDÃO, DOY JORGE, ZÉ DO APOCALIPSE, PRESIDENTE REIS, PIRATAS DO TIETÊ etc; colunistas como GLAUCO MATTOSO com sua BANANA PURGATIVA e Tom Leão surgindo no jornal O GLOBO, com seu RIO FANZINE; A ESPADA SELVAGEM DE CONAN, personagem criado por ROBERT E. HOWARD, que trazia um protagonista diferente de outros da própria MARVEL, porque era forte sim, mas não tinha superpoderes e sempre foi o meu predileto, talvez por trazer a personagem e as histórias mais adultas da MARVEL(ao lado de KULL e SALOMÃO KANE – O PURITANO, personagens também criados por Robert E. Howard que também marcavam presença na ESPADA com histórias muito boas) porque trazia roteiros muito bons de Roy Thomas e outros, apesar de Thomas ser o melhor, às vezes adaptando Robert E. Howard e L. Sprague de Camp, às vezes ele mesmo inventando histórias próprias, com desenhistas incríveis como os irmãos John e Sal Buscema e muitos outros, tudo isso num preto e branco maravilhoso, isso sem falar que a linguagem dos quadrinhos é muito próxima do cinema com seus enquadramentos fazendo o papel de câmera. hoje em dia, vemos COPPOLLA e SCORSESE espinafrando a MARVEL no cinema. Eu, por minha vez, acho que a era de ouro da MARVEL foi publicada pela ABRIL nos anos 80 e começo dos 90. Quem acompanhou não sente necessidade de ver, repetidas, as mesmas histórias, ainda que sejam feitas modificações e que as histórias posteriores à era de ouro também sejam aproveitadas; Sempre gostei mais da Marvel do que da DC, as vezes que eu comprei revistas da DC eu achei infantis as histórias, não eram instigantes também, não faziam sonhar; livros de CHARLES BUKOWSKI, que comecei a ler aos 13 anos de idade e que me fascinaram de primeira. BUKOWSKI sabia construir histórias irreverentes e criativas e eu digo criativas SIM, não LOUCAS; 1988 trouxe o best-seller 1968: O ANO QUE NÃO TERMINOU, de ZUENIR VENTURA, que eu li aos 14 anos e reli recentemente. É claro que a minha visão de mundo mudou de 88 pra cá, mas já naquela época eu notava que era uma forma de resgate afetivo de uma geração e uma forma de atingir as novas gerações; na vitrola e no dial da FLUMINENSE FM, muito rock nacional surgindo com HOJERIZAH, PICASSOS FALSOS, PATIFE BAND, VIOLETA DE OUTONO, FINIS AFRICAE, PLEBE RUDE, LEGIÃO URBANA, ESCOLA DE ESCÂNDALOS, PATRULHA 666, DORSAL ATLÂNTICA, BARÃO VERMELHO, GANG 90, FAUSTO FAWCETT E OS ROBÔS EFÊMEROS, NAU(Vange Leonel...), INOCENTES, GOLPE DE ESTADO, GUETO, LOBÃO, IRA!, TITÃS, ULTRAJE A RIGOR, 365, FELLINI, KÃES VADIUS, URGE, TONTON MACOUTE, DEFALLA, UNS E OUTROS(pelo menos o 1º disco, NÓS NORMAIS), O ÚLTIMO NÚMERO, VULTOS, MUZAK, AKIRA S & AS GAROTAS QUE ERRARAM, MERCENÁRIAS, SAARA SAARA, O ETERNO GRITO, ARRIGO BARNABÉ e seus 2 discos memoráveis - ainda que não fossem totalmente rock – TUBARÕES VOADORES e CIDADE OCULTA, trilha musical do filme homônimo de CHICO BOTELHO, e muitos outros, além de numerosos grupos e cantores internacionais que as rádios mais comerciais não tocavam, preferiam tocar TECHNOTRIC, MILLI VANILLI e outros sons hediondos, embora também tocassem TEATRO DOS VAMPIROS do LEGIÃO URBANA, cuja harmonia, melodia e letra melancólicas traduziam o espírito, o sentimento das pessoas que tiveram seu dinheiro sequestrado pelo PLANO COLLOR. Dizia a letra: “vamos sair, mas não temos mais dinheiro, os meus amigos todos estão procurando emprego...”; aqui e ali pulsavam jornais e revistas muito interessantes como o ADIANTE, o bom e velho PASQUIM, a ROCK BRIGADE e até mesmo a BIZZ, que, apesar de muito criticada era a revista que te deixava mais por dentro do mundo da música, pelo menos até o aparecimento do INTERNATIONAL MAGAZINE, excelente jornal sobre música, e posteriormente, é claro, da internet; no cinema, filmes nacionais bem legais brotavam, tanto de longa quanto de curta: FELIZ ANO