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terça-feira, 6 de abril de 2021

DICAS DE ROTEIRO EM PÍLULAS (8) – ATENÇÃO: SPOILERS

 


 



A MENSAGEM

 

Numa entrevista na tv, um famoso roteirista* respondeu a um espectador que perguntou como ele trabalhava a mensagem nos seus roteiros: “putz! Lamento, não existe mensagem!” Discordo totalmente desse roteirista, ainda mais porque o próprio roteiro – o roteiro mais famoso dele - desse autor virou filme e deixa uma clara mensagem, só não vê quem não quer, de que o crime compensa, pelo menos pra dois dos criminosos, apesar de uma das personagens não aguentar o peso da culpa e se entregar, o que o final aberto do filme coloca em cena, em interrogação, deixando as perguntas: esse terceiro criminoso vai se acomodar e continuar com a farsa ou vai ser eliminado pelos outros dois?A mensagem está lá, isto é, o crime também pode compensar para o terceiro, isso além de o filme mostrar que a sociedade está recheada de corrupção. Outros filmes que passam essa mesma mensagem são OS BONS COMPANHEIROS(GOODFELLAS), de Martin Scorsese e DONNIE BRASCO, de Mike Newell. No 1º, o antigo mafioso interpretado por Ray Liotta, que denuncia seus companheiros em troca de sua inclusão no programa de realocamento de testemunhas, já no final do filme, em uma declaração saudosa, lamenta com tristeza o fim da sua vida de mafioso. No 2º, o policial interpretado por Johnny Depp, que trabalhava infiltrado na máfia, aparece melancolicamente recebendo uma premiação do FBI com uma medalha de honra ao mérito e um cheque de 500 dólares em cenas deprimentes. Querendo passar mensagem no seu roteiro ou não, o fato é que a mensagem sempre existe e, já que ela sempre vai existir de qualquer jeito, é preferível controlar a mensagem. Não se deve confundir uma fala ou várias com a opinião do autor ou sua mensagem, algumas falas vão coincidir com a opinião do autor, outras não, o que vale é o discurso global, compreender os fenômenos de uma perspectiva global e não me venham os sofistas de plantão querer dizer que essa perspectiva tem a ver com a rede globo. O final não tem que ser necessariamente a moral da história, embora esse recurso também seja válido, como no caso das fábulas, que em geral são histórias-porrada e muito menos indicadas para crianças do que os contos de fadas justamente por isso. 

 

Em O QUE É MITO, de Everardo P.G. Rocha (Coleção Primeiros Passos, editora Brasiliense), o autor descreve três interpretações do mito de édipo, três diferentes mensagens enxergadas por três grandes pensadores:

 

1)Uma de Claude Lévi-Strauss, que diz que o mito é uma dificuldade, que existe uma ambivalência, uma hesitação da sociedade grega em optar por uma origem, quer dizer, entre a origem autóctone, ligada à terra e a origem vinda da união entre homem e mulher.

 

2)Já Michel Foucault acredita que, no contexto da sociedade grega daquela época, o poder estava ligado à verdade e esta expulsa Édipo do poder por meio de encaixes, isto é, a junção de diversas metades da verdade:

 

- Uma peste assola o país, o país está sujo, corrompido, o aviltamento do país se deve a um assassinato, o de Laio, antigo rei, O adivinho tirésias diz que o assassino é Édipo, atual rei, Jocasta tenta convencer Édipo de sua inocência e lembra que Laio foi morto por alguém no cruzamento de três caminhos, Édipo se lembra que matou alguém justamente nessa ocasião - um escravo vem de Corinto com a notícia de que o rei Políbio, que Édipo julgava ser seu pai, havia morrido e revela que Políbio não era seu pai, um outro escravo diz que, de fato, recebeu e deixou no Monte Cíteron uma criança que vinha do palácio e que lhe haviam dito ser filho de Jocasta e Édipo. Jocasta, ao saber da verdade, se mata e Édipo acaba furando seus próprios olhos e virando um andarilho.

 

OBS: No nosso mundo contemporâneo, temos muitos exemplos de que o poder, ao contrário da interpretação de Foucault sobre o mito de Édipo, está ligado à mentira, à corrupção, à politicagem etc isso não desvaloriza a interpretação de Foucault, pelo contrário, mostra a nossa decadência.