VELHO, DEDÉ MAMATA, SONHO SEM FIM, ILHA DAS FLORES, BARBOSA, A VERDADE, A VOZ DA FELICIDADE, IMPRESSO À BALA, MEMÓRIAS DO CÁRCERE, ELES NÃO USAM BLACK-TIE, NUNCA FOMOS TÃO FELIZES, FULANINHA, COM LICENÇA EU VOU À LUTA, O HOMEM QUE VIROU SUCO, NÃO QUERO FALAR SOBRE ISSO AGORA, O GRANDE MENTECAPTO, O BEIJO DA MULHER ARANHA, NOITES DO SERTÃO, FILME DEMÊNCIA, A MARVADA CARNE, A HORA DA ESTRELA, O SONHO NÃO ACABOU, O BOM BURGUÊS, FONTE DA SAUDADE... saudade de um tempo que não volta mais... será que nos tempos de hoje conseguimos enumerar tantos filmes brasileiros posteriores a essa época que sejam tão bons assim? Em matéria de filmes internacionais, as descobertas: JIM JARMUSCH com DOWN BY LAW e ESTRANHOS NO PARAÍSO; PASOLINI, com SALÓ OU OS 120 DIAS DE SODOMA; STEPHEN FREARS, com O AMOR NÃO TEM SEXO; ALEX COX com SID & NANCY; o virtuosismo de direção, nem sempre amparado por bons roteiros, de BRIAN DE PALMA; da mesma forma, ALFRED HITCHCOCK; MARTIN SCORSESE e seu virtuosismo, esse SIM, sempre amparado por bons roteiros, como no ótimo DEPOIS DE HORAS, com todo seu dinamismo e precisão, assim como STANLEY KUBRICK, cujo 1º filme que eu vi foi nessa época mesmo, NASCIDO PARA MATAR; a melancolia de GEORGE A. ROMERO com o seu MARTIN; o grito lancinante JOHNNY VAI À GUERRA, de DALTON TRUMBO, capaz de tocar até os corações mais empedernidos. Até os filmes considerados comerciais eram bons, muitas vezes: CORAÇÃO SATÂNICO, de ALAN PARKER, OS INTOCÁVEIS, do já citado DEPALMA, AS BRUXAS DE EASTWICK, de GEORGE MILLER, A COMPANHIA DOS LOBOS, de NEIL JORDAN, O PREDADOR 1(de JOHN MCTIERNAN), com ARNOLD SCHWARZENEGGER E 2(de STEPHEN HOPKINS), com DANNY GLOVER, HIGHLANDER – O GUERREIRO IMORTAL, de RUSSELL MULCAHY, ; O SICILIANO, de MICHAEL CIMINO, EXPRESSO PARA O INFERNO, de ANDREI KONCHALOVSKY, LIGAÇÕES PERIGOSAS, de STEPHEN FREARS, CAÇADORES DE EMOÇÃO, de KATHRYN BIGELOW, A ENCRUZILHADA E UM ROSTO SEM PASSADO, os 2 de WALTER HILL, FX 2 – ILUSÃO FATAL, de RICHARD FRANKLIN, CAMINHOS VIOLENTOS, de JAMES FOLEY, TOTALMENTE SELVAGEM, de JONATHAN DEMME; existia, também, uma comunhão muito maior: por exemplo, todo mundo ficava esperando a segunda-feira, quando passava a TELA QUENTE na globo; Quando passou PSICOSE 2 e O IMPÉRIO CONTRA ATACA, todo mundo foi correndo ver e era um dos principais assuntos da semana, fosse na escola ou em qualquer outro lugar. Foi por causa de PSICOSE 2, transmitido para todo o Brasil, que muita gente passou a achar que ser psicótico era a mesma coisa que ser um maluco do mau, o que, convenhamos, não é verdade. Em 1989 surgia SAMPA, minissérie pra telinha da Globo, de autoria de Gianfrancesco Guarnieri – que já tinha escrito, com êxito, ELES NÃO USAM BLACK-TIE pro cinema e em SAMPA assinalou mais um êxito - e direção de Roberto Talma; quem viu não esquece a fascinante história de Amadeu(Cássio Gabus Mendes, em grande atuação), um arquiteto esquizofrênico atormentado cuja mulher desaparece misteriosamente numa das cidades mais populosas da América Latina. Essa minissérie serve de exemplo: muitas vezes, com mais minutagem, com mais tempo, pode-se construir uma obra mais completa e interessante. No cinema americano temos o exemplo NEGATIVO de FREUD ALÉM DA ALMA, dirigido por JOHN HUSTON. Foi chamado para fazer o roteiro nada mais nada menos que JEAN-PAUL SARTRE e o que acabou acontecendo? SARTRE queria um filme de 8-9 horas e os produtores descartaram tal proposta, quando a solução era muito simples: dividir o filme em 3 partes, ou 4, que seja, cada uma com cerca de 3 ou 2 horas e pronto, PT SAUDAÇÕES. Mas não, a ansiedade de lucro, a ganância venceu a inteligência, a criatividade, a qualidade. Mesmo assim, partes do roteiro feitos por SARTRE foram incluídos no filme, mas o nome dele não foi creditado; e a telenovela CORPO