 

3)Freud interpreta o mito de Édipo como a história de todos nós, num triângulo amoroso com pai e mãe, uma história de ódio e amor que devemos superar para não ficarmos presos nesse complexo, o chamado complexo de Édipo.

 

É interessante observar, também, como os símbolos são uma ferramenta muito interessante pra passar mensagens. Às vezes me pego tendo umas idéias que acabo vendo já terem sido descobertas, como o símbolo do vento como mensageiro, que utilizei em QUE PAÍS É ESTE? No caso, eu tive a ideia antes de saber o que significava, depois, porém, ao procurar o significado de vento no dicionário de símbolos o teor era exatamente o mesmo, isto é, o vento como mensageiro. Com os símbolos nacionais roubados pela ditadura e o roteiro O TEMPO SAGRADO ocorreu a mesma coisa, eu tive a ideia primeiro e depois vi que o Celso Lungaretti pensou a mesma coisa na época da ditadura, li em seu blog NÁUFRAGO DA UTOPIA. Já com o simbolismo mortuário da concha a mesma coisa, eu coloquei primeiro ela em UM CRIME SEM AUTOR e depois conferi  que o simbolismo que eu imaginei estava correto. Tive, também, um pensamento importante que publiquei no blog, o pensamento de que o deus da maioria das pessoas é o dinheiro, isso antes de ver os cartuns do Quino que concordava e ampliava esse meu pensamento. Ora, conclui-se, portanto, que “todo o conhecimento está dentro do homem”, uma velha mas sempre atual frase, é a maiêutica. Ocorre, porém, que as pessoas podem, e eu também já fiz isso, inverter o processo, buscando, consultando no dicionário de símbolos ou em outras obras o que significa tal coisa, por exemplo, uma coruja, e ajustando esse elemento ao seu roteiro.

 

 

É importante notar também, salta aos olhos, a liberdade que os letristas brasileiros de músicas têm para reclamar, em comparação com o cinema nacional, já há bastante tempo, é só lembrar de “Perfeição”, do grupo Legião Urbana: a música inteira é só reclamação, mesmo assim ela foi um grande sucesso, aliás, quem disse que reclamar não dá ibope?Os produtores brazucas é que são muito conservadores e subestimam a inteligência do público. Ainda sobre mensagem e música, existe um texto bem interessante sobre outra música do Legião Urbana, “Eduardo e Mônica”, numa interpretação de autoria de Adolar Gangorra. Vamos a ele:

“O falecido Renato Russo era, sem dúvida, um ótimo músico e um excelente letrista. Escreveu verdadeiras obras de arte cheias de originalidade e sentimento. Como artista engajado que era, defendia veementemente seus pontos de vista nas letras que criava. E por isso mesmo, talvez algumas delas excedam a lógica e o bom senso. Como no caso da música Eduardo e Mônica, do álbum "Dois" da Legião Urbana, de 1986, onde a figura masculina (Eduardo) é tratada sempre como alienada e inconsciente, enquanto a feminina (Mônica) é a portadora de uma sabedoria e um estilo de vida evoluidíssimos. analisemos o que diz a letra.

Logo na segunda estrofe, o autor insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente (Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar; Ficou deitado e viu que horas eram) ao mesmo tempo que tenta dar uma imagem forte e charmosa à Mônica (enquanto Mônica tomava um conhaque noutro canto da cidade como eles disseram). Ora, se esta cena tiver se passado de manhã como é provável, Eduardo só estaria fazendo sua obrigação: acordar. Já Mônica revelaria-se uma cachaceira profissional, pois virar um conhaque antes do almoço é só para quem conhece muito bem o ofício.

 

Mais à frente, vemos Russo desenhar injustamente a personalidade de Eduardo de maneira frágil e imatura (Festa estranha, com gente esquisita). Bom, "Festa estranha" significa uma reunião de porra-loucas atrás de qualquer bagulho para poderem fugir da realidade com a desculpa esfarrapada de que são contra o sistema. "Gente esquisita" é, basicamente, um bando de sujeitos que têm o hábito gozado de dar a bunda após cinco minutos de conversa. Também são as garotas mais horrorosas da via-láctea. Enfim, esta era a tal "festa legal" em que Eduardo estava. O que mais ele podia fazer? Teve que encher a cara pra agüentar aquele pesadelo, como veremos a seguir.

Assim temos (- Eu não tô legal. Não agüento mais birita). Percebe-se que o jovem Eduardo não está familiarizado com a rotina traiçoeira do álcool. É um garoto puro e inocente, com a mente e o corpo sadios. Bem ao contrário de Mônica, uma notória bêbada sem-vergonha do underground.

Adiante, ficamos conhecendo o momento em que os dois protagonistas se encontraram (E a Mônica riu e quis saber um pouco mais Sobre o boyzinho que tentava impressionar). Vamos por partes: em "E a Mônica riu" nota-se uma atitude de pseudo-superioridade desumana de Mônica para com Eduardo. Ela ri de um bêbado inexperiente! Mais à frente, é bom esclarecer o que o autor preferiu maquiar. Onde lê-se "quis saber um pouco mais" leia-se" quis dar para"! É muita hipocrisia tentar passar uma imagem sofisticada da tal Mônica.

A verdade é que ela se sentiu bastante atraída pelo "boyzinho" que tentava impressionar"! É o máximo do preconceito leviano se referir ao singelo Eduardo como "boyzinho". Não é verdade. Caso fosse realmente um playboy, ele não teria ido se encontrar com Mônica de bicicleta, como consta na quarta estrofe (Se encontraram então no parque da cidade A Mônica de moto e o Eduardo de camelo). Se alguém aí age como boy, esta seria Mônica, que vai ao encontro pilotando uma ameaçadora motocicleta. Como é sabido, aos 16 (Ela era de Leão e ele tinha dezesseis) todo boyzinho já costuma roubar o carro do pai, principalmente para impressionar uma maria-gasolina como Mônica.

E tem mais: se Eduardo fosse mesmo um playboy, teria penetrado com sua galera na tal festa, quebraria tudo e ia encher de porrada o esquisitão mais fraquinho de todos na frente de todo mundo, valeu?

Na ocasião do seu primeiro encontro, vemos Mônica impor suas preferências, uma constante durante toda a letra, em oposição a uma humilde proposta do afável Eduardo (O Eduardo sugeriu uma lanchonete Mas a Mônica queria ver o filme do Godard). Atitude esta, nada democrática para quem se julga uma liberal.

Na verdade, Mônica é o que se convencionou chamar de P.I.M.B.A (Pseudo Intelectual Metido à Besta e Associados, ou seja, intelectuerdas, alternativos, cabeças e viadinhos vestidos de preto em geral), que acham que todo filme americano é ruim e o que é bom mesmo é filme europeu, de preferência francês, preto e branco, arrastado para caralho e com bastante cenas de baitolagem.

Em seguida Russo utiliza o eufemismo "menina" para se referir suavemente à Mônica (O Eduardo achou estranho e melhor não comentar. Mas a menina tinha tinta no cabelo). Menina? Pudim de cachaça seria mais adequado. Ainda há pouco vimos Mônica virar um Dreher na goela logo no café da manhã e ele ainda a chama de menina? Além disto, se Mônica pinta o cabelo é porque é uma balzaca querendo fisgar um garotão viril. Ou então porque é uma baranga escrota.

O autor insiste em retratar Mônica como uma gênia sem par. (Ela fazia Medicina e falava alemão) e Eduardo como um idiota retardado (E ele ainda nas aulinhas de inglês). Note a comparação de intelecto entre o casal: ela domina o idioma germânico, sabidamente de difícil aprendizado, já tendo superado o vestibular altamente concorrido para Medicina. Ele, miseravelmente, tem que tomar aulas para poder balbuciar "iéis", "nou" e "mai neime is Eduardo"! Incomoda como são usadas as palavras "ainda" e "aulinhas", para refletir idéias de atraso intelectual e coisa sem valor, respectivamente.