SANTO, escrita por JOSÉ LOUZEIRO em 1987? Marcou época, não só por isso, mas foi a telenovela mais violenta já feita e não era violência gratuita. Louzeiro era um bamba, um mestre, como se vê também em outros trabalhos seus pra audiovisual como LÚCIO FLÁVIO – O PASSAGEIRO DA AGONIA, de HECTOR BABENCO, PIXOTE – A LEI DO MAIS FRACO, também de HECTOR BABENCO e AMOR BANDIDO, de BRUNO BARRETO; eu, nessa época, vivia pagando contas em bancos, pegando fila, é claro, e na maioria das vezes elas não eram nada pequenas e ia, aliás, usando um broche do PT(com estrelinha e tudo), coisa que eu quase me envergonho de relatar. Digo quase, porque o PT naquela época era uma grande esperança e corresponde ao que o PSOL significa hoje. Os aposentados, principalmente as mulheres, gostavam de ficar na fila conversando com pessoas da sua faixa etária ou mais novas, e, em vez de pedir ao primeiro da fila pra serem atendidas, pediam para o indivíduo do meio ou até do final da fila; esse pessoal era o mesmo que, acrescidos de alguns jovens entusiastas, quase todos usando o adesivo EU SOU FISCAL DO SARNEY, a reboque do PLANO CRUZADO, que congelou os preços, conseguiram fechar vários supermercados que praticavam o ágio. Isso, porém, durou pouco e logo bateu o desânimo e a inflação voltou com tudo; Nas eleições de 1989 para presidente, no 2º turno, sobraram o demagogo “CAÇADOR DE MARAJÁS”, promovido pela REDE GLOBO, FERNANDO COLLOR e o SAPO BARBUDO LULA, que, nas palavras de BRIZOLA, as elites teriam que engolir, mas esse resultado veio de uma manobra da direita, que contava com os índices de rejeição do petista, como noticiou a TRIBUNA DA IMPRENSA, de propriedade de Hélio Fernandes, irmão de Millôr Fernandes. Não foi impressão, achismo ou exagero do jornal, o fato é que uma vez eu estava num elevador e ouvi, ao vivo e a cores, antes do 1º turno da eleição, antes, portanto, da manchete da TRIBUNA, um diálogo de dois indivíduos, um homem e uma mulher: “se ficar Brizola e Collor eu voto no Brizola, agora, se ficar Lula e Collor eu voto no Collor”, ao que a mulher retrucou: “é, eu também”; Eu, ia sempre sozinho ao cinema e à praia, mas não me importava com isso, pois eu tinha direito à solidão naquela época, enquanto hoje nunca me sinto sozinho, o que não é bom, a verdade é que eu era feliz e não sabia. Uma curiosidade que aconteceu numa das vezes que fui à praia: dois garotos, provavelmente de favela ou moradores de rua, me abordaram depois que uma mulher(não era bonita) de topless pediu pra eu olhar as coisas dela enquanto ela ia tomar banho. Um deles disse: “você é o corpo solitário, o corpo que nunca morre”. Outra curiosidade parecida: saltei do ônibus, de volta pra casa depois do horário escolar e apareceu uma mulher totalmente nua (também não era bonita) andando pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana. E assim ia terminando minha adolescência, com a queda de COLLOR, a posse de ITAMAR FRANCO, que pelo menos deu uma FORCINHA pro cinema depois do BLACK OUT que o COLLOR aprontou, eu continuando a pagar contas no banco, continuando a ir à praia sozinho e cantando o samba do SALGUEIRO, escola de samba para a qual eu torço, que foi campeã daquele ano: “explode coração, na maior felicidade, é lindo o meu salgueiro, contagiando e sacudindo essa cidade”, assistindo O GRANDE GOZADOR, de VICTOR DI MELLO, com CLAUDIO CAVALCANTI como protagonista, uma das melhores das, assim chamadas por muitos, pornochanchadas que eu já vi até hoje e saboreando NÃO QUERO FALAR SOBRE ISSO AGORA, de MAURO FARIAS. Hoje em dia, sair de casa pra ver filme nacional... É, realmente eu era feliz e não sabia...
DIAS DE LUTA – O ROCK E O BRASIL
DOS ANOS 80 – RICARDO ALEXANDRE
ROCK AND ROLL: UMA HISTÓRIA
SOCIAL – PAUL FRIEDLANDER

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