Na seqüência, ficamos a par das opções culturais dos dois (Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, De Van Gogh e dos Mutantes, De Caetano e de Rimbaud). Temos nesta lista um desfile de ícones dos P.I.M.B.A., muito usados por quem acha que pertence a uma falsa elite cultural. Por exemplo, é tamanha uma pretensa intimidade com o poeta Manuel de Souza Carneiro Bandeira Filho, que usou-se a expressão "do Bandeira". Francamente, "Bandeira" é aquele juiz que fica apitando impedimento na lateral do campo. O sujeito mais normal dessa moçada aí cortou a orelha por causa de uma sirigaita qualquer. Já viu o nível, né? Só porra-louca de primeira. Tem um outro peroba aí que tem coragem de rimar "Êta" com "Tiêta" e neguinho ainda diz que ele é gênio!

Mais uma vez insinua-se que Eduardo seja um imbecil acéfalo (E o Eduardo gostava de novela) e crianção (E jogava futebol de botão com seu avô). A bem da verdade, Eduardo é um exemplo. Que adolescente de hoje costuma dar atenção a um idoso? Ele poderia estar jogando videogame com garotos de sua idade ou tentando espiar a empregada tomar banho pelo buraco da fechadura, mas não. Preferia a companhia do avô em um prosaico jogo de botões! É de tocar o coração. E como esse gesto magnânimo foi usado na letra? Foi só para passar a imagem de Eduardo como um paspalho energúmeno. É óbvio, para o autor, o homem não sabe de nada. Mulher sim, é maturidade pura.

Continuando, temos (Ela falava coisas sobre o Planalto Central, Também magia e meditação). Falava merda, isso sim! Nesses assuntos esotéricos é onde se escondem os maiores picaretas do mundo. Qualquer chimpanzé lobotomizado pode grunhir qualquer absurdo que ninguém vai contestar. Por que? Porque não se pode provar absolutamente nada. Vale tudo! É o samba do crioulo doido. E quem foi cair nessa conversa mole jogada por Mônica? Eduardo é claro, o bem intencionado de plantão. E ainda temos mais um achincalhe ao garoto (E o Eduardo ainda estava no esquema escola - cinema - clube - televisão). O que o Sr. Russo queria? Que o esquema fosse "bar da esquina - terreiro de macumba - sauna gay - delegacia"?? E qual é o problema de se ir a escola?!?

Em seguida, já se nota que Eduardo está dominado pela cultura imposta por Mônica (Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato e foram viajar). Por ordem:

1) Teatro e artesanato não costumam pagar muito imposto.

2) Teatro e artesanato não são lá as coisas mais úteis do mundo.

3) Quer saber? Teatro e artesanato é coisa de viado!!!

Agora temos os versos mais cretinos de toda a letra (A Mônica explicava pro Eduardo Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar). Mais uma vez, aquela lengalenga esotérica que não leva a lugar algum. Vejamos: Mônica trabalha na previsão do tempo? Não. Mônica é geóloga? Não. Mônica é professora de química? Não. A porra da Mônica é alguma aviadora? Também não. Então que diabos uma motoqueira transviada pode ensinar sobre céu, terra, água e ar que uma muriçoca não saiba?

Novamente, Eduardo é retratado como um debilóide pueril capaz de comprar alegremente a Torre Eiffel após ser convencido deste grande negócio pelo caô mais furado do mundo. Santa inocência... Ainda em (Ele aprendeu a beber), não precisa ser muito esperto pra sacar com quem... é claro, com a campeã do alambique! Eduardo poderia ter aprendido coisas mais úteis, como o código morse ou as capitais da Europa, mas não. Acharam melhor ensinar para o rapaz como encher a cara de pinga. Muito bem, Mônica! Grande contribuição!

Depois, temos (deixou o cabelo crescer). Pobre Eduardo. Aquela altura, estava crente que deixar crescer o cabelo o diferenciaria dos outros na sociedade. Isso sim é que é ativismo pessoal. Já dá pra ver aí o estrago causado por Mônica na cabeça do iludido Eduardo.

Sempre à frente em tudo, Mônica se forma quando Eduardo, o eterno micróbio, consegue entrar na universidade (E ela se formou no mesmo mês em que ele passou no vestibular). Por esse ritmo, quando Eduardo conseguir o diploma, Mônica deverá estar ganhando o seu oitavo prêmio Nobel.

Outra prova da parcialidade do autor está em (porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Mônica, que ficou de segunda época. Em suma, puxou ao pai e é burro que nem uma porta.

O que realmente impressiona nesta letra é a presença constante de um sexismo estereotipado. O homem é retratado como sendo um simplório alienado que só é salvo de uma vida medíocre e previsível graças a uma mulher naturalmente evoluída e oriunda de uma cultura alternativa redentora. Nesta visão está incutida a idéia absurda que o feminino é superior e o masculino, inferior. É sabido que em todas culturas e povos existentes o homem sempre oprimiu a mulher. Porém, isso não significa, em hipótese alguma, que estas sejam melhores que os homens. São apenas diferentes. Se desde o começo dos tempos o sexo feminino fosse o dominador e o masculino o subjugado, os mesmos erros teriam sido cometidos de uma maneira ou de outra. Por que? Ora, porque tanto homens quanto mulheres e colunistas sociais fazem parte da famigerada raça humana. E é aí que sempre morou o perigo. Não importa que seja Eduardo, Mônica ou até... Renato!”

Vejamos agora a mensagem num livro que inspirou vários filmes, trata-se de O PLANETA DOS MACACOS(LA PLANÈTE DES SINGES), escrito por Pierre Boulle, num trecho bem significativo de uma análise de autoria de Eduardo Torelli:

  “No desfecho da trama, não encontrei a imagem-choque de Charlton Heston e Linda Harrison cavalgando junto às ruínas da Estátua da Liberdade. Porém, sob certa perspectiva, a conclusão do romance era igualmente inquietante – e, talvez, ainda mais aterradora: o livro sugeria que os macacos haviam sucedido os seres humanos não apenas como senhores da terra, mas de todo o universo.

  Este, aliás, é um ponto de fundamental importância em La Planète Des Singes: na novela de Boulle, a palavra humano está imbuída do mesmo sentido com o qual costumava ser empregada na era Renascentista. Humano – no sentido de criatura privilegiada , eleita por deus, a raça dominante no universo. Quando o desafortunado Ulisses Mérou é aprisionado por uma cultura de macacos evoluídos , que vivem em um planeta da longínqua constelação de Órion, Boulle começa a questionar a veracidade deste conceito, confrontando-o com uma nova e surpreendente perspectiva: e se, em outras paragens do Cosmo, Deus tivesse invertido as regras do jogo? Ao ser caçado , estudado e tratado como um bom mascote por seus captores, Ulisses descobre que o conceito clássico de homem é uma farsa. Muitas são as moradas de Deus – ou suas faces:

  (...) Era decerto esse o motivo essencial do meu espanto: nas pupilas deste animal(o macaco) luzia a centelha espiritual que procurara em vão nos homens de Soror.”

- O Planeta dos Macacos (Capitulo IX, Primeira Parte)

  Mais interessada no potencial escapista da obra, Hollywood assimilou, apenas em parte, a mensagem metafísica da novela: o que Boulle nos diz em La Planète Des Singes é que realmente existe uma inteligência governando o Universo – mas que o fato desta achar-se encarnada no homem é, antes de tudo, uma obra do acaso. Diante do fracasso da civilização representada pelos astronautas do romance, esta inteligência migra para uma outra espécie – o que faz de Mérou e dos macacos meros invólucros corpóreos do espírito onipotente que controla seus destinos.”

O Planeta dos Macacos é um daqueles livros cujas adaptações cinematográficas acabam os ofuscando e eles são legados pelas editoras a um injusto segundo plano, quiçá ao esquecimento. Lançado em 1963 e imortalizado pelo filme de 1968 protagonizado por Charlton Heston, este relato é uma das mais profundas reflexões que a literatura já fez sobre questões como a evolução, a inteligência humana, o domínio da tecnologia e a racionalidade, entre outras. A edição mais recente disponível no Brasil, da Aleph, é um colírio para os olhos apaixonados por livros, com um excelente projeto gráfico e extras que complementam perfeitamente a narrativa.

A história, já bem conhecida por todos, é narrada em primeira pessoa pelo jornalista Ulysse Mérou.  Ele nos conta como embarcou como tripulante numa viagem de exploração do professor Antelle até a estrela Betelgeuse. Lá, encontram o planeta Soror, com condições de vida semelhantes à Terra, e decidem pousar para melhor efetuar suas pesquisas. Este planeta traz duas peculiaridades: os seres humanos que eles encontram vivem num estado selvagem, quase como animais; e os habitantes que formam uma sociedade bastante evoluída e organizada são macacos.

A partir do momento que Ulysse é caçado e preso junto a outros humanos, Boulle nos guia para dentro desse ambiente símio em que tudo é exatamente igual à nossa vida. Roupas, utensílios, costumes, níveis sociais… O mundo dos macacos é um reflexo do nosso, e esse aparente absurdo não causa nenhum choque, nem no personagem-narrador nem em nós leitores, tamanha a qualidade da escrita. Este planeta dominado pelos macacos é extremamente verossímil e serve de base para inúmeros debates e reflexões à cerca da capacidade evolutiva das espécies.

Quando Ulysse consegue chamar a atenção dos macacos para o seu lado racional e se mostra como um ser diferente dos demais humanos, ele é aceito para conviver e conhecer esse mundo. Através dos seus olhos, vamos desvendando como os macacos evoluíram ao ponto de deixar homens para trás, e vamos nos chocando ao sermos confrontados com situações que para nós são simples atos de lazer, mas que quando os papéis se invertem o incômodo é inevitável. Um dos exemplos mais marcantes é o passeio ao zoológico onde homens, mulheres e crianças estão atrás das grades para divertir os macacos e ganhar torrões de açúcar. E o que pensar de experiências de laboratório com cobaias humanas?

O relato de Ulysse nos mostra que é possível tanto regredir a um estado animalesco e perder a razão, o espírito, as emoções, quanto a readquirir estes mesmos sentimentos e características. E no jogo de perguntas que a história vai colocando em nossa cabeça, ficamos com a sensação de que o fato de ser dotado de uma alma racional não nos dá o direito de subjugar outras espécies inferiores. Tanto homens quanto macacos deixam a clara impressão de superioridade quando olham para o outro. Aquele orgulho de dominar o que o outro mal sabe identificar. É um comportamento correto? É um comportamento que se justifica simplesmente pela capacidade de pensar? Ou, em resumo, ser racional é sinônimo de ser superior?

Estas e muitas outras questões vão sendo levantadas à medida que a história avança, conduzindo magistralmente para um dos finais mais surpreendentes e, opinião minha, maravilhosos que já se produziu na literatura. Diferente do término do filme, O Planeta dos Macacos-livro se encerra de forma a esmagar todas as ideias ou esperanças que possamos ter concebido durante a leitura. Uma cena antológica que pode provocar choque, perplexidade ou até mesmo, risos.

Se você quer sair da sua zona de conforto de espécie dominante e fazer conjecturas sobre “e se…”, esta é uma leitura obrigatória. Pierre Boulle nos legou uma obra universal com todos os ingredientes para perturbar e provocar reflexões em infindáveis gerações. Sejam elas de leitores humanos ou macacos.

Avaliação: 5 Estrelas

O Autor: Pierre Boulle nasceu a 19 de fevereiro de 1912, em Avignon, França. Estudou Engenharia Eletrotécnica na Escola Superior de Eletricidade de Paris e, depois de ter exercido a profissão em França, mudou-se para a Malásia, em 1938. Na Segunda Guerra Mundial, com a ocupação da França pelas tropas alemãs, juntou-se à Missão Livre francesa em Singapura. Serviu como agente secreto com o nome de Peter John Rule, auxiliando o movimento de resistência da China, da Birmânia e da Indochina.

Suas duas obras mais famosas são A Ponte do Rio Kwai (1952) e O Planeta dos Macacos (1963), ambos convertidos para cinema com enorme sucesso. A Ponte do Rio Kwai reflete em grande medida as suas experiências enquanto prisioneiro de guerra, enquanto que O Planeta dos Macacos se concentra no descontentamento com o mundo, de cujo potencial para cometer atrocidades é bom conhecedor. Entre os seus últimos trabalhos contam-se La Baleine Des Malovines (1983), Le Professeur Mortimer (1988) e A Nous Deux Satan (1992). Pierre Boulle foi oficial da Legião de Honra, medalhado com a Cruz de Guerra e a Medalha da Resistência. Faleceu a 30 de janeiro de 1994, em Paris.

*Trata-se de Marçal Aquino, roteirista de O INVASOR, dirigido por Beto Brant, filme, aliás, muito bom.

 

 